Camila quadros


particulares e originais (...)



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particulares e originais (...).
76
 
 
Outro trabalho que segue essa historiografia elaborada por Chalhoub é o livro da autora 
Joseli Maria Nunes Mendonça.
77
 Ela ressalta o aspecto parlamentar no processo de abolição, 
                                                           
75
 Ibidem, p. 274 e 276. 
76
 Ibidem, p. 400. 
77
 MENDONÇA, Joseli M. N. Entre a mão e os anéis: a Lei dos Sexagenários e os caminhos da abolição no Brasil. 
Campinas,  SP:  Editora  da  Unicamp;  Centro  de  Pesquisa  em  História  Social  da  Cultura,  1999.  Coleção  Várias 
Histórias. 


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pois elege como fontes de estudo as discussões parlamentares nas elaborações das medidas que 
regularam  a  escravidão,  ao  final  de  sua  vigência  –  como  a  Lei  do  Ventre  Livre  e  a  Lei  dos 
Sexagenários, respectivamente 1871 e 1885. No entanto, ao cotejá-las com processos judiciais 
entre  escravos  e  seu  senhores,  ela  faz  uma  análise  que  ultrapassa  os  limites  do  parlamento, 
buscando a maneira como as leis eram utilizadas pelos agentes sociais no judiciário. 
Mendonça afirma que os discursos dos parlamentares, ocorridos na tramitação da lei 
de 1885, evidenciam que era comum a preocupação com a manutenção do domínio senhorial 
sobre  seus  escravos.  Para  a  autora,  essa  preocupação  derivava  das  ações  e  escolhas  que  os 
escravos vinham fazendo, mesmo que limitados pela condição servil.  
(...) os próprios escravos as vinham fazendo, impondo limites ao exercício do 
domínio senhorial através de expectativas que tinham em relação à escravidão 
na  qual  viviam.  Como  indica  Sidney  Chalhoub,  os  escravos  podiam  agir  e 
pensar “segundo premissas próprias, elaboradas na experiência de muitos anos 
de  cativeiro,  nos  embates  e  negociações  cotidianas  com  os  senhores  e  seus 
agentes.”
78
 
 
Portanto,  semelhante  à  Sidney  Chalhoub,  a  autora  confere  capacidade  de  ação  ao 
escravo, apesar de sua condição social. Nesse sentido, sua interpretação é radicalmente oposta 
àquela  realizada  por  Nabuco,  apresentada  no  começo  desse  capítulo.  Também  difere  dos 
trabalhos  elaborados  por  Octavio  Ianni,  Emília  Viotti  da  Costa  (que  explicam  o  fim  da 
escravidão por uma perspectiva econômica), e também de Clóvis Moura e Lana L. da Gama 
Lima,  os  quais  se  aproximam  desses  dois  autores,  pois  têm  a  influência  dessa  análise 
estruturalista, que acaba por anular a agência negra. 
Ao longo do livro, ela analisa vários processos judiciais movidos por escravos, entre 
as décadas de 1870 e 1880, com objetivo de conquistar sua liberdade. A partir deles, podemos 
depreender diversos argumentos que eram usados pelos escravos para contestar sua condição, 
entre eles,  o de serem africanos escravizados ilegalmente por meio do tráfico ilegal (situação 
indicada  por  Joaquim  Nabuco);  tratamento  inadequado  do  senhor,  fosse  pelo  excesso  de 
violência  ou  abandono,  o  que,  desde  a  lei  de  1871  poderia  resultar  na  alforria;  a  compra  da 
alforria, que a lei de 1871 definiu como um direito do escravo, ao permitir o acúmulo de pecúlio 
por parte do escravo, e obrigava o senhor a concedê-la, mediante indenização. A lei do Ventre 
Livre  também  exigia  que  todos  os  escravos  fossem  matriculados  pelos  senhores;  a  falta  da 
matrícula também constituía argumento usado pelo escravo nos processos. Ou seja, conforme 
Mendonça,  “os  escravos  estavam,  através  de  uma  alquimia  mágica,  misturando  elementos 
                                                           
78
 Ibidem, p. 71.
 


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tradicionais de reconhecimento de legitimidade do exercício do domínio senhorial, com novos 
elementos que as leis vinham lhes proporcionando.”
 79
 
Nesse sentido, a análise de Mendonça pretendeu demonstrar como as leis de 1871 e 
1885  se  inseriam  e  serviram  para  intermediar  conflitos  cada  vez  mais  presentes  entre  os 
escravos  e  seus  senhores.  Ao  fazer  isso,  introduzia  novas  possibilidades  de  tensão, 
principalmente pelo uso que aqueles faziam da legislação. De acordo com ela, seu objetivo era 
“apreender,  a  partir  das  discussões  e  dos  discursos,  as  experiências  sociais  de  escravidão  e 
liberdade  vividas  por  senhores,  escravos  e  libertos  e,  ao  mesmo  tempo,  relacioná-las  aos 
projetos de encaminhamento do processo de abolição e do que seria a “sociedade livre”.”
80
 
Tal  argumentação,  contribui  para  entendermos  a  importância  que  determinadas 
medidas  legislativas  têm  quando  consideradas  dentro  do  seu  contexto.  Como  defende 
Mendonça, apoiada no argumento da autora Rebecca Scott, devemos reconhecer o alcance que 
essas leis têm no campo social, à medida que elas concedem direitos a determinados indivíduos, 
que  até  então  não  os  tinham,  o  que  inevitavelmente  transforma  significativamente  a 
configuração  social  em  eles  estão  inseridos,  no  caso,  as  relações  sociais  entre  os  escravos  e 
senhores.
81
 
Nesse  sentido,  esse  argumento  da  autora  serve  para  compreendermos  o  processo 
histórico  que  resultou  na  Lei  Áurea  e  sua  respectiva  importância  dentro  daquele  contexto. 
Obviamente  podemos  notar  problemas  na  Lei  de  1871,  na  Lei  de  1885  e  na  Lei  de  1888, 
argumentando que elas priorizavam os interesses senhoriais, que as duas primeiras contribuíram 
para a manutenção da escravidão, que a igualdade social não se fez através dessas medidas e 
que  o  negro  se  manteve  a  margem  da  sociedade  brasileira.  No  entanto,  são  conclusões  que 
podem ser feitas a posteriori e ignoram os efeitos práticos que essas leis tiveram no contexto 
em  que  foram  elaboradas.  De  alguma  maneira,  elas  serviram  aos  negros,  para  que  eles 
reivindicassem seu lugar na sociedade. Segundo Mendonça,  
É  certo  que  ficaríamos  mais  felizes  se  os  escravos  tivessem  recebido  a 
liberdade completa aos 60 anos sem a imposição da obrigação da prestação de 
serviços; ou se, antes, fossem libertos aos 40 anos, quando ainda teriam mais 
tempo  para  desfrutar  a  vida  em  liberdade;  ou,  ainda,  que  a  escravidão  não 
tivesse acontecido e os africanos não tivessem sido brutalmente transferidos 
de sua terra de origem para sofrer as tantas violências que lhes foram impostas, 
por  séculos,  pelo  regime  escravista.  Mas  nada  disso  aconteceu.  O  que 
aconteceu, ainda que possamos lastimar por isso – e nossa lástima não alterará 
em nada a forma como as coisas aconteceram – é que os libertos pela lei eram 
sexagenários e foram obrigados a prestar serviços, por um período de até três 
                                                           
79
 Ibidem, p. 180. 
80
 Ibidem, p. 23. 
81
 Ibidem, p. 200. 


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anos, aos seus antigos senhores. Cumpre, então, pensar no significado que esta 
medida teve para os escravos, para os libertos, para os proprietários.
82
 
 
Apoiando-se  no  que  estava  previsto  pela  Lei  do  Ventre  Livre  e  pela  Lei  dos 
Sexagenários, escravos enfrentaram o domínio senhorial no campo da justiça, muitos com êxito, 
o  que  seria  algo  impensável  dentro  daquela  concepção  de  escravidão  como  um  sistema  que 
aliena os escravos. Assim como a Lei  Áurea, que, por muitos aspectos, pode ser vista como 
problemática (conforme as autoras  L. Lima e C. Azevedo indicaram). Apesar disso, o fato é 
que a partir dela a escravidão se tornou ilegal, em um país onde há mais de três séculos convivia-
se  com  esse  regime  servil.  Ou  seja,  estamos  falando  de  sujeitos  que  tiveram  suas  histórias 
marcadas  pela  escravização  e  que,  com  a  garantia  das  medidas  institucionais,  passam  a  ser 
livres. Nesse sentido, é difícil acreditarmos que essas leis serviram somente aos interesses de 
um grupo social dominante. Afinal, depois de tantas e diversas lutas empreendidas ao longo da 
história, a conquista dessa liberdade para e pelos negros não pode ser vista como  uma mera 
formalidade. 
 
****** 
 
Neste capítulo procuramos demonstrar que a abolição da escravidão foi interpretada 
de diversas formas, por autores que, ao longo da história, elencaram em suas análises fatores e 
sujeitos históricos distintos. Antes da Lei Áurea ser assinada, o fim da escravidão no Brasil já 
era  visto  por  diferentes  perspectivas,  como  Joaquim  Nabuco,  que  enfatizava  a  ação  do 
Parlamento nesse processo, o que depois foi reiterado por Evaristo de Moraes. Posteriormente, 
historiadores estudaram esse fato, associando-o a questões econômicas, às pressões escravas, 
entre outros aspectos. Nesse sentido, compreendemos que o fim da escravidão se fez por muitas 
justificativas  e  por  diferentes  agentes,  que  tinham  seus  próprios  interesses.  Assim  como  as 
interpretações, que se constituíram sobre a abolição e seus efeitos, também se apoiam em vários 
argumentos para explica-la.  
 
 
 
 
 
                                                           
82
 Ibidem, p. 200. 

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