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pesquisas em jogo. Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino Traço, 2016. Coleção UNIAFRO, 13. Pg. 
216. 
86
 Ibidem, p. 218. 
87
  SOARES,  Carlos  Eugênio  Líbano.  Golpes  de  mestres.  In:  Revista  Nossa  história.  Rio de  Janeiro,  n.  5,  mar. 
2004. Apud. TORRES. Ibidem, p. 216. 


38
 
 
do  Rio de Janeiro,  porque, jogando  perfeitamente  a espada,  a faca  e  o  pau, 
dava preferência à cabeçada e aos golpes com os pés.
88
   
 
Tal  relato  é  contemporâneo  da  história  do  Major  Vidigal,  comentada  pelo  autor 
Conduru e também por Antônio L. C. S. Pires. Este conta que Miguel Nunes Vidigal nasceu na 
segunda metade do século XVIII, em Angra dos Reis, na antiga capitania do Rio de Janeiro. 
Teria se alistado na cavalaria de milícias da capitania, onde teria chegado ao cargo de sargento-
mor. Sua fama advém da captura de escravos fugitivos, prisão de capoeiras, de ter acabado com 
quilombos no morro de Santa Tereza (no Rio de janeiro) e também com casas de feitiçaria e 
candomblé. Além disso, Pires afirma que a literatura em torno do policial narra histórias nas 
quais,  em  momentos  de  luta,  ele  abandonava  as  armas,  para  se  defender  com  facas  e  paus, 
rasteiras e cabeçadas
89
. Segundo Conduru, Vidigal tornou-se homem de confiança do primeiro 
intendente de Polícia do Brasil, Conselheiro Paulo Fernandes  Viana, que fora nomeado pelo 
Príncipe Regente Dom João. Sua história teria servido como inspiração para o personagem da 
obra “Memórias de um Sargento de Milícias”, devido a sua conduta policial. Conduru afirma 
que  seria  dele  a  autoria  de  uma  técnica  de  tortura  destinada  a  capoeiras  e  vagabundos,  que 
incomodavam a vida na capital do país.
90
 
Apesar dos autores nos informarem acerca do Major Vidigal, não temos datas exatas 
da  sua  trajetória.  Podemos  considerar,  inclusive,  que  a  fonte  descrita  por  Conduru,  sobre  o 
Tenente  João  Moreira,  seja  anterior  ao  Vidigal.  De  qualquer  forma,  ao  que  tudo  indica,  os 
primeiros indícios da capoeira no Brasil vêm das últimas décadas do século XVIII, no Rio de 
Janeiro. Felipe de C. Torres, baseando-se no documento produzido pelo Instituto do Patrimônio 
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
91
, traz outro relato, encontrado pelo jornalista Nireu 
Cavalcanti, do escravo Adão que, em 1789, conseguiu a liberdade, depois de ter sido preso por 
praticar capoeiragem nas ruas do Rio de Janeiro.
92
 
Já no início  do século  XIX, podemos  localizar vários outros registros, como  afirma 
Pires. Segundo as fontes policiais consultadas pelo autor, entre 1810 e 1821, foram 4853 prisões 
efetivadas na cidade do Rio de Janeiro, das quais 438 (9%) foram por acusação de prática da 
capoeira. Em suas pesquisas no Arquivo da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ele localizou um 
                                                           
88
 Estudo histórico sobre a Polícia da Capital Federal de 1808 a 1831, Primeira parte, Imprensa Nacional, Rio de 
Janeiro, 1898, p. 56. Apud. CONDURU, Guilherme Frazão. As metamorfoses da capoeira: contribuição para uma 
história da capoeira. Revista Textos do Brasil. Edição 14º - Capoeira. Ministério das Relações Exteriores. P. 22.   
89
  PIRES,  Antônio  Liberac  Cardoso  Simões.  Culturas  Circulares.  A  Formação  Histórica  da  Capoeira 
Contemporânea no Rio de Janeiro. Editora Progressiva, Curitiba, 2010. P. 21. 
90
 CONDURU. Op. Cit, pp. 22, 23. 
91
  INSTITUTO  DO  PATRIMÔNIO  HISTÓRICO  E  ARTÍSTICO  NACIONAL.  Registro  e  salvaguarda  da 
capoeira como Patrimônio da cultura brasileira. Brasília: IPHAN, 2007. 
92
 TORRES. Op. Cit, p. 217.
 


39
 
 
documento  importante  de  1832,  o  qual  dizia  o  seguinte:  “Os  pretos  capoeiras  e  outros 
indivíduos  de  semelhante  ordem  costumam  a  trazer  sovelões  e  outros  instrumentos  desta 
natureza ocultos dentro de marimbas de pedaços de cana-de-açúcar, e no cabo de chicotinhos 
pretos feitos no país”.
 93
 
Desse  período,  também  encontramos  outras  fontes  históricas  que  nos  remetem  à 
capoeira, como a iconografia, especialmente pelas obras dos cronistas viajantes, que passaram 
pelo Brasil nas primeiras décadas de 1800. É o caso do pintor Augustus Earle, cujo título da 
obra é “Negros Combatendo” (figura 1). 
 
Figura 1: Augustus Earle. “Negroes fighting Brazils” (“Negros Combatendo”). Aquarela sobre 
papel, 16.5 x 25.1 cm (1821 a 1824).
94
 
 Nela  podemos  ver  dois  negros  trocando  golpes  com  pernas  e  mãos,  outros  quatro 
negros assistindo a cena e um soldado fardado escalando um muro para chegar aos negros. A 
constituição da imagem traz elementos que nos remetem ao ambiente urbano.
95
 Outro exemplo 
é Johann Moritz Rugendas, que faz duas gravuras: “São Salvador”, da capital soteropolitana, 
na qual podemos identificar alguns negros jogando capoeira (figura 2); e o “Jogo da Capoeira”, 
retratando um grupo de negros, envolvidos na movimentação de dois personagens centrais, que 
parecem estar lutando (figura 3). Em 1835, Rugendas também fez uma descrição da capoeira:  
(...) Os negros têm ainda um outro folguedo guerreiro, muito mais violento, a 
capoeira: dois campeões se precipitam um contra o outro, procurando dar com 
a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar. Evita-se o ataque com 
saltos  de  lado  e  paradas  igualmente  hábeis;  mas,  lançando-se  um  contra  o 
                                                           
93
 PIRES. Op. Cit, p. 21, 22. 
94
 Disponível em: . Acesso em: 10 de dez. 2017.  
95
 TORRES. Op. Cit, p. 217. 


40
 
 
outro,  mais  ou  menos  como  bodes,  acontece-lhes  chocarem-se  fortemente 
cabeça contra cabeça, o que faz com que a brincadeira não raro degenere em 
briga e que as facas entrem em jogo ensanguentando-as.
96
 
 
 
Figura 2: Johann Moritz Rugendas. “San Salvador”. Litografia. 1835.
97
 
 
Figura 3: Johann M. Rugendas. “Jogar Capoëra” ou “danse de la Guerre”. Litografia. 1835.
98
 
                                                           
96
 RUGENDAS. Johann Moritz. Viagem pitoresca através do Brasil. Livraria Martins, São Paulo, 1940, p. 197. 
Apud CONDURU. Op. Cit, p. 23. 
97
 Disponível em: . Acesso em: 7 de dez. de 2017. 
98
 JOGAR Capoeira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 
2017. 
Disponível 
em: 

Verbete 
da 
Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7. Acesso em: 07 de dez. 2017.  


41
 
 
Além  deles,  Jean-Baptiste  Debret  também  andou  por  terras  brasileiras  no  início  do 
século XIX e nos deixou duas aquarelas, por exemplo, “Comboio funerário do filho de um rei 
negro.” (figura 4), que, apesar de não ter referências explícitas ligadas à capoeira, traz consigo 
a seguinte descrição: “erguem-se o negro fogueteiro, soltando bombas e rojões e três ou quatro 
negros volteadores, dando saltos mortais ou fazendo mil cabriolas para animar a cena.”
99
. E a 
obra “Negro Trovador” (figura 5), que ilustra um negro ancião tocando o berimbau.
100
 Algumas 
dessas obras não têm a data exata de sua produção, mas, sabendo que seus autores estiveram no 
Brasil  nos  primeiros  trinta  anos  de  1800,  podemos  considerar  que  elas  são  próximas 
temporalmente. 
 
Figura 4: Jean Baptiste Debret. “Convoi funèbre d'un fils de roi nègre.” (“Comboio funerário 
do filho de um rei negro.”). 1834 – 1839.
101
 
                                                           
99
 DEBRET. Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Ed. Itatiaia, Belo Horizonte, Edusp, São Paulo, 
1989, tomo II, p. 164-165. Apud. CONDURU. Ibidem, p. 24. 
100
 CONDURU. Ibidem, p. 25. 
101
 Disponível em: . Acesso 
em: 7 de dez. 2017. 


42
 
 
 
Figura 5: Jean B. Debret. “O Negro Trovador”. 1835.
102
 
Tendo isso em vista, conseguimos reconhecer algumas características em comum entre 
as fontes iconográficas e também policiais, que remetem à capoeira, e nos permitem saber como 
que ela era praticada entre os séculos XVIII e XIX. Apoiando-se nos estudos de Carlos Eugênio 
Líbano Soares, Pires também nos oferece um panorama do que era a capoeira naquele período. 
Eles afirmam que os capoeiras se dividiam em grupos formados, principalmente, por africanos 
de  diversas  etnias,  a  maioria  vinda  da  região  Centro-Ocidental,  e  havia  a  participação  dos 
escravos  crioulos,  chamados  “pretos  nacionais”.  Andavam  armados,  especialmente  com 
navalhas,  tinham  símbolos  próprios,  que  os  diferenciavam,  como  fitas  coloridas  e  chapéus. 
Interferiam na vida urbana, o caso da capital Rio de Janeiro, lutando em espaços públicos, como 
uma  forma  de  exercer  poder  nas  freguesias  da  cidade.  Isso  pressionava  as  autoridades  e  os 
grupos  dominantes  (a  elite  imperial),  que  muitas  vezes  precisavam  negociar  com  os 
capoeiras.
103
 
Portanto,  percebemos  que  a  capoeira  era,  além  de  uma  confraternização  entre  os 
negros, uma estratégia para ocupar o lugar onde viviam e, assim, encontrar maneiras de driblar 
o controle sobre eles, a fim de tentar impor uma ordem a partir de suas próprias concepções. 
Conduru faz a seguinte análise:  
Nesse período aproximado de 1770 a 1830, pode-se conceber a capoeira sob, 
pelo menos, duas perspectivas. Sob uma ótica, por assim dizer, etnográfica, 
                                                           
102
 Disponível em: < https://imgur.com/gallery/uGwCs> Acesso em: 7 de dez. 2017. 
103
  SOARES.  Carlos  Eugênio  Libano.  A  capoeira  Escrava  no  Rio  de  Janeiro  1808-1850.  Campinas,  tese  de 
doutorado, Departamento de História, Unicamp, 1998. P. 48-51. Apud. PIRES. Op. Cit, p. 22, 23. 


43
 
 
como um divertimento de negros (portanto, de origem africana), praticando a 
céu aberto, a ponto de possibilitar a sua reprodução por viajantes estrangeiros. 
Sob um prisma sociológico, não se pode ignorar ter sido a capoeira objeto de 
forte perseguição policial, uma vez que seus praticantes, em geral escravos ou 
negros libertos, eram identificados como assaltantes e baderneiros, que faziam 
uso da capoeira para perpetrar crimes e atentar contra a ordem pública.
104
 



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