Camila quadros


  Os  versos  da  capoeira  como  construção  de  narrativas  históricas  e  de



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3.3  Os  versos  da  capoeira  como  construção  de  narrativas  históricas  e  de 
memórias.  
Em nossas análises, conseguimos identificar diversos temas que são recorrentes nessas 
15  canções  selecionadas  para  o  trabalho
189
.  Como  as  canções  tratam  da  abolição,  quase  a 
totalidade delas refere-se ao passado escravista. Esse passado é construído por vários caminhos, 
um deles leva à África, como uma “terra querida”, onde existia liberdade, a cultura negra era 
preservada  e  valorizada;  também  é  a  “mãe  África”,  para  onde  eles  querem  voltar  com  suas 
famílias, já que é sua “terra natal”, da onde foram retirados para serem escravizados. Uma das 
nossas referências é a ladainha “Negralização”: “quis sumir daqui, Camará // e voltar pra mãe 
África, sua terra querida // ser livre pelos campos, dono de sua própria vida”
190
. O enaltecimento 
da África também ocorre na ladainha “13 de maio, dia da abolição”, do Mestre Limãozinho: “a 
mãe África seja louvada”
191
, diz a letra da canção.  
A vinda da África é contada pelos capoeiristas, que, em suas canções, falam dos navios 
negreiros  e  da  escravização  dos  africanos  em  terras  brasileiras.  O  Mestre  Limãozinho,  na 
ladainha que apresentamos acima, antes de louvar a África, canta o seguinte: “vieram em navios 
negreiros para o porto da Bahia // sem saber o que lhes esperava // toda noite, todo dia”. E o 
Mestre Fantasma, no lamento “Liberdade para todo o negro”, não difere muito: “liberdade para 
um povo inteiro que aqui no Brasil se escravizou // negro africano logo aqui chegando, já foi se 
escravizando // sem nada entender”
192
.  
                                                           
188
 CARVALHO, José Jorge de. Black music of all colors. The construction of black ethnicity in ritual and popular 
genres  of  afro-brazilian  music.  University  of  Brasília.  Série  Antropologia,  Brasília,  1993.  P.  2.  Apud.  DINIZ, 
Ibidem, p. 895. 
189
 Todas as canções estão apresentadas na íntegra, ao final deste trabalho, nos Anexos. 
190
 Não conseguimos identificar a data dessa composição, reproduzida pelo Grupo Cordão de Ouro, localizada em: 
. Acesso em 16 de nov. 2017. Anexos, canção 3. 
191
 Não conseguimos identificar a data dessa composição, ela foi retirada do CD  Berimbau de Ouro, do Mestre 
Limãozinho, localizada em: . Acesso em 16 de nov. 2017. 
Anexos, canção 4. 
192
 Não conseguimos identificar a data dessa composição, encontramos a versão do Mestre Fantasma, do grupo 
Escola Brasileira de Capoeira, localizada em: . Acesso em 
16 de nov. 2017. Anexos, canção 6. 


65
 
 
Há ainda a tentativa de reconstituir uma identidade propriamente africana a partir das 
canções, como aparece no corrido  “Guerreiro do Quilombo”, cantada pelo Mestre Barrão
193

“eu sou negro dos bantos de Angola // negro nagô // fomos trazidos pro Brasil // minha família 
se separou // minha mana foi vendida // pra fazenda de um senhor”. Essa canção, inclusive, vai 
além da questão do tráfico de africanos, pois menciona um outro aspecto na escravização dos 
negros, que era a separação das famílias. Isso também é cantado pelo Mestre Mancha, em sua 
quadra “Corrente não me prende mais”: “depois que assinaram a Lei Áurea // (...) vou lá na 
fazenda vizinha // buscar minha família que eu tanto amo”
194

  As narrativas sobre esse passado da escravidão abordam os trabalhos para os quais 
os  escravos  eram  encaminhados,  principalmente  aqueles  desempenhados  nas  lavouras, 
associando  a  capoeira  para  a  realização  das  tarefas,  como  é  o  caso  da  ladainha  do  Mestre 
Limãozinho, em que ele canta “criaram a capoeira pra poder se defender // era no corte da cana 
// no café para colher.” O rigor, ao qual eram submetidos em seus afazeres, também é relatado 
nas  canções,  como  faz  a  Carolina  Soares,  no  lamento  “Lei  Áurea”:  “dormem  presos  como 
animais, acorda cedo pra trabalhar // era na foice e no machado, com o facão nos canaviais // 
quatorze horas por dia, e sem poder reclamar // o negro caía cansado, logo era chicoteado”
 195

Um  aspecto  comum  nas  canções  que  se  referem  à  escravidão  é  a  referência  ao 
sofrimento  dos  escravos,  o  que  aparece  em  alguns  casos  de  maneira  bastante  sutil,  como 
podemos  ver na quadra  cantada pelo  Mestre Esquilo:  “leva pra longe daqui,  tudo  que o fez 
sofrer  //  do  tempo  da  escravidão  faz  o  nego  esquecer”
196
.  Já  em  outras,  isso  é  muito  mais 
explícito,  pois  as  canções  evidenciam  a  violência  física  e  emocional  (como  a  separação  das 
famílias)  sofrida  pelos  escravos.  Os  maus  tratos  são  simbolizados  por  algumas  figuras 
principais, como o chicote, o tronco e o feitor (ou o capitão do mato). O lamento cantado pela 
Carolina  Soares  é  uma  das  nossas  referências,  assim  como  a  quadra  do  Mestre  Mancha, 
“gritavam nossos ancestrais // vamos invadir o pelourinho // e o tronco vamos derrubar // vários 
negros  morreram  ali  //  na  mão  do  feitor  de  tanto  apanhar”
197
.  No  corrido  “Guerreiro  do 
                                                           
193
 Não conseguimos identificar a data dessa composição, encontramos a versão do Mestre Barrão, do grupo Axé 
Capoeira, 
localizada 
em: 
g/guerreiro-do-quilombo/>. Acesso em 16 de nov. 2017. Anexos, canção 5. 
194
 Música retirada do CD A cor da minha pele, lançado em 2017, pelo Mestre Mancha, do grupo Associação Iê 
Capoeira. Anexos, canção 7. 
195
  Essa  versão  dessa  música  foi  retirada  do  CD  Os  15  maiores  sucessos  da  capoeira,  lançado  em  2008,  por 
Carolina  Soares,  localizado  em:  .  Acesso  em  16  de  nov. 
2017. Anexos, canção 8. 
196
 Não conseguimos identificar a data da composição “Toca o tambor que é bom pro nego”, interpretada pelo 
Mestre Esquilo, do grupo Cordão de Ouro, localizada em: capoeira-corridos-songs-t/toca-o-tambor-que-e-bom-pro-nego/>. Acesso em 16 de nov. 2017. Anexos, canção 15. 
197
 “Corrente não me prende mais”, Mestre Mancha. Op. Cit. 


66
 
 
Quilombo”, isso fica ainda mais claro: “o meu pai morreu no tronco no chicote do feitor // o 
meu irmão não tem a orelha // porque o feitor arrancou”
198
.  
A quadra “Sinhá mandou chamar”, do Mestre Boa Voz, é um caso interessante, pois 
ela associa o capitão (do mato) ao “irmão” do escravo, compactuando da ideia de que ele era 
um negro não escravizado, ou que havia se libertado, ou que ganhara a prerrogativa de controlar 
os escravos: 
Sinhá  mandou  chamar  //  sinhá  mandou  dizer  //  que  se  o  nego  não  vir,  vai 
apanhar // (...) era assim que acontecia // se o negro não obedecesse // o capitão 
lhe prendia // pra bater na covardia //
 a dor era tanta // de ferir o coração // pois 
sabia que o castigo // quem lhe dava era o irmão.
199
  
 
Tendo  em  vista  essas  canções,  é  importante  lembrarmos  o  que  foi  abordado 
anteriormente,  em  relação  às  categorias  de  músicas  na  capoeira.  Considerando  aqueles 
referenciais metodológicos que Napolitano nos colocou, precisamos pensar o que e como se 
constituem essas canções dentro das rodas de capoeira. As letras por si só já dizem muito, no 
entanto elas são permeadas por rituais da roda (o momento em que elas são cantadas, se o coro 
responde,  quais  instrumentos  são  usados  em  sua  reprodução,  etc.)  que  contribuem  nessa 
significação. Por exemplo, várias das letras mencionada – como a dos versos como esse “quis 
sumir, Camará, e voltar pra mãe África, sua terra querida”
 200
 - são entoadas em ladainhas, que, 
conforme vimos, é um tipo de música cantada no começo da roda, só pelo tocador de berimbau, 
quando  todos  escutam  com  o  máximo  de  atenção.  Obviamente  que  a  mensagem  chega  ao 
capoeirista de uma forma muito significativa e emocionante, o que direciona e define a reação 
que ele tem diante da música. Já os versos de “Guerreiro do Quilombo” são cantados em um 
corrido, quando os capoeiristas estão jogando. Nesse caso, todos os instrumentos estão sendo 
tocados, a roda está sendo acompanhada por palmas e coro (o que aumenta o tom da música), 
os participantes estão bastante envolvidos, e escutam versos como “o meu pai morreu no tronco 
no chicote do feitor // o meu irmão não tem a orelha // porque o feitor arrancou”. O fato de todos 
cantarem juntos os versos e participarem da composição da melodia (com palmas), faz com que 
os  capoeiristas  se  identifiquem  com  o  personagem  dos  versos.  Ou  seja,  a  letra  sozinha  já  é 
bastante significativa, mas a maneira como é introduzida na roda (por meio de uma ladainha ou 
corrido, por exemplo) a torna ainda mais expressiva. 
                                                           
198
 “Guerreiro do Quilombo”, Mestre Barrão. Op. Cit. 
199
 Não conseguimos identificar a data dessa composição, encontramos a versão do Mestre Boa Voz, do grupo 
Abadá Capoeira, localizada em: s/sinha-mandou-chamar/>. Acesso em 16 de nov. 2017. Anexos, canção 9. 
200
 Ladainha “Negralização”, Cordão de Ouro. Op. Cit. 


67
 
 
Assim, percebemos quais visões essas músicas reproduzem acerca da escravidão, elas 
reiteram  um  passado  de  sofrimento  e  luta,  marcado  com  o  sangue  do  africano  escravizado, 
retirado de sua terra e separado da família, enviado para cá, para trabalhar em serviços pesados, 
ligados à economia da cana-de-açúcar e do café. É inegável a associação desses versos com a 
história que se consolidou no Brasil, sobre o período escravocrata, reforçando, especialmente, 
seu caráter violento. Eles não exploram a vertente de que o negro trabalhava em outros ofícios, 
acumulava rendas, o que lhe permitia algumas regalias e até a compra da alforria. 
Nesse  sentido,  também  devemos  pensar  como  essas  músicas  contribuem  para 
identificação dos capoeiristas com esse passado da escravidão, construindo neles uma memória 
com  essa  ancestralidade,  perpetuada  através  da  capoeira.  Isso  vai  ao  encontro  do  que  foi 
apresentado no início desse capítulo e no anterior, no que tange à capoeira a partir da década de 
1930 e 1970 (estudada pela autora Simone P. Vassalo), especialmente desse último período, a 
qual  se  aproximou  ao  Movimento  Negro,  cuja  empreitada  voltava-se  à  construção  de  uma 
identidade negra, ressignificando o passado escravista, destacando a resistência à escravidão e 
também ao racismo contemporâneo.  
Esse intuito de formar uma identidade negra a partir da escravidão é tão latente, que 
nos permite pensar na canção “Dor, dor, dor”, do Mestre Toni Vargas: “meu bisavô me falou // 
que no tempo da escravidão // era dor, muita dor, tanta dor // morriam de dor os negros meus 
irmãos”
201
. Isso porque, no desenvolvimento deste trabalho, realizamos uma entrevista com o 
Mestre Toni Vargas, a fim de esclarecer diversas questões sobre suas músicas
202
. Acerca deste 
trecho, fizemos a seguinte indagação: “o senhor canta na música que seu bisavô falou sobre o 
tempo da escravidão. Isso é verdade, o senhor é descendente de negros ou escravos?”. Para qual 
ele respondeu, 
Eu não posso afirmar que seja descendente de negros ou escravos, tudo indica 
que não, né. Até onde eu pude ir na história da minha família, tudo indica que 
não.  Eu  tô  falando  do  ponto  de  vista  material.  Mas,  certamente,  eu  tenho 
certeza  absoluta,  que  espiritualmente  eu  sou  descendentes  de  negros  e 
escravos, eu aceito isso, creio nisso. E, enfim, de uma forma ou de outra, isso 
sempre me tocou profundamente, foi o que me levou a fazer músicas como 
essa. 
 
Portanto, o Mestre não tem descendência familiar direta com os escravos, sendo que 
ele  realmente  não  é  negro.  Porém,  sua  experiência  como  capoeira  e  através  de  sua 
                                                           
201
De acordo com as informações dadas pelo Mestre Toni Vargas, essa música foi composta em meados da década 
de 1980, e a retiramos do CD Liberdade, lançado nos primeiros anos da década de 2000. Anexos, canção 2.  
202
 Entrevista realizada com o Mestre Toni Vargas, Grupo Senzala, por Camila Quadros, no dia 13 de novembro 
de 2017. 


68
 
 
espiritualidade  (ele  pertence  ao  Candomblé,  uma  religião  de  origem  afro-brasileira
203
),  ele 
conseguiu estabelecer esse vínculo com os negros escravos. É importante explicarmos quem é 
o Mestre, seu nome completo é Antônio César de Vargas, tem 59 anos e pratica capoeira há 49 
anos. Ele nasceu no Rio de Janeiro, no bairro de Encantado, no subúrbio carioca. Foi formado 
Mestre pelo Mestre Peixinho, do Grupo Senzala, em 1985. Na década de 1980, ele fez uma pós-
graduação em dança, sobre a qual ele falou “foi um curso muito completo, com história da arte 
da música, enfim, muito importante para mim.”. Começamos nossa entrevista com a seguinte 
indagação, “de que forma o senhor acha que a capoeira contribui na formação de uma identidade 
negra?”, à qual ele respondeu: 
Eu acho que a capoeira traz em si toda uma questão implícita da cultura negra, 
né, através das canções, de alguns hábitos que a gente tenta manter, de uma 
hierarquia que é própria, como herança de uma cultura negra, de uma forma 
de estruturar o pensamento. Coisas que são bem claras, como o ritmo, enfim, 
a corporeidade e tudo mais que a gente usa. E coisas que são mais sutis, que 
às vezes a gente mesmo não sabe e acaba carregando, e dando continuidade a 
questões ancestrais, que muitas vezes a gente até só vai descobrir depois. Mas, 
de uma forma ou de outra, eu creio que a capoeira tá sempre contribuindo, 
sim,  pra  que  se  tenha  uma  identidade  cultural  ou  uma  identidade  cultural 
negra, pela sua história e pela forma como ela se manifesta. Creio ainda que, 
seguir com a capoeira é sempre uma forma de resistência cultural, e é dar voz 
à cultura negra. Então, quando ela é interpretada em sua plenitude, porque é 
claro  que  podem  ter  outras  interpretações,  mas  eu  creio  que  em  sua 
interpretação mais profunda, sempre vai privilegiar o fortalecimento de uma 
identidade negra.
204
 
 
Com  esse  depoimento,  também  conseguimos  notar  aquilo  que  havíamos  dito 
anteriormente, quanto à construção da identidade negra, através da história da escravidão, da 
cultura negra, inclusive pela capoeira. E, como nossas leituras anteriores indicavam que, a partir 
da década de 1970, a capoeira havia se aproximado do Movimento Negro, consideramos que 
seria oportuno perguntar ao Mestre se ele “teve ou tem contato com o movimento negro, no 
sentido de grupos que reivindiquem uma identidade negra e lutem pela condição do negro no 
país? Se sim, esse contato influenciou em sua relação com a capoeira?”. Ele respondeu que
Eu não tive contato, não tenho contatos atuais com a turma que se manifesta 
diretamente,  com  o  pessoal  do  movimento  negro,  hoje  em  dia.  Eu  já  tive 
contatos,  mais  esporádicos,  no  passado,  mas  eu  sempre  procurei  ter  o  meu 
trabalho como artista e capoeirista, um pouco independente dos movimentos 
que  eu  encontrei.  Porque  eu  nunca  consegui  me  engajar  direito,  sempre 
acabava  vendo  algum  tipo  de  preconceito  acontecendo,  e  eu  sou, 
primordialmente,  a  capoeira  me  ensinou,  a  lutar  contra  qualquer  tipo  de 
preconceito. Então, eu acho super válidos os movimentos, mas acho que tem 
                                                           
203
 Entrevista exibida no vídeo “Mestre Toni responde”, publicado no dia 5 de setembro de 2016, no canal digital 
do Mestre Toni Vargas, localizado em:  . Acesso em  16 de 
nov. 2017 
204
 Entrevista realizada com o Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 


69
 
 
que haver, sim, mas o meu trabalho vai correndo, como sempre correu, através 
da capoeira, eu sou capoeirista. Então, como eu disse, o meu contato nunca foi 
um contato muito, vamos dizer, muito organizado, nunca foi um contato que 
eu possa colocar aqui pra você. Acho que os contatos que eu tive foram mais 
esporádicos, e acho que isso não me influenciou na capoeira. Foi o contrário, 
foi a capoeira que me influenciou, pra prestar atenção no movimento negro. A 
capoeira que me fez prestar atenção nas minhas raízes negras e querer buscar 
isso, como uma ideologia pessoal. Foi a capoeira que me chamou a atenção 
pra isso.
205
 
 
Considerando o que as canções trazem sobre o passado escravocrata, podemos analisar 
o tema central deste trabalho, com relação à abolição no Brasil, sobre o qual não há consenso 
nas  músicas.  Em  sete  canções,  a  princesa  Isabel  aparece  como  protagonista  na  história  da 
abolição, elas defendem que a Lei Áurea libertou os negros e que agora eles podem gozar da 
liberdade. É o que podemos ver na quadra “Salve a Princesa Isabel”, do Mestre Eziquiel, “salve, 
salve, salve a princesa Isabel no mundo inteiro // com a pena e o papel // acabou com o cativeiro 
// (...) não existem mais escravos // hoje quem joga é o patrão”
206
.
 
Não conseguimos identificar 
a  data  dessa  composição,  a  única  informação  que  dispomos  é  a  versão  cantada  pelo  Mestre 
Eziquiel.  No  entanto,  acreditamos  que  essa  é  uma  das  canções  mais  antigas,  pois  o  Mestre 
nasceu em 1941 e faleceu em 1997, segundo o autor Hellio Campos (Mestre Xaréu)
207
. Isso 
poderia servir como uma justificativa, já que ela pode ser uma música anterior aos anos de 1970, 
quando o Movimento Negro elabora uma interpretação crítica à abolição e à princesa Isabel, 
conforme vimos anteriormente.  
No entanto, essa não é a única canção que enaltece a princesa Isabel, pois o lamento 
do  Mestre  Fantasma,  apresenta  o  seguinte:  “salve,  salve  dona  princesinha,  salve  a  princesa 
Isabel // que acabou com a escravidão, que Deus a tenha lá no céu”
208
. O Mestre Limãozinho 
também presta sua homenagem à princesa:  
Iê,  no  dia  treze  de  maio,  comemora  a  abolição  //  cativeiro  se  libertou  da 
arrogância do patrão // dizem que foi Isabel que acabou com a humilhação // 
e libertou os escravos para seguir sua tradição sua cultura, sua crença, a sua 
religião // (...) hoje negro nasce livre.
209
 
  
Inclusive,  essa  última  se  trata  de  uma  ladainha,  intitulada  “13  de  maio,  dia  da 
abolição”, o que nos indica o aspecto da valorização do dia em que foi assinada a Lei Áurea, 
contrariando  o  discurso  que  se  construiu  a  partir  da  década  de  1970  (especialmente  pelo 
                                                           
205
 Idem. 
206
 Localizada em:  . Acesso em 16 de 
nov. 2017. Anexos, canção 10. 
207
 CAMPOS, Hellio. Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba. EDUFBA: Salvador, 2009. Pp. 272 – 274. 
208
 “Liberdade para todo o negro”, Mestre Fantasma. Op. Cit. 
209
 “13 de maio, dia da abolição”, Mestre Limãozinho. Op. Cit. 


70
 
 
Movimento  Negro),  que  reivindica  o  papel  do  negro  no  seu  processo  libertador.  Conforme 
vimos  no  capítulo  anterior,  a  figura  da  princesa  Isabel,  assim  como  a  Lei  Áurea,  foram 
“substituídas” pelo culto ao Zumbi dos Palmares (como o herói libertador negro), conferindo 
ao dia 20 de novembro a data de comemoração da Consciência Negra, ao invés das celebrações 
no dia 13 de maio.  
A quadra do Mestre Boa Voz também segue essa linha de defender a abolição: “hoje 
em dia é diferente // com a abolição da escravatura // a corda que amarrou o negro // hoje trago 
na cintura”
210
. É interessante notar a referência que o Mestre faz à corda, pois o contato que 
tivemos ao longo desses anos com a capoeira (especialmente com o Grupo Senzala de Capoeira) 
nos ensinou que, desde a década de 1960, a corda é usada para segurar o abadá (a calça branca 
do capoeirista), ela representa a dedicação do praticante e também a hierarquia do grupo, pois 
o capoeirista vai sendo graduado com as cordas, à medida que ele ganha experiência no grupo. 
Na canção, ela é associada à tortura no escravo, e, atualmente, é o distintivo do negro como 
capoeirista, simbolizando sua liberdade.  
O que pudemos notar é que a questão temporal não serve como a única justificativa 
provável  para  essas  canções  (ser  anterior  à  década  de  1970,  por  exemplo),  já  que  o  Mestre 
Mancha lançou, em 2017, a quadra “Corrente não me prende”: “corrente não me prende mais 
//  depois  que  assinaram  a  Lei  Áurea  //  (...)  agora  eu  posso  ir  e  vir  //  sem  ninguém  pra  ficar 
vigiando”
211
.  
Duas  canções  diferem  um  pouco  dessa  interpretação,  sem  negar  a  importância  e  os 
efeitos positivos da abolição, pois eles associam a uma outra concepção, pela qual entendemos 
que a princesa Isabel enfrentou resistência para assinar a Lei Áurea. É o caso da quadra “Lei 
Áurea”, do Mestre Capú: “nego acuado (...) // dependia de um papel branco pra poder se libertar 
// Lei Áurea // uma princesa que se chamava Isabel // que depois foi acusada de dormir com o 
negão // quebra a corrente abre as portas da senzala”
212
. Aqui a mensagem é que a princesa não 
tinha apoio para assinar a Lei, porém o fez, ação que foi julgada posteriormente. Ainda assim, 
está presente a ideia de que o “papel branco”, a Lei, garantiu a liberdade aos negros. Há uma 
outra referência quanto a isso, que deixa mais explícito, pois seu compositor chega a mencionar 
a  “corte”  nesse  processo  abolicionista  e  de  assinatura  da  Lei  Áurea,  indicando  que  um 
                                                           
210
 “Sinhá mandou chamar”, Mestre Boa Voz. Op. Cit. 
211
 “Corrente não me prende mais”, Mestre Mancha. Op. Cit. 
212
 Não conseguimos identificar a data dessa composição, feita pelo Mestre Capú, do Grupo Gingado Capoeira, 
localizada  em:  .  Acesso  em  16  de  nov.  2017.  Anexos, 
canção 11. 


71
 
 
determinado grupo social não desejava a abolição: “era princesa // mas a corte não queria // que 
dona Isabel assinasse a carta de alforria // mas ela assinou”
213
.  
Por  intermédio  dessas  canções,  que  evidenciam  a  assinatura  da  Lei  Áurea  como 
libertação  dos  negros,  nós  conseguimos  estabelecer  algumas  semelhanças  com  o  primeiro 
capítulo  deste  trabalho,  especialmente  no  sentido  da  abolição  ter  sido  abordada  de  formas 
distintas pelos autores, o que as letras das canções também fazem. Além disso, autores como 
Joaquim Nabuco e Evaristo de Moraes interpretaram a abolição pela via legislativa, através da 
ação do Parlamento, de maneira que a lei garantiria o fim da escravidão. De alguma forma, é 
essa concepção que conseguimos notar nessas canções. 
No  entanto,  nem  todas  as  canções  selecionadas  defendem  esses  argumentos.  Ao 
contrário  dessas,  outras  oito  apresentam  uma  abordagem  bastante  distinta,  pois  rejeitam  à 
história oficial, negam que a libertação dos escravos veio através da princesa e muitas sequer 
acreditam que o negro realmente é livre, tecendo severas críticas à condição atual dos negros 
no país. Isso fica claro na ladainha “Rei Zumbi”, do Mestre Moraes, que afirma o seguinte: “a 
história nos engana // diz tudo pelo contrário // até diz que abolição // aconteceu no mês de maio 
// a prova dessa mentira // é que da miséria eu  não saio”
214
.  A  ladainha  “Negralização”,  do 
Grupo Cordão de Ouro, segue a mesma lógica, “quem foi que disse que Isabel que me salvou, 
Camará // quem foi que disse que a minha liberdade // foi o fruto da bondade da princesa se 
enganou  //  a  libertação  do  negro,  não  foi  bem  assim,  Camará”
215
.  Essas  duas  ladainhas  são 
significativas,  pois  indagam  o  capoeirista  sobre  uma  suposta  história,  pela  qual  o  negro  se 
libertou através da ação da princesa ou pela Lei. Essas canções conseguem propor uma reflexão 
para quem está ouvindo, se considerarmos que isso é feito quando a roda está começando, todos 
os participantes estão concentrados na música que está sendo tocada, conseguimos perceber o 
efeito que essas músicas têm. 
As reprovações e as acusações à princesa Isabel, feitas pelos capoeiristas, continuam 
em  outros  casos,  como  “Guerreiro  do  Quilombo”,  do  Mestre  Barrão,  “a  liberdade  não  tava 
escrita em papel // nem foi dada por princesa cujo nome Isabel”
216
. Ou no corrido “Princesa 
Isabel”: “princesa Isabel, princesa Isabel // onde está a liberdade // se a algema não se quebrou 
                                                           
213
 Não conseguimos identificar a data da composição “Eu grito Aiê”, do Mestre Feijão, grupo Abadá Capoeira, 
localizada em: . Acesso em 
16 de nov. 2017. Anexos, canção 12. 
214
  Não  conseguimos  identificar  a  data  da  composição  “Rei  Zumbi”,  feita  pelo  Mestre  Moraes,  do  grupo  de 
Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), localizada em: quadras/a-historia-nos-engana-mestre-moraes/>. Acesso em 16 de nov. 2017. Anexos, canção 13. 
215
 “Negralização”, Cordão de Ouro. Op. Cit. 
216
 “Guerreiro do Quilombo”, Mestre Barrão. Op. Cit. 


72
 
 
// (...) princesa  Isabel, princesa Isabel // liberdade do negro só tá no papel”
217
. Há também a 
queixa sobre a ideia de que o papel (a Lei) significou liberdade aos negros, conforme canta o 
Mestre Esquilo: “fala pra dona Isabel que sua lei não adiantou // que o nego ainda sofria, depois 
que ela assinou”
218
. O argumento presente é de que a abolição não libertou os escravos e nem 
representou  uma  melhora  na  condição  de  vida  dos  negros,  de  acordo  com  a  ladainha  “Lei 
Áurea”, cantada por Carolina Soares: “1888 a Lei Áurea, Isabel assinou // o negro foi jogado 
na rua, essa lei não adiantou”
219
. Ou seja, não só não transformou a vida do negro, como ainda 
o colocou em uma situação de maior vulnerabilidade, afinal ele teria sido abandonado na rua. 
Através desses versos, as canções procuram questionar o lugar social que os negros 
ocupam atualmente. Os capoeiristas usam essas músicas como forma de denúncia do racismo e 
da marginalização social que os negros sofrem, uma estratégia de mobilizar a capoeira, a cultura 
negra, como um instrumento a fim de fortalecer os negros, para combater a opressões atuais. O 
Mestre Moraes, em sua ladainha, canta o seguinte: “(...) até diz que abolição // aconteceu no 
mês do maio // a prova dessa mentira // é que da miséria eu não saio // (...) muitos tempos se 
passaram // e o negro sempre a lutar // apesar de toda luta, colega velha // o negro não se libertou, 
Camará”
220
.  A  Carolina  Soares  continua  sua  ladainha  cantando  que  “o  negro  já  não  apanha 
mais, mas continua na escravidão”
221
. O corrido “Princesa Isabel”, propõe, inclusive, a seguinte 
pergunta: “onde está a liberdade // se a algema não se quebrou // o negro quer felicidade // o 
negro também quer ser doutor”
222
. E o Mestre Esquilo aponta para a desigualdade racial, de 
forma que evidencia a crítica: “faz o nego se lembrar que ele tem valor // que ele não é diferente, 
por causa de sua cor”
223

Nesse  sentido,  discutiremos  agora  duas  canções  específicas,  pois  foram  compostas 
pelo Mestre Toni Vargas, sobre as quais temos maiores informações, são elas “Dor, dor, dor” e 
“Dona  Isabel”,  ambas  escritas  na  década  de  1980
224
.  Outra  característica  evidente  dessas 
canções,  em  especial,  é  quanto  à  interpretação  do  Mestre.  Para  quase  todas  as  canções  que 
discutimos nesse trabalho, esse aspecto é importante, pois a maioria costuma ser interpretada 
com bastante ênfase e intensidade (como é o caso de “Lei Áurea”, do Mestre Capú, “Guerreiro 
                                                           
217
  Não  conseguimos  identificar  a  data  e  a  autoria  dessa  composição,  localizada  em:  music.net/all-capoeira-songs/all-capoeira-corridos-songs-p/princesa-isabel-princesa-isabel/>. 
Acesso 
em 
16/11/17. Anexos, canção 14. 
218
 “Toca o tambor que é bom pro nego”, Mestre Esquilo. Op. Cit. 
219
 “Lei Áurea”, Carolina Soares. Op. Cit. 
220
 “Rei Zumbi”, Mestre Moraes. Op. Cit. 
221
 “Lei Áurea”, Carolina Soares. Op. Cit. 
222
 “Princesa Isabel”. Op. Cit. 
223
 “Toca o tambor que é bom pro nego”, Mestre Esquilo. Op. Cit. 
224
 Entrevista realizada com o Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 


73
 
 
do  Quilombo,  do  Mestre  Barrão,  entre  outros).  No  entanto,  a  interpretação  do  Mestre  Toni 
Vargas é uma de suas principais características, tanto pelo seu tom de voz, quanto pela emoção 
que ele transmite quando canta essas músicas, o que colabora para torna-las nossas principais 
referências. 
Sobre a primeira, o Mestre canta, “o sangue jorra no chicote do feitor // (...) dona Isabel 
sua lei não adiantou // dor, dor, dor (coro) // 
o
 negro morre de Paris a Salvador // (coro) // o 
sangue jorra na caneta do doutor // (coro) // a raça negra não nasceu para ter senhor”
225
. O coro 
dessa canção é justamente o lamento “dor, dor, dor”, ou seja, conforme o cantador coloca suas 
insatisfações e queixas (“o negro morre de Paris a Salvador”), ele é acompanhado pelo restante 
dos  capoeiristas,  que  ressaltam  o  sofrimento  e  a  dor  do  negro.  Assim,  a  mensagem  é 
compreendida de uma forma muito mais sentimental e próxima daqueles que estão ouvindo. É 
válido dizer que, na interpretação do Mestre Toni Vargas, ele procura enfatizar esses versos, 
por exemplo, aumentando a voz, conferindo à canção um tom ainda mais grave. Sobre esses 
versos, pudemos indagar o Mestre algumas questões: “por que o senhor diz: ‘dona Isabel sua 
lei não adiantou’?”, para qual ele respondeu:  
Digo que a lei não adiantou, porque o negro continua a ser perseguido, a ficar 
subdesenvolvido, marginalizado, enfim, não ser visto, é invisível, dentro de 
uma sociedade branca, de uma sociedade opressora, então a lei realmente não 
resolve, literalmente, para inglês ver.
226
 
 
Então,  perguntamos:  “alguns  versos  da  música  se  assemelham,  ‘o  sangue  jorra  do 
chicote do feitor’ e ‘o sangue jorra da caneta do doutor’. Por que o senhor estabeleceu essa 
semelhança?”. Ele respondeu que,  
Essa semelhança para mim é clara, né, porque hoje aquele que tá com a caneta, 
tá de posse do poder, aquele que a caneta fica como um símbolo, que substitui 
o chicote, porque ela serve pra bater, pra retirar, pra penalizar, é, pra manter, 
de qualquer forma, as pessoas nessa situação, infelizmente, subalternas, enfim, 
sem acesso às coisas. Através dessas canetadas que os políticos dão, são as 
chicotadas que o povo recebe, infelizmente, até hoje.
227
 
 
Desta forma, percebemos que o Mestre, assim como as canções anteriores, constroem 
um argumento crítico à abolição, afirmando que a condição do negro não mudou, muitas vezes 
associando  à  escravidão.  E,  por  isso,  decidimos  fazer  o  seguinte  questionamento  ao  Mestre 
Toni: “para o senhor, de que forma o negro continua sendo escravo?”. A resposta foi:  
Olha, eu tenho certeza de que o negro continua sendo escravo, assim como o 
branco também, que não tem acesso, continua sendo escravo, o índio continua 
sendo escravo, porque, pra mim liberdade tá muito vinculada à possibilidade 
                                                           
225
 “Dor, dor, dor”, Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 
226
 Entrevista realizada com o Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 
227
 Ibidem. 
 


74
 
 
de  conhecimento,  à  possibilidade  real  de  crescimento,  e,  também,  à 
consciência, então, muita gente não consegue ter a isso. Quer dizer, um tipo 
de  educação,  por  exemplo,  que  possa  vir  a  ser  conscientizadora,  porque 
quando  a  gente  não  tem  consciência,  quando  a  gente  não  tem  identidade, 
quando a gente não sabe a nossa história, a gente é escravo de alguma forma. 
Então, no caso eu tava me referindo à raça negra, tava me referindo ao negro, 
mas  acho  que  isso  vale  para  qualquer  tipo  de  oprimido,  né,  que  não  tenha 
acesso e não possa desenvolver uma consciência, né, não possa crescer como 
cidadão,  como  sujeito  de  sua  história,  ele  acaba  estando  numa  condição  de 
escravidão.
228
 
 
Sendo assim, fica claro o discurso de denúncia sobre as opressões sociais, às quais os 
negros continuam sendo submetidos. Além disso, no lamento “Dor, dor, dor”, o Mestre Toni 
não se restringe a pensar na condição do negro só no Brasil, pois ele afirma que “o negro morre 
de Paris a Salvador”. Sobre isso, perguntamos a ele: “por que o senhor canta ‘o negro morre de 



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