Camila quadros


A criminalização da capoeira e sua marginalização (1890 – 1938)



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2.3 A criminalização da capoeira e sua marginalização (1890 – 1938). 
De acordo com o que foi visto, podemos perceber que a capoeira que se desenvolveu 
até  o  final  dos  anos  1880  constituía-se  por  aspectos  culturais  (na  medida  em  que  mantinha 
tradições  dos  escravos  africanos  e  crioulos);  aspectos  sociais,  pois  diversos  grupos 
participavam, diferentes etnias e classes sociais; e também políticos, já que ela de alguma forma 
assimilada e instrumentalizada na política partidária imperial. Agora, veremos que o golpe que 
acabou  com  o  Império,  proclamando  a  República,  também  atingiu  a  capoeira  que  existia 
naquela  época.  Os  impactos  sociais  que  ela  causava  na  capital  do  Rio  de  Janeiro,  durante  o 
século  XIX,  juntamente  com  as  relações  políticas  que  os  capoeiristas  mantinham  com  os 
partidos, principalmente os monarquistas, deixaram um alto preço a ser pago durante a Primeira 
República. O trabalho do autor Pires ainda serve como base para nossos estudos acerca desse 
contexto.
121
 
Ainda no final de 1889, com a nomeação do republicano João Batista Sampaio Ferraz 
para chefe da polícia na capital federal, a política de repressão à capoeira foi instalada, o que é 
compreensível tendo em vista o histórico de tal figura. Desde 1880, quando ele era promotor 
público no foro, ele tentava combater os capoeiras, o que lhe rendeu elogios feitos em crônicas 
                                                           
120
 Ibidem, p. 49. 
121
  PIRES,  Antônio  Liberac  Cardoso  Simões.  “Capítulo  2:  A  criminalização  da  capoeira.  Aspectos  da  política 
republicana  na  cidade  do  Rio  de  Janeiro  (1890-1938).”  In:  Culturas  Circulares.  A  Formação  Histórica  da 
Capoeira Contemporânea no Rio de Janeiro. Editora Progressiva, Curitiba, 2010. Pp. 51 – 135. 


47
 
 
cariocas dez anos depois. Chegou a se envolver nos conflitos entre republicanos e monarquistas, 
como  o  episódio  Travessa  da  Barreira,  no  qual  houve  um  intenso  confronto  entre  o  Partido 
Republicano  e  a  Guarda  Negra.
122
  Por  isso,  Pires  avalia  que  os  ataques  empreendidos  por 
Sampaio  Ferraz,  aos  grupos  de  capoeiras,  tinham  também  a  intenção  política  de  combater 
monarquistas.
123
 No Rio de Janeiro, já em 22 de novembro de 1889 foram registradas prisões 
de  dois  capoeiras,  e  em  uma  semana  do  mês  de  dezembro  foram  efetuadas  111  prisões  de 
capoeiras. Uma das primeiras medidas implantadas por Sampaio Ferraz foi a extinção da polícia 
secreta,  rompendo  com  a  cumplicidade  que  os  capoeiras  tinham  com  políticos,  durante  a 
monarquia.
124
 
Segundo o autor, “para Sampaio Ferraz os presos não deveriam ser mandados para o 
“xadrez”,  para  não  dar  tempo  aos  advogados  de  liberá-los;  sua  proposta  era  “deportá-los 
imediatamente. Tudo e todos para o mar”.”
125
  Dessa  maneira,  autores  como  José  Murilo  de 
Carvalho apontam para deportações de capoeiras para o Mato Grosso e há indícios que cerca 
de 600 capoeiras teriam sido mandados a Fernando de Noronha, durante os primeiros anos da 
República.
126
  Assim,  mesmo  antes  da  aprovação  do  Código  Penal,  Sampaio  Ferraz  já  havia 
implantado uma forte campanha para reprimir a capoeira, o que rendeu, no mínimo, 297 prisões 
em 1890, de acordo com as fontes policiais investigadas por Pires. Tais registros permitem que 
seja  delineado  um  perfil  desses  presos,  enquadrados  como  capoeiras:  artesãos  (38,1%),  sem 
profissão  (23,5%),  trabalhadores  de  rua  (22,5%),  trabalhadores  domésticos  (11,4%), 
trabalhadores  no  comércio  (4,5%).  Em  relação  à  origem  étnica,  eram  identificados  brancos 
(34,1%), pardos (27,9%), pretos (26,5%), morenos (6,6%) e fulos (4,0%).
127
 
Tal política também foi notada por fontes literárias e jornalísticas, como apresentou 
Pires, por exemplo, o jornal Diário de Notícias, que, no dia 16 de dezembro de 1889, teve a 
seguinte  publicação:  “Antigamente  esses  malvados  serviam  ao  soldo  da  polícia,  mas  hoje, 
cremos servirão em Fernando de Noronha, onde o trabalho os tornará arrependidos do mal que 
fizeram, ensinando-lhes o caminho que devem seguir quando de lá saírem”.
128
 Em janeiro de 
1980, esse periódico também publicou uma poesia composta por trovadores da época:  
“É polícia das primeiras/ É levadinho do diabo;/ Deu cabo dos capoeiras, / Vai 
dos gatunos dar cabo/ Já da navalha afiada/ A ninguém o medo aperta;/ Vai 
                                                           
122
 Ibidem, p. 53. 
123
 Ibidem, p. 55. 
124
 Ibidem, p. 54. 
125
 Ibidem, p. 54. 
126
 CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. Cia. das Letras, 
São Paulo, 1987, p. 179, nota 25 e p. 155. Apud. CONDURU. Op. Cit, p. 29. 
127
 PIRES. Op. Cit, p. 56. 
128
 Jornal Diário de Notícias 16 de dezembro de 1889, p. 12. Apud. PIRES. Ibidem, p. 54. 


48
 
 
poder  a  burguesada/  Ressonar  com  a  porta  aberta/  A  ir  assim  poderemos/ 
Andar mui sossegadinhos (...)”
129
.  
 
Ou seja, podemos perceber que a repressão aos capoeiras foi amplamente praticada na 
sociedade da época, conseguindo apoio popular, o que é um indicativo de como a capoeiragem 
era  vista  naquele  contexto.  Em  1890,  é  aprovado  o  novo  Código  Criminal,  o  qual 
institucionalizou  aquilo  que  Sampaio  Ferraz  já  vinha  fazendo  com  tanta  severidade,  pois 
determinava que:  
Artigo  402  –  Fazer  nas  ruas  e  praças  públicas  exercícios  de  agilidade  e 
destreza  corporal,  conhecidos  pela  denominação  de capoeiragem:  andar  em 
correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, 
provocando  tumulto  ou  desordens,  ameaçando  pessoa  certa  ou  incerta,  ou 
incutindo temor, ou algum mal: Pena: prisão celular de dois a seis meses. 
Artigo  403  –  No  caso  de  reincidência  será  aplicada  ao  capoeira,  no  grau 
máximo a pena do artigo 400, pena de um a três anos em colônias penais que 
se  fundarem  em  ilhas  marítimas,  ou  nas  fronteiras  do  território  nacional, 
podendo para esse fim serem aproveitados os presídios militares existentes. 
Parágrafo único – Se for estrangeiro será deportado depois de cumprir a pena. 
Artigo  404  -  Se  nesses  exercícios  de  capoeiragem  perpetrar  homicídios, 
praticar lesões corporais, ultrajar o pudor público e particular, e perturbar a 
ordem, a tranquilidade e a segurança pública ou for encontrado com armas, 
incorrerá cumulativamente nas penas cominadas para tais crimes.
130
  
 
Desta  maneira,  ficava  claro  como  a  política  republicana  iria  agir  em  relação  aos 
capoeiras. Conforme analisa Pires, o artigo 402 atingia diretamente os indivíduos identificados 
como capoeiristas e também seus respectivos grupos. O próximo artigo, ao determinar sobre a 
reincidência, estabeleceu relação direta com o ócio, pois o artigo 400 tratava da reincidência na 
vadiagem, abordada pelo artigo 399, formalizando-se, assim, a associação dos capoeiras como 
vadios. Isso valeria, inclusive, para estrangeiros, um indício dessa diversidade étnica que existia 
na capoeiragem. Assim, o autor afirma que,  
Dessa  forma,  o  sistema  de  repressão  poderia  alcançar  os  capoeiras  por 
qualquer comportamento que quebrasse a ordem estabelecida. A repressão aos 
capoeiras  se  pautou  em  algumas  estratégias:  a  primeira,  buscar  cercear  as 
atividades  da  capoeiragem  de  forma  individual  ou  em  grupo;  a  segunda, 
desarmar  os capoeiras.  Enfim,  produziu-se  a imagem  dos  capoeiras  fora do 
mundo do trabalho: eles eram considerados vadios, malandros, desordeiros, 
cafajestes, capadócios etc.
131
 
 
O autor reuniu 560 processos-crimes, apoiados pelo artigo 402 do Código, o que lhe 
permitiu notar que a repressão aos capoeiras durou até 1938, sendo que entre 1900 e 1910 houve 
                                                           
129
 Jornal Diário de Notícias. 19 de janeiro de 1890, p. 6. Apud. PIRES. Ibidem, p. 56 e 57. 
130
 Código Penal de 1890. Apud. PIRES. Ibidem, p. 57, 58 e 59.  
131
 Ibidem, p. 60. 


49
 
 
a primeira grande investida
132
. Suas fontes indicaram que, apesar dessa política repressiva, as 
maltas ainda causavam transtornos públicos no início do século XX e conseguiram resistir até 
a segunda década, mantendo algumas tradições das nações Nagoa e Guaiamu.
133
 A partir de 
suas pesquisas, Pires apresenta uma série de fatos e características dos capoeiras, encontrados 
nos  arquivos  policiais.  No  capítulo  2  de  seu  livro,  ele  narra  numerosos  casos,  pelos  quais 
percebemos como se deram as relações dos capoeiras com a política da Primeira República; os 
aspectos culturais que envolviam a capoeiragem, juntamente com questões referentes às classes 
sociais do Rio de Janeiro; os conflitos entre nacionalidades, advindos da diversidade étnica dos 
capoeiristas; entre outros aspectos, na fase em que ela esteve proibida. Dessa forma, podemos 
concluir que, mesmo quando as condições políticas deixaram de ser favoráveis, os capoeiras 
encontraram  formas  de  driblar  as  perseguições  policiais,  mantendo  assim  suas  tradições,  na 
medida em que isso era possível. 
 



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