Camila quadros



Baixar 5.01 Kb.
Pdf preview
Página30/46
Encontro17.03.2020
Tamanho5.01 Kb.
1   ...   26   27   28   29   30   31   32   33   ...   46
Paris a Salvador’?”. Ele respondeu que,  
É, de Paris a Salvador, porque independente de você tá num gueto, ou você tá 
em Salvador, ou Rio de Janeiro, ou você tá no primeiro mundo, o preconceito 
tá presente ali, nos aeroportos, nos lugares, nas formas de oferecer trabalho, é, 
embora  pareça  que  não,  continua  por  ali  o  preconceito,  sim,  continuam 
pessoas, negros vindo da África e se submetendo a subempregos, na Europa 
inteira e em qualquer outro lugar do mundo. Então a condição do negro ainda 
é uma condição que precisa ser discutida, trabalhada, enfim, de toda forma, 
assim como de outras minorias também, né, no caso aqui a gente tá falando da 
negritude.
229
 
 
Por esse motivo esse lamento não se limita a pensar só na realidade brasileira, assim 
como o Mestre reconhece que as desigualdades se dão entre diferentes grupos sociais, quando 
ele  se  refere  às  minorias.  Deste  modo,  as  canções  na  capoeira  se  tornam  um  veículo  de 
comunicação,  pelo  qual  os  capoeiristas,  além  de  construir  uma  identidade  negra,  também 
procuram questionar a sociedade em que vivem.  
Analisar  o  tema  da  abolição  da  escravidão,  por  meio  das  músicas  de  capoeira, 
inevitavelmente nos leva à ladainha “Dona Isabel”, do Mestre Toni Vargas
230
, por se tratar de 
uma canção repleta de significados e muito  conhecida pelos  capoeiristas  em  geral.  Ela foi  a 
primeira  canção  que  conhecemos  e  imediatamente  identificamos  uma  série  de  questões 
abordadas por ela. Ela foi lançada no CD Liberdade, no início dos anos 2000
231
, o qual começa 
com a leitura do artigo 412, do Capítulo 13, do Decreto n.º 847, do Código Penal da República 
do  Brasil,  publicado  no  dia  11  de  outubro  de  1890,  sobre  os  vadios  e  capoeiras  (o  qual  foi 
                                                           
228
 Ibidem. 
229
 Ibidem. 
230
 
Música 
retirada 
do 
CD 
Liberdade
do 
Mestre 
Toni 
Vargas, 
localizada 
em: 
. Acesso em 16 de nov. 2017. Anexos, canção 1. 
231
 Entrevista realizada com o Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 


75
 
 
apresentado  e  discutido  no  segundo  capítulo  deste  trabalho),  e  segue  com  a  ladainha.  A 
apresentação do Código já é bastante significativa, o que se complementa com a canção “Dona 
Isabel”: 
Dona  Isabel  que  história  é  essa  //  de  ter  feito  abolição  //  de  ser  princesa 
boazinha que libertou a escravidão // tô cansado de conversa, tô cansado de 
ilusão  //  abolição  se  fez  com  sangue  que  inundava  este  país  //  que  o  negro 
transformou em luta // cansado de ser infeliz // abolição se fez bem antes e 
ainda há por se fazer agora // com a verdade da favela // e não com a mentira 
da escola // dona Isabel chegou a hora // de se acabar com essa maldade // de 
se ensinar aos nossos filhos // o quanto custa a liberdade (...). 
 
Partindo da metodologia do Napolitano, a qual nos orienta para pensar o veículo de 
comunicação das canções, é necessário entender como se estrutura esse CD. Ele é composto 
por 17 canções, todas sob as temáticas da escravização dos negros, das resistências negras, do 
fortalecimento negro, da libertação, do combate ao racismo, etc. O que já podemos ver pelos 
títulos  das  músicas:  “Negro  forte”;  “Cidadão  considerado”;  “Alforriado”;  junto  com  “Dona 
Isabel”  e  “Dor,  dor,  dor”.  Assim,  de  maneira  geral,  as  ideias  presentes  nessas  canções,  de 
alguma forma, são reiteradas por todo o conjunto do CD.  
A referência à “Dona Isabel” é necessária, pois seus versos contemplam o que está 
presente em todas as outras canções analisadas. Primeiro, ela ignora o título de realeza e chama 
a Isabel por “dona”; ela também indaga o ouvinte, no sentido de esclarecer que história é essa, 
da  liberdade  ter  sido  feita  pela  princesa  ou  pela  Lei,  isso  é  uma  ilusão,  pois  a  verdadeira 
liberdade foi conquistada pelos negros (com o sangue que inundava o país). Pelo fato do Mestre 
Toni  Vargas  ter  contestado  a  mentira  da  escola,  com  a  verdade  da  favela,  questionando  a 
veracidade  dessa  história  da  abolição,  perguntamos:  “a  história  que  o  senhor  aprendeu  na 
escola, sobre a abolição no Brasil, é a que está presente na letra da música ‘Dona Isabel’? Se 
não, como e quando o senhor mudou de ideia em relação à abolição?”. Sua resposta: 
A música “Dona Isabel” é dos anos 80, e foi exatamente por esse tempo aí, 
que  eu  estava  fazendo  minha  pós-graduação,  que  eu  tinha  terminado  a 
universidade, que eu comecei a me dar conta de que, na realidade, a escola 
contava uma história a partir do ponto de vista do opressor. E, eu comecei a 
buscar,  por  outras  fontes,  que  não  eram  muitas  na  época,  inclusive  do 
movimento  negro,  que  se  iniciava  no  Rio  de  Janeiro,  e  que  havia  outras 
questões, outra forma de contar essa história, se ela fosse contada a partir de 
um outro viés, né, que era do oprimido, do negro, daquele que ficou à margem 
da  história.  Então,  eu  tava  buscando  isso,  porque  eu  queria  ser  educador  e 
como educador eu precisava ter um conhecimento mais profundo de quem eu 
era socialmente, da minha história, achar minha identidade histórico-cultural, 
pra me fazer sujeito.
232
 
 
                                                           
232
 Ibidem. 


76
 
 
Deste modo, esta canção, assim como as últimas que discutimos, contam a história da 
abolição por um outro viés, pelo qual o negro ganha o protagonismo. Elas compactuam da ideia 
de que foram as pressões escravas que abalaram a escravidão e que isso não necessariamente 
representou uma melhora significativa na vida dos negros brasileiros. Se considerarmos o que 
trabalhamos no nosso primeiro capítulo, notaremos que essa interpretação dos capoeiristas não 
só rejeita as análises de autores como Nabuco e Moraes, como as questionam, afinal ela afirma 
que a  Lei  não  adiantou.   Em  contrapartida,  esses versos das canções  se aproximam  bastante 
daquilo que Célia M. M. Azevedo aponta, o efeito social das revoltas escravas, como principal 
causa  da  abolição,  e  que  os  negros  continuaram  oprimidos  e  marginalizados  depois  da  Lei 
Áurea. 
No intuito de entender a qual abolição o Mestre Toni Vargas se referia, indagamos o 
seguinte:  “quando  o  senhor  canta,  ‘abolição  se  fez  bem  antes’,  ao  que  o  senhor  está  se 
referindo?”: 
Pois é, a abolição se fez bem antes, porque já havia vários movimentos, por 


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   26   27   28   29   30   31   32   33   ...   46


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal