Camila quadros


  As  rodas  de  capoeira  vão  para  as  academias:  de  contravenção  a  prática



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2.4  As  rodas  de  capoeira  vão  para  as  academias:  de  contravenção  a  prática 
esportiva e cultural (1930 – 1970). 
A  partir  dos  anos  1930,  tem  início  longo  processo  cujo  sentido  será  o  de 
gradual  desvinculação  da  capoeira  da  criminalidade  e  do  mundo  do  crime. 
Trata-se da lenta ascensão e aceitação sociais da capoeira. (...) a capoeira se 
exibirá em recepções oficiais, será reconhecida como autêntica manifestação 
da cultura popular nacional, e, sobretudo, começará a ser ensinada em escolas 
especializadas, as “academias”.
134
 
 
Já  foi  abordada  anteriormente  a  relação  que  os  capoeiristas,  da  segunda  metade  do 
século  XIX, mantinham  com  os  militares,  o que podemos  apontar como  um  dos  fatores  que 
encaminhará a capoeira como sendo um esporte nacional. Pires apresenta que, ainda durante o 
período da repressão, mais especificamente em 1907, foi publicado um livro com o pseudônimo 
de O.D.C. – que o autor identificou que se tratava oficial da Marinha, Garcez Palha - contendo 
algumas regras e métodos de ensino da luta.
135
 Pires também comenta que, em 1905, o tenente-
capitão Santos Porto  e o 1º tenente Radler de Aquino traduziram um livro sobre a educação 
física  japonesa,  no  qual  Santos  Porto  fez  o  seguinte  comentário  no  prefácio:  “entre  nós,  em 
tempos que já vão longe, os exercícios de agilidade conhecidos por capoeiragem floresceram 
                                                           
132
 Ibidem, p. 60 e 64. 
133
 Ibidem, p. 70. 
134
 CONDURU. Op. Cit, p. 30. 
135
 Guia da capoeira ou ginástica brasileira oferecido por O.D.C. à distinta juventude. Rio de Janeiro, Livraria, 
Nacional, 1907. Biblioteca Nacional. Apud PIRES. Op. Cit, p. 138. 


50
 
 
mesmo entre filhos das mais distintas famílias.”.
136
 Com isso, podemos considerar que aquelas 
relações  que  a  capoeira  mantinha  com  os  militares,  desde  o  século  XIX,  favoreceram  nesse 
processo  de  torná-la  um  esporte  nacional,  como  uma  alternativa  para  sua  sobrevivência,  a 
despeito da política republicana de reprimi-la. 
Pires  afirma  que  outro  fato  importante  nesse  processo  foi  a  publicação  do  livro 
“Gymnastica Nacional (capoeiragem) Methodizada e Regrada”, em 1928, cujo autor, Annibal 
Burlamaqui,  conhecido  como  “Zuma”,  detalha  diversos  aspectos  da  capoeira,  apresentando 
golpes,  explicando  técnicas  e  métodos  de  ensino,  caracterizando-a  como  uma  luta  marcial  e 
retirando sua parte “lúdica”, como os cantos, batucadas, palmas e improvisos. Segundo o autor, 
Burlamaqui já se dedicava há bastante tempo à prática esportiva e, para ele, sua obra era um 
gesto  de  patriotismo  e  brasilidade,  pois,  em  suas  palavras,  seu  objetivo  era  a  “destruição  do 
arcaico  e  tolo  preconceito  de  que  a  ginástica  brasileira  –  a  capoeiragem  –  desdoura  a  quem 
pratica”.
137
 Pires analisa que, 
Essa imagem de um praticante da capoeira, nos anos 20, rompe com a imagem 
do  capoeira  no  século  XIX.  Ela  deixa  de  estar  vinculada  ao  estereótipo  do 
marginal,  relacionado  àquelas  pessoas  que  praticavam  a  extorsão,  se 
envolveram  em  conflitos  entre  grupos  de  bairros  diferentes  e  que  andavam 
armadas de navalha e paus. A imagem de Zuma ainda aparece desprovida de 
qualquer forma pejorativa, como a do “malandro”, do “Bamba”, valentão e 
“cafajeste”,  que  tendiam  a  dar  uma  conotação  peculiar  à  cultura  dos 
capoeiras.
138
 
 
Nesse  sentido,  Pires  lembra  um  outro  nome  importante,  Agenor  Moreira  Sampaio, 
nascido em Santos, em 1891, morou no Rio de Janeiro na década de 20, quando chegou a ser 
instrutor da polícia especial e da polícia municipal. Conhecido como Sinhôzinho, sempre esteve 
ligado às práticas desportistas, foi treinador de vários clubes esportistas cariocas e, segundo o 
autor,  após  Burlamaqui,  foi  um  dos  principais  responsáveis  por  defender  a  capoeira  como 
esporte nacional. Ele afirmava que: “prefiro não a [capoeira] classificar como dança, jogo ou 
luta.  A  meu  ver  trata-se  da  verdadeira  ginástica  nacional”
139
.  Em  1931,  o  jornal  Diário  de 
Notícias publicou uma notícia com o rosto de Sinhôzinho, como o responsável pela ressurreição 
da capoeira.
140
 
                                                           
136
  HANCOCK,  H.  Irving.  Educação  física  japonesa.  Tradução  de  Santos  Porto  e  Radler  de  Aquino.  Cia 
Tipográfica do Brasil, Rio de Janeiro, 1905, p.2 Apud. PIRES. Ibidem, p. 139. 
137
  BURLAMAQUI.  Annibal  (Zuma).  Gymnastica  Nacional  (capoeiragem)  Methodizada  e  Regrada.  Rio  de 
Janeiro. S/e 1928, p. 6. Apud. PIRES. Ibidem, p. 143. 
138
 Ibidem. 
139
 Arquivo particular de Rudolf Hermanny. Mimeo. Apud. PIRES. Ibidem, p. 148. 
140
 Jornal Diário de Notícias, domingo, 20 de novembro de 1931. Apud. PIRES. Ibidem. 


51
 
 
Com a ascensão do governo de Getúlio Vargas, essas tentativas de tornar a capoeira 
uma luta e um esporte nacional (que já datavam do início do século XX), encontram espaço na 
política  de  construção  da  identidade  nacional  brasileira,  empreendida  por  teóricos  que 
buscavam  na  nossa  história  símbolos  e  referências  para  essa  identidade.  De  acordo  com 
Guilherme F. Conduru, “o desenvolvimento de uma capoeira ‘acadêmica’ a partir da introdução 
de uma metodologia de ensino teve como pressuposto uma conjuntura político-ideológica na 
qual a questão da identificação e da construção de uma cultura nacional encontrava-se no centro 
do debate intelectual.”
141
 
Um dos efeitos disso será a formação das academias de capoeira, destinadas ao treino 
da  luta,  especialmente  em  Salvador,  da  onde  vem  os  dois  principais  nomes  cultuados  na 
capoeira  atualmente:  Mestre  Bimba  e  Mestre  Pastinha.  Aquele,  chamado  Manoel  dos  Reis 
Machado,  fundou  a  primeira  academia,  em  1932,  chamada  de  Centro  de  Cultura  Física  e 
Capoeira  Regional  da  Bahia,  onde  ele  aprimorou  a  capoeira  como  uma  luta  marcial, 
introduzindo movimentos de outras lutas, que ficou conhecida como “capoeira regional”. Ele 
exigia  que  seus  alunos  fossem  estudantes  ou  trabalhadores,  aplicava  exames  de  admissão, 
ministrava curso básico e de especialização, além das cerimônias de formatura. Dessa forma, 
Bimba colocava a capoeira como uma prática educativa, mantendo alguns princípios militares, 
como a hierarquia e a disciplina.
142
 
A  partir  de  então,  alguns  fatos  se  tornam  significativos  na  história  da  capoeira:  no 
desfile  de  Dois  de  Julho,  de  1936,  Bimba  e  seus  alunos  estiveram  presentes;  em  1937  ele 
conseguiu a autorização legal para o funcionamento da sua academia (quando podemos dizer 
que, na prática, a capoeira deixava de ser crime); entre 1939 e 1942, ele se tornou professor no 
Centro de Formação de Oficiais da Reserva do Exército, em Salvador; e em 1953, ele fez uma 
exibição pública para o presidente Getúlio Vargas. Assim, percebemos como se deu essa fase 
da ascensão da capoeira, descriminalizando-a e conquistando aceitação social
143

Contemporâneo  a  isso,  desenvolveu-se  um  outro  estilo  de  capoeira,  também  muito 
valorizado  atualmente:  a  “capoeira  angola”,  criada  por  Vicente  Ferreira  Pastinha,  o  famoso 
Mestre Pastinha, que inaugurou sua academia em 1941, chamada Centro Esportivo de Capoeira 
Angola. É interessante notar que ambos os nomes, das academias dos Mestres, fazem referência 
à prática esportiva e física. Dentro da capoeira, até hoje, é comum que haja uma clara distinção 
                                                           
141
 CONDURU. Op. Cit, p. 31. 
142
 Ibidem. 
143
 Ibidem. 


52
 
 
entre a capoeira regional e a capoeira angola (inclusive pelos toques do berimbau), classificando 
a segunda como mais tradicional e autêntica.  
Acerca desse assunto, Simone P. Vassalo apresenta algumas reflexões interessantes.
144
 
Ela  discorre  sobre  a  política  cultural  empreendida  no  Brasil,  por  volta  dos  anos  1930,  por 
antropólogos  e  intelectuais  que  buscaram  na  cultura  popular  aspectos  que  constituiriam  a 
identidade brasileira. Segundo a autora, esses “folcloristas”, por exemplo, Édison Carneiro e 
Renato  Almeida,  forjam  a  ideia  de  que  o  nordeste  brasileiro  preservava  nossas  tradições, 
enquanto o sudeste era alvo dos projetos de modernização nacional.
145
 Isso servia, inclusive, 
para  a  capoeira  baiana,  em  contraposição  à  capoeira  carioca.  E,  mesmo  dentro  da  capoeira 
baiana, eles criavam a ideia de que havia uma mais tradicional do que a outra. Temos como 
exemplo o Segundo Congresso Afro-brasileiro, realizado em 1937, em Salvador, para o qual 
seus organizadores, entre eles Édison Carneiro e Jorge Amado, chamam representantes somente 
da capoeira angola.
146
  
Como já foi comentado, Mestre Bimba exigia que seus alunos tivessem uma ocupação 
reconhecida socialmente. A associação entre a prática e o trabalho era feita também por Mestre 
Pastinha,  que  procurava  ressaltar  a  qualificação  profissional  de  seus  alunos:  “ensinei  para 
muitos estudantes de direito, de farmácia, de medicina, de quase todas as profissões”.
147
 Nesse 
sentido, Vassalo destaca que Pastinha pôde contar com o apoio de “professores”, “doutores” e 
até  de  pessoas  importantes  daquela  época,  como  Jorge  Amado  e  o  artista  plástico  Carybé, 
garantindo a ele reconhecimento e prestígio entre os artistas, inclusive. A autora, ao longo do 
seu trabalho, retoma a trajetória do Mestre, apresentando seus depoimentos:  
É  com  a  maior  alegria  que  verifico  como  se  apagou  essa  dúvida.  Hoje,  a 
Capoeira Angola é praticada por todas as camadas sociais, goza da proteção e 
prestígio das autoridades, por ser uma das mais autênticas manifestações do 
folclore nacional.
148
 
 
Pastinha  implantou  uma  série  de  novidades  na  sua  prática  da  capoeira:  a  registrou, 
criou um estatuto, sistematizou as regras, os cantos, os toques e a utilização dos instrumentos 
musicais, criando uma hierarquia para tocadores na roda.
149
 Ao mesmo tempo que ele inovava 
a capoeira, ele buscava sua “africanidade”, o que podemos ver até no nome dado para seu estilo 
                                                           
144
 VASSALO, Simone Pondé. “Capoeiras e intelectuais: a construção coletiva da capoeira "autêntica".” Estudos 
Históricos. Rio de Janeiro, nº 32, 2003, p. 106-124. 
145
 Ibidem, p. 109. 
146
 Ibidem, p. 111. 
147
 Ibidem, p. 113. 
148
 O Estado de São Paulo, 16 de novembro de 1969. Apud VASSALO. Ibidem, p. 114 e 115. 
149
 Ibidem, p. 113. 


53
 
 
de jogo, “capoeira angola”. Isso se via pelos toques de berimbau e um fato significativo, nesse 
sentido, foi sua participação na delegação brasileira do 1º Festival Mundial de Artes Negras, 
em Senegal, em 1966.
150
 
Sendo assim, é interessante analisar alguns pontos relacionados à capoeira angola e 
seu reconhecimento como “tradicional”. Vassalo afirma que pesquisadores como Luiz Renato 
Vieira e Antônio L. C. S. Pires já mostraram que, antes de 1930, não há registros da prática da 
capoeira angola.
151
 Ao mesmo tempo, o próprio Mestre Pastinha, em diversas circunstâncias, 
confirmou  que,  em  muitos  aspectos,  ele  inovou  a  capoeira,  construindo  para  ela  uma  nova 
imagem,  associada  à  cultura  brasileira  e  ao  treinamento  físico.  No  entanto,  devido  ao  seu 
contexto social (época dos intelectuais “folcloristas” e da construção da “identidade brasileira”), 
junto com o meio social no qual ele mantinha relações amigáveis (por exemplo, os artistas), 
garantiram que Mestre Pastinha fosse reconhecido como o verdadeiro representante da capoeira 
autenticamente brasileira. Como considerou Vassalo,  
Essa  modalidade  de  jogo  não  pode  ser  pensada  como  uma  atividade 
eminentemente tradicional, mas também como um produto da modernidade, 
marcada  pela  ávida  busca  de  recuperação  de  um  passado  considerado  mais 
autêntico e que, muitas vezes, não é mais do que uma invenção do presente, 
elaborada a partir de um contexto contemporâneo.
152
 
 



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