Camila quadros


A capoeira toma as ruas: difusão social e significados políticos (1830 – 1890)



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2.2 A capoeira toma as ruas: difusão social e significados políticos (1830 – 1890). 
No decorrer do século XIX, a capoeira passou por transformações,  ganhando novos 
públicos, espaços e significados. Conduru afirma  que “não foi por acaso que cronistas como 
Lima Campos e Coelho Neto se referiram ao tempo de Dom Pedro II como o da fase de apogeu 
da  capoeira:  ‘Durante  o  Segundo  Império,  a  capoeira  chegou  ao  auge,  foi  verdadeiramente, 
aquela época, a do seu pleno domínio e máximo desenvolvimento.’”.
105
 Sobre isso, Antônio L. 
C. S. Pires se torna uma das principais referências
106
, pois seus estudos - embasados em fontes 
policiais, jornalísticas e até literárias do Rio de Janeiro, como o trabalho “Os Capoeiras”, de 
Plácido  de  Abreu
107
  -  demonstram  como  a  capoeira  se  constituiu  ao  longo  de  1800, 
especialmente na segunda metade do século.  
Uma das características  da capoeira naquele período era a relação que ela mantinha 
com instituições militares, como o Exército e a Guarda Nacional, o que lhe garantia proteção à 
repressão,  além  de  ganhos  mútuos  para  ambos  os  lados
108
.  Pires  aponta  para  o  número 
significativo  de  soldados  capoeiristas,  o  que  foi  determinante  na  forma  como  eles  se 
comportavam  no  espaço  público,  adotando  hierarquia,  disciplina,  métodos  de  lutas  e  treinos 
específicos  para  cada  grupo
109
.  Um  exemplo  que  temos  dessa  relação,  é  a  participação  de 
capoeiras  na  Guerra  do  Paraguai,  o  que  rendeu  diversos  relatos,  inclusive  de  oficiais, 
reconhecendo-os  e  os  valorizando.  Cid  e  Castro  apresentam  uma  narrativa  de  Manuel 
Raimundo Querino, autor do livro “A Bahia de Outrora”, publicado em 1955, abordando tal 
acontecimento histórico: 
Por ocasião da guerra com o Paraguai o governo da então Província fez seguir 
bom  número  de  capoeiras;  muitos  por  livre  e  espontânea  vontade,  e 
                                                           
104
 CONDURU. Op. Cit, p. 25. 
105
 Ibidem, p. 26. 
106
 PIRES, Antônio Liberac Cardoso Simões. “A capoeira na segunda metade do século XIX na cidade do Rio de 
Janeiro. In: Culturas Circulares. A Formação Histórica da Capoeira Contemporânea no Rio de Janeiro. Editora 
Progressiva, Curitiba, 2010. Pp. 25 – 51.
 
107
 Ibidem, p. 26. 
108
  CID,  Gabriel  da  Silva  Vidal;  CASTRO,  Maurício  Barros  de.  Capítulo  13:  “Da  capoeiragem:  a  capoeira,  a 
violência, o esporte e a cultura popular em debate no Rio de Janeiro.” In: PIRES, Antônio Liberac Cardoso Simões; 
FIGUEIREDO, Francine Simplício; FILHO, Paulo Andrade Magalhães; MACHADO, Sara Abreu da Mata (Org.). 
Capoeira em múltiplos olhares: estudos e pesquisas em jogo. Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino 
Traço, 2016. Coleção UNIAFRO, 13. P. 208.    
109
 PIRES. Op. Cit, p. 41. 


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muitíssimos  voluntariamente  constrangidos.  E  não  foram  improfícuos  os 
esforços  desses  defensores  da  Pátria,  no  teatro  de  luta,  principalmente  nos 
assaltos  à  baioneta.  E  a  prova  desse  aproveitamento  está  no  brilhante  feito 
d’armas praticado pelas companhias de Zuavos Bahianos, no assalto ao forte 
de  Curuzú,  debandando  os  paraguaios,  onde  gargalhadamente  fincaram  o 
pavilhão nacional.
110
  
 
Isso  é  um  indicativo  das  relações  que  se  desenvolveram  entre  a  capoeiragem  e  a 
sociedade  urbana,  pois  também  havia  o  envolvimento  com  prostitutas,  ladrões,  falsários, 
estudantes, políticos, artistas, etc, conforme defende Pires. Além disso, estrangeiros de diversas 
nacionalidades participavam, como portugueses, italianos e espanhóis. Nesse sentido, as fontes 
deste autor apresentam aspectos que caracterizavam a capoeira daquele contexto, por exemplo, 
o uso de armas, apelidos, golpes e gírias, o que notamos no seguinte trecho da obra de Plácido 
de  Abreu:  “(...)  O  Coruja  e  o  Lagathé  fizeram-lhe  frente,  ambos  armados  de  navalha,  o 
adversário procurou encostar-se a uma parede e ali esperou pelo ataque, (...).”
111
 
Nesse período surge uma nomeação muito conhecida na história da capoeira, dada aos 
grupos, chamados por “maltas”, a qual advém dos registros policiais e jornalísticos. Segundo 
alguns autores, como Pires e Conduru, essas se formavam a partir da localização geográfica no 
Rio de Janeiro, de acordo com as freguesias e as ocupações na cidade, como Glória, Lapa, Largo 
do  Moura,  Santa  Luzia,  Carpinteiros  de  São  José,  Conceição  da  Marinha,  etc.
112
  Em 
contrapartida, Pires afirma que os grupos de capoeiristas se denominavam como “partidos”, ou 
também “nações”, sendo duas as principais, os “Nagoa” e os “Guaiamu”, cada uma dominando 
uma zona carioca. Ele justifica que a expressão “partido” pode ter surgido das relações políticas 
que esses grupos tinham no período monarquista, ou, simplesmente, da ideia de fazer parte de 
algo, ou seja, cada grupo fazer parte da “nação”.
 
 
(...)  os  indivíduos  assumiam  para  si  e  para  o  grupo  os  limites  de  áreas 
geográficas  e  davam  sentido  social  e  simbólico  a  elas,  identificando  a  sua 
comunidade. Ser de uma província significava estar de um lado contra outro, 
um  envolvimento  com  as  questões  que  demarcavam  os  espaços  de  cada 
“partido”, suas posições políticas, filosóficas. Para ser capoeira tinha que se 
ter uma série de atributos pessoais que preparavam os indivíduos para os tipos 
de  relacionamento  produzidos  na  e  para  a  manutenção  da  cultura  da 
capoeiragem.
 113
 
 
A  capoeira  que  se  desenvolve  ao  longo  de  1800  ganha  novas  dimensões,  em 
comparação  àquela  encontrada no final  do século XVIII  e início  do XX, o que repercute na 
                                                           
110
 CID e CASTRO. Op. Cit, p. 208. 
111
 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro. Tipografia da Escola de Serafim José Alves. SD. P. 21, 22. 
Apud. PIRES. Op. Cit, p. 26, 27. 
112
 CONDURU. Op. Cit, p. 26. 
113
 PIRES. Op. Cit, p. 28 e 29. 


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organização da vida urbana no período imperial. Os capoeiras se encontravam e treinavam em 
frente a igrejas, participavam de manifestações públicas, como folia dos reis, batuques e festas 
populares.
114
  Um  dos  efeitos  disso  foi  o  envolvimento  dos  grupos  com  a  vida  política,  por 
exemplo,  intervindo  em  eleições,  exercendo  funções  de  cabos-eleitorais  e  guarda-costas. 
Segundo Pires,  
As  eleições  de  1873  ficaram  conhecidas  pela  violência  desencadeada  pelas 
facções  políticas  e  pela  participação  efetiva  das  maltas  de  capoeiras,  (...). 
Alguns grupos de capoeiras estiveram constantemente presentes nos conflitos 
políticos e partidários entre liberais e conservadores ou entre monarquistas e 
republicanos.  As  ações  dos  capoeiras  aparecem  na  imprensa  geralmente 
vinculadas  aos  conservadores  e  liberais,  mas  os  republicanos  também 
recorreram aos capoeiras; o fato, contudo, é que os Nagoas foram bases do 


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