Camila quadros


Primeiros Tempos: as origens e a descoberta da capoeira (1770 – 1830)



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2.1 Primeiros Tempos: as origens e a descoberta da capoeira (1770 – 1830). 
Quando se trata de capoeira, é comum que venha à tona a discussão sobre suas origens, 
fomentada por aqueles curiosos, que não pertencem à “capoeiragem” e querem saber se ela é 
africana ou brasileira, assim como pelos praticantes, antigos ou novos, que insistem em localizar 
sua verdadeira origem. Esse debate também é comum entre diversos pesquisadores que, desde 
o início do século XX, investigam de onde veio essa luta negra descoberta no Brasil colonial. 
Certamente o assunto renderia muito espaço nesse trabalho, mas, por não ser nosso objetivo, 
ficamos com a leitura do artigo “Capoeira, arte crioula”
 83
, cujo autor Matthias Röhrig Assunção 
afirma que,  
Entre as várias narrativas mestres, duas se destacam: a nacionalista brasileira 
e a afrocêntrica. São antagônicas e aparentemente irreconciliáveis: a primeira 
insiste na ruptura, a última na continuidade. A primeira enfatiza tudo que a 
capoeira  tem  de  novo,  para  ressaltar  sua  originalidade  e,  portanto,  a 
originalidade  da  cultura  brasileira.  A  segunda  ressalta  apenas  os  aspectos 
                                                           
83
  ASSUNÇÃO,  Matthias  R.  “Capoeira,  arte  crioula”.  In:  PIRES,  Antônio  Liberac  Cardoso  Simões; 
FIGUEIREDO, Francine Simplício; FILHO, Paulo Andrade Magalhães; MACHADO, Sara Abreu da Mata (Org.). 
Capoeira em múltiplos olhares: estudos e pesquisas em jogo. Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino 
Traço, 2016. Coleção UNIAFRO, 13. Pp. 183 – 203.  


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derivados  da  África  (“African-derived”)  para  demonstrar  que  a  capoeira  é, 
antes de tudo, africana.
84
 
 
De qualquer forma, a tese mais aceita dentro da capoeira remete sua origem ao Brasil 
colonial,  em  áreas  urbanas,  especialmente  Rio  de  Janeiro,  Salvador,  Recife,  São  Luís  do 
Maranhão  e  Belém  do  Pará.  Um  dos  autores  que  nos  apontam  para  isso  é  Felipe  do  Couto 
Torres, o qual indica que “essa tese, convencionalmente denominada de origem difusapropõe 
que  a  capoeira  tenha  surgido  em  momentos  e  contextos  similares  em  algumas  cidades 
brasileiras.”
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. Ele também ressalta uma característica marcante entre as cinco cidades, o fato 
de serem portuárias, o que podemos associar ao fluxo intenso de pessoas que circulavam por 
elas,  inclusive  diversas  etnias  africanas.  Isso  teria  influenciado  a  formação  da  capoeira, 
permitindo,  inclusive,  que  ela  adquirisse  características  próprias  em  cada  região, 
proporcionando uma heterogeneidade e diversidade dentro da luta.
86
  
Há ainda um debate em torno do nome “capoeira”, que contribui na discussão em torno 
de  sua  origem,  no  sentido  de  ser  urbana  ou  rural.  Segundo  Torres,  o  autor  Carlos  Eugênio 
Líbano Soares indica que a palavra “capoeira” - pelo Dicionário de vocábulos brasileiros, de 
1879, escrito por Visconde de Beaurepaire Rohan - escrita com “u” (“capueira”), se referia a 
“mato  ralo”,  “mato  rasteiro”,  o  que  associaria  a  origem  da  luta  ao  ambiente  rural.  Em 
contrapartida,  “capoeira”  com  “o”,  se  tratava  dos  cestos  carregados  na  cabeça  dos  escravos 
pelas cidades, o que lhes permitia forjar golpes com as pernas, portanto a luta seria urbana.
87
 
Obviamente, o próprio Torres ressalta o fato de que o ambiente urbano no período colonial era 
marcado pela proximidade com a área rural, o que torna ainda mais difícil essa localização exata 
da capoeira. 
Pelo fato da discussão etimológica ser vaga e incerta, é necessário nos embasarmos em 
outras fontes, que nos ofereçam maior segurança quanto à descoberta da capoeira. Guilherme 
Frazão Conduru se apoia na obra “Estudo histórico sobre a Polícia da Capital Federal de 1808 
a 1831”, de 1898, cujo autor Elísio de Araújo cita o caso do Dr. J. M. Macedo:  
Já no tempo do Marquês de Lavradio, em 1770, existia na pessoa de um oficial 
de milícias, o Tenente João Moreira, por alcunha “o amotinado”, que, dotado 
de prodigiosa força, de ânimo inflamado, talvez fosse o mais antigo capoeira 
                                                           
84
 Ibidem, p. 183. 
85
  TORRES,  Felipe  C.  Capítulo  14:  “Reflexões  sobre  a  capoeira  e  o  espaço  público  urbano  em  sua  trajetória 
histórica.”  In:  PIRES,  Antônio  Liberac  Cardoso  Simões;  FIGUEIREDO,  Francine  Simplício;  FILHO,  Paulo 
Andrade  Magalhães;  MACHADO,  Sara  Abreu  da  Mata  (Org.).  Capoeira  em  múltiplos  olhares:  estudos  e 



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