Camila quadros



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políticos. Educação Física em Revista.
 Universidade Católica de Brasília, vol. 2, nº 2, 2008. P. 3 e 4.  
158
 Ibidem, p. 4 
159
 Idem. Resistência ou Conflito? O legado folclorista nas atuais representações do jogo da capoeira. Revista 
Campos – Antropologia. Universidade Federal do Paraná, vol. 7, nº 1, 2006. Pp. 71 – 82. P. 75.  


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sistema opressor, que o escraviza para o trabalho. Vassalo analisa que “a retórica da “luta do 
fraco contra o forte” vai ganhando novos contornos, sempre com o intuito de denunciar uma 
situação de opressão.”
 160
 
Para  que  esse  processo,  de  ressignificação  da  capoeira  contemporânea  fique  mais 
claro,  propomos  uma  breve  discussão  acerca  do  movimento  negro,  da  década  de  1970, 
embasada pelo autor Petrônio Domingues.
161
 Em seu artigo, ele analisa a história do movimento 
negro, durante todo o período republicano no Brasil, dividindo-a em quatro fases distintas, de 
acordo  com  as  transformações  que  ele  nota  no  movimento.  Para  o  presente  trabalho,  nos 
interessa observar suas reflexões acerca da terceira fase, para ele, ocorrida entre 1978 e 2000, 
pois vincula-se com o que foi abordado por Simone P. Vassalo. O autor afirma que no início da 
década de 1970 começam a surgir alguns grupos do movimento negro, em diversas regiões do 
país, que assumem uma postura diferente em relação ao combate ao racismo. Por exemplo, em 
Porto Alegre, no ano de 1971, é fundado o Grupo Palmares, o primeiro no país a defender a 
substituição das comemorações do dia 13 de maio para o dia 20 de novembro, relacionando-as 
com Zumbi dos Palmares
162
. Essa nova postura se fortaleceu com a fundação do Movimento 
Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR), em 1978.
 163
 
Segundo o autor Domingues, 
No Programa de Ação, de 1982, o MNU defendia as seguintes reivindicações 
“mínimas”:  desmistificação  da  democracia  racial  brasileira;  organização 
política  da  população  negra;  transformação  do  Movimento  Negro  em 
movimento de massas; formação de um amplo leque de alianças na luta contra 
o  racismo  e  a  exploração  do  trabalhador;  organização  para  enfrentar  a 
violência  policial;  organização  nos  sindicatos  e  partidos  políticos;  luta  pela 
introdução da História da África e do Negro no Brasil nos currículos escolares, 
bem como a busca pelo apoio internacional contra o racismo no país.
164
 
 
A partir de então, de acordo com o autor, o movimento negro passou  a buscar uma 
nova identidade racial e cultural para o negro, enfatizando as próprias características étnicas, 
“africanizando” o movimento, através da valorização do cabelo, das roupas, danças, músicas, 
jogos e até hábitos alimentares.
165
 Nesse sentido, eles passaram a rechaçar a cultura e a ideia da 
                                                           
160
 Ibidem, p. 76. 
161
  DOMINGUES,  Petrônio.  Movimento  Negro  Brasileiro:  alguns  apontamentos  históricos.  Revista  Tempo 
[online]. Universidade Federal Fluminense, vol.12, nº 23, 2007. Pp.100-122. 
162
 Sobre esse assunto, é  interessante a leitura do artigo:  SILVEIRA, Oliveira.  “Vinte de  Novembro:  história e 
conteúdo”. Petrolinha. B. G. Silva e Valter. R. Silvério (orgs.) Educação e ações afirmativas: entre a injustiça 
simbólica e a injustiça econômica. Brasília, INEP/MEC, 2003, p. 21-42. 
163
 DOMINGUES. Op. Cit, p. 112 e 113. 
164
 Ibidem, p. 114. 
165
 Ibidem, p. 116. 


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mestiçagem, a qual, para eles, servia à política de “embranquecimento”, anulando a identidade 
negra, em prol da imagem do mestiço. 
Domingues aponta para as diversas intervenções do movimento negro naquela época, 
que  objetivavam  reconstruir  a  história  do  negro  no  país,  reconhecendo  e  revalorizando  seus 
aspectos  específicos.  Por  exemplo,  no  âmbito  religioso,  o  movimento  até  então  havia  sido 
cristão,  entretanto,  passam  a  cultuar  as  religiões  de  matriz  africana,  como  o  candomblé  e  a 
umbanda  (conforme  já  havíamos  apresentado  por  Vassalo)
166
.  Também  na  educação,  com  a 
revisão de conteúdos preconceituosos em relação ao negro e na exigência do ensino da história 
da África, entre outras demandas educacionais. De acordo com o autor
Pela  primeira  vez  na  história,  o  movimento  negro  apregoava  como  uma  de 
suas palavras de ordem a consigna: “negro no poder!”. O culto da Mãe Preta, 
visto como símbolo da passividade do negro, passou a ser execrado. O 13 de 
Maio, dia de comemoração festiva da abolição da escravatura, transformou-se 
em  Dia  Nacional  de  Denúncia  Contra  o  Racismo.  A  data  de  celebração  do 
MNU passou a ser o 20 de Novembro (presumível dia da morte de Zumbi dos 
Palmares), a qual foi eleita como Dia Nacional de Consciência Negra. Zumbi, 
aliás,  foi  escolhido  como  símbolo  da  resistência  à  opressão  racial.  Para  os 
ativistas, “Zumbi vive ainda, pois a luta não acabou”.
167
 
 
Pelo o que foi apresentado do autor Petrônio Domingues, conseguimos compreender 
o que foi abordado acerca da capoeira contemporânea. O intuito de torná-la parte da identidade 
negra brasileira, de ressaltar seu lado cultural, e não só esportista, reconstruir a sua história, sob 
a perspectiva da resistência do oprimido, tudo isso se inseriu em um contexto maior, embasado 
pelas lutas do movimento negro nas décadas de 1970 e 1980. E, até hoje, podemos dizer que 
essas características, de modo geral, ainda estão presentes na capoeira. 
 
****** 
 
Esse  capítulo  procurou  demonstrar  as  transformações  da  capoeira  ao  longo  da  sua 
história, enfatizando as características que a constituíram, desde os tempos em que começou a 
ser praticada. Tudo indica que a capoeira entrou na nossa história no ano de 1770, como uma 
atividade feita por negros, que incomodavam a ordem pública. Portanto, ao longo de todos esses 
anos, ela já foi um transtorno ao país; foi um campo de atuação política e de exercício de poder; 
uma atividade criminosa; um esporte nacional; e hoje é vista como uma cultura afro-brasileira. 
Certamente os caminhos que ela percorreu foram diversos e estiveram ligados a uma série de 
                                                           
166
 Ibidem, p. 115 e 116. 
167
 Ibidem, p. 115. 


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fatores  externos  a  ela.  Ela  já  teve  muitos  objetivos  e  significados,  desde  uma  simples 
confraternização entre negros, até uma luta perigosa e uma resistência à opressão. A questão 
aqui era mostrar esses variados aspectos da trajetória da prática, para que possamos entender 
que quando falamos sobre capoeira, estamos falando de algo que é plural, nos mais diversos 
sentidos. Como dizem os versos, “capoeira é um pequeno navio/solto nas ondas do mar”.
168
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                           
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 Música “Uma vez perguntei a seu Pastinha”. Mestre Toni Vargas, do Grupo Senzala de Capoeira. 

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