Camila quadros


Canções como fontes: método e critérios para a pesquisa histórica



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3.1 Canções como fontes: método e critérios para a pesquisa histórica. 
A  metodologia  que  está  sendo  utilizada,  para  a  análise  das  canções  apresentadas,  é 
baseada,  principalmente,  no  trabalho  do  historiador  Marcos  Napolitano
170
,  no  qual  ele 
estabelece uma série de critérios que devem ser levados em consideração quando temos músicas 
como fontes de uma pesquisa histórica cultural. 
A  questão  metodológica  central,  que  vem  emergindo  dos  debates,  é 
problematizar a música popular, e particularmente a canção, a partir de várias 
perspectivas, de maneira a analisar “como” se articulam na canção – musical 
e poeticamente  – as tradições, identidades e ideologias que a definem, para 
além das implicações estéticas mais abstratas, como um objeto sociocultural 
complexo  e  multifacetado.  (...)  Nesse  sentido,  é  fundamental  a  articulação 
entre “texto” e “contexto” para que a análise não se veja reduzida, reduzindo 
a  própria  importância  do  objeto  analisado.  O  grande  desafio  de  todo 
pesquisador  em  música  popular  é  mapear  as  camadas  de sentido  embutidas 
numa  obra  musical,  bem  como  suas  formas  de  inserção  na  sociedade  e  na 
história (...).
171
  
 
Cabe  ressaltar  alguns  desses  critérios,  importantes  para  nosso  trabalho:  Napolitano 
coloca que deve haver uma dupla articulação entre o musical e o verbal das canções, ou seja, 
“o efeito global da articulação dos parâmetros poético-verbal e musical é que deve contar, pois 
é a partir deste efeito que a música se realiza socialmente e esteticamente.”
172
. Outro quesito 
observado pelo autor é a relação entre a música e sua interpretação (performance), pois, muitas 
vezes, é a performance que dá o “tom” na canção, imprimindo nela um significado para além 
do que é cantado, pois faz com que o ouvinte seja tocado de uma forma diferente. Nas palavras 
de Napolitano, “a performance ou ato performático configura um processo social (e histórico) 
que é fundamental para a realização da obra musical.”
173
.  
Para ele, as músicas devem ser analisadas também a partir de uma sociologia histórica, 
o que significa que devem ser ponderados “os diversos agentes e instituições sociais envolvidos 
com  a  normatização  da  experiência  social  da  música  numa  dada  sociedade.  As  bases 
sociológicas da criação musical devem ser analisadas com muita sutileza (...).”
174
. Por isso, é 
importante observar os grupos sociais nos quais as músicas se inserem, assim como os aspectos 
que os caracterizam. O historiador chama a atenção para os conceitos de “passado”, “herança 
cultural” e “tradição”, pois eles são constantemente redimensionados e resignificados, o que 
exige esse cuidado por parte do historiador. Ele afirma que “temos uma pluralidade de tempos 
                                                           
170
 NAPOLITANO, Marcos. História e Música – história cultural da música popular. 3ª edição. Belo Horizonte: 
Autêntica, 2016, especialmente o capítulo III, “Para uma história cultural da música popular”. pp. 77 – 111. 
171
 Ibidem, p. 77. 
172
 Ibidem, p. 80. 
173
 Ibidem, p. 85. 
174
 Ibidem, p. 88. 


61
 
 
e  tradições,  muitas  vezes  conflitiva,  que  transforma  a  criação  e  o  consumo  musical  num 
labirinto histórico, em cujas galerias, se encontram vários passados, materializando em vários 
estilos, gêneros e temas poético-musicais.”
175
.  
Por  fim,  Napolitano  considera  a  importância  da  escuta,  da  relação  entre  o  público 
ouvinte e o cantador, já que ela pode se dar de modo a confirmar uma identidade, tradição (o 
que Napolitano chama por “aurático”); de forma descompromissada ou crítica, gerando, neste 
caso, um  choque e ruptura com  a estrutura musical.
  176
 Ou seja, é necessário entender que a 
escuta  do  público  não  se  faz  de  maneira  homogênea  ou  alienada,  assim  como  é  preciso 
reconhecer que a relação da música com os ouvintes está condicionada a uma série de fatores, 
que acabam interferindo na recepção e percepção das canções.
177
 
Esses  aspectos  são  relevantes, pois,  na medida do possível,  tentamos  contemplá-los 
em  nossas  análises,  o  que  fizemos  ao  considerar  as  categorias  das  músicas  na  capoeira;  o 
momento em que elas são cantadas (se no início da roda ou durante o jogo); a relação com o 
instrumental, especialmente o berimbau; a relação que a música estabelece com os ouvintes, 
por  exemplo,  com  a  resposta  do  coro,  nas  louvações  das  ladainhas,  ou  nos  corridos,  que 
intensificam o tom da música; o meio que essas músicas são reproduzidas, seja nas rodas de 
capoeira, ou pelos CDs - no caso das canções “Dona Isabel e “Dor, dor, dor”, o CD contribui 
no  reforço  das  mensagens  dessas  canções.  Enfim,  de  alguma  forma,  esses  referencias  do 
Napolitano nortearam nosso trabalho. 
 



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