Camila quadros


  –  Escravos  revoltosos  como  sujeitos  no  processo  de  abolição:  Célia  Maria



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1.4  –  Escravos  revoltosos  como  sujeitos  no  processo  de  abolição:  Célia  Maria 
Marinho Azevedo. 
Em contraposição a esses dois autores, apresentamos a autora Célia Maria Marinho de 
Azevedo
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, que também investiga as revoltas escravas e seu envolvimento com o movimento 
abolicionista. No entanto, Azevedo critica a historiografia representada, por exemplo, por Lana 
L. da Gama Lima, que imputa ao movimento abolicionista a justificativa para o fortalecimento 
e conscientização das lutas escravas pela libertação, entre as décadas de 1870 e 1880. Azevedo 
discorda da ideia de que a estrutura do sistema escravagista anula e aliena os escravos. Para ela, 
esses argumentos retiram o protagonismo do negro e o subordina ao domínio branco, como se 
ele fosse incapaz de pensar e agir por si só.
66
 Azevedo também afirma que esses autores que 
analisam as revoltas e o abolicionismo, acabam priorizando determinadas lutas que aparecem 
de forma explícita, as quais podem ser associadas a esse ideal de lutar pelo fim da escravidão. 
Com isso, os conflitos e embates que permeavam o cotidiano das relações entre os escravos e 
seus senhores, que não tinham uma organização, estratégia e objetivos definidos, acabam sendo 
ignorados por esses pesquisadores, como se fossem algo irrelevante. 
Nos capítulos finais do seu livro, a autora analisa como as revoltas escravas, ocorridas 
no  final  do  século  XIX  na  região  de  São  Paulo,  foram  impactantes  para  desestabilizar  a 
escravidão no país. Ela reconhece que essas estiveram presentes ao longo da história brasileira, 
mas,  a  partir  de  meados  do  século  XIX,  ganham  um  sentido  e  uma  intensidade  diferentes. 
Segundo Azevedo, os escravos passam a se rebelar dentro do seu ambiente, sem recorrer, por 
exemplo,  às  fugas.  Ela  discorre  acerca  dos  crimes,  que  começam  a  se  tornar  comuns  nessa 
região  do  país,  para  ela  decorrentes  da  configuração  social  que  se  estabelece  nas  últimas 
décadas do século XIX. A ascensão da produção cafeeira naquela localidade e o fim do tráfico 
de africanos faz com que os fazendeiros recorram ao tráfico interprovincial (trazendo escravos 
do  nordeste,  por  exemplo)  e  coloquem  seus  escravos  em  um  ritmo  de  trabalho  ainda  mais 
exaustivo
67
. Além disso, ela afirma, “as dificuldades com a disciplina tinham muito a ver com 
o descrédito em que caía a escravidão e com as inevitáveis mudanças de atitudes psicossociais, 
tanto da parte de senhores como de escravos, bem como da população em geral.”
68
 Ou seja, 
todo um contexto que torna a escravidão cada vez mais instável. 
                                                           
65
 AZEVEDO, Célia Maria M. de. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX. Rio 
de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 
66
 Ibidem, p. 175. 
67
  Esse  aspecto  foi  destacado  também  por  MACHADO,  Maria  Helena  Pereira  Toledo.  Crime  e  escravidão:
 
Trabalho, Luta e Resistência nas Lavouras Paulistas (1830-1888). Editora Brasiliense, 1987. 
68
 AZEVEDO. Op. Cit, p. 181.  
 


29
 
 
Os relatos que a autora apresenta sobre esses crimes dos escravos demonstram que eles 
tinham  consciência  sobre  sua  situação  social  e  o  contexto  em  que  estavam  inseridos.  A 
possibilidade de serem punidos com a chamada “pena de galés” (pela qual cumpririam trabalhos 
forçados sob o controle do governo) era algo que eles aproveitavam, inclusive admitindo crimes 
que  nem  haviam  cometido.  Azevedo  cita  um  relatório  do  chefe  de  polícia  de  1876:  “Esses 
infelizes  fogem  muitas  vezes  sem  conhecerem  o  senhor  a  quem  vão  servir,  revoltam-se  por 
qualquer ato de disciplina, tornam-se delinquentes, e até fazem-se responsáveis por crimes que 
não  cometeram,  para  alcançarem  aquela  pena.”
69
.  Ela  justifica  que  as  galés  mantinham  o 
escravo  em  uma  condição  miserável,  no  entanto,  ao  incorrerem  nessa  pena,  trabalhando  em 
serviços urbanos, ordenados pelo governo, os limites entre dominantes e dominados, entre o 
criminoso e o policial, eram mais imperceptíveis, do que entre senhores e escravos.
70
 Tendo 
isso em vista, notamos como esses escravos aproveitavam as chances que tinham para reverter 
suas condições de vida, o que não permite considerá-los como alienados, mas sim como sujeitos 
atuantes. 
A autora passa a falar das revoltas e fugas em massa dos escravos, no final do XIX, e 
que começam a receber o apoio dos abolicionistas. Ela evidencia como isso gerou um caos para 
os fazendeiros daquela localidade, pois estavam constantemente ameaçados pelos seus escravos 
ou perdiam toda a sua mão de obra. Com isso, muitos acabavam cedendo às pressões escravas, 
inclusive aceitando novamente os escravos que haviam fugido, sob a condição de serem livres 
e assalariados. Essas negociações, muitas vezes, eram intermediadas pelos abolicionistas.  
Nesse  sentido,  ela  constrói  uma  argumentação  completamente  contrária  ao  que  a 
autora  L.  Lima  propôs.  Azevedo  considera  que  a  radicalização  do  movimento  abolicionista 
adveio  da radicalização  das  revoltas  escravas.  Para ela,  à medida que os  escravos  se tornam 
cada  vez  mais  um  incômodo  naquela  sociedade,  causando  sérios  problemas  aos  senhores, 
impondo suas vontades, por meio da força, gerando uma grande desordem, os abolicionistas 
reconhecem a necessidade de intervir nessas revoltas, a fim de conciliar ambos os lados. Por 
exemplo, passam a auxiliar as fugas dos escravos, os encaminham para lugares protegidos, ao 
mesmo tempo em que negociam seu retorno às propriedades, para servirem como mão de obra 
assalariada. Isto é, um raciocínio inverso ao de Lima, como podemos ver no seguinte trecho: 
Foi,  portanto,  em  reação  às  fugas  e  rebeliões  de  escravos  nas  fazendas, 
revoltas e manifestações citadinas de negros e abolicionistas populares, que 
os  dirigentes  abolicionistas  assumiram  uma  postura  decisivamente  pró-
                                                           
69
 Ibidem, p. 190. 
70
 Ibidem, p. 195. 


30
 
 
libertação, sem prazo e sem condições, combinada com projetos de integração 
do negro no mercado de trabalho livre e de conciliação sócio racial.
71
 
 
Dessa maneira, Azevedo avalia que os abolicionistas aproveitaram dessa radicalização 
dos escravos para justificarem seu projeto de acabar com a escravidão. Um projeto que visava 
libertar os negros, mantendo-os sob controle, pois seriam encaminhados para servirem como 
trabalhadores, disciplinados e enquadrados dentro de um progresso, que tornaria o Brasil uma 
nação moderna e civilizada. A divergência entre as autoras se configura pela importância que 
Azevedo dá para a luta dos escravos, considerando-os os principais responsáveis pela abolição 
da escravidão, retirando dos abolicionistas o protagonismo que Lima a eles atribuiu. 
Embora sempre fizessem questão de enfatizar a novidade de suas propostas e 
de  imprimir  um  teor  racional  em  suas  formulações  relativas  à  necessidade 
histórica de acabar com a escravidão e fundar uma nova era de civilização, os 
abolicionistas  não  fizeram  mais  do  que  repetir  muitos  dos  argumentos 
colocados  por  emancipacionistas,  que  desde  o  início  do  século  XIX, 
postularam  a  incorporação  do  negro  livre  no  mercado  de  trabalho  como 
medida  de  controle  social.  Assim  como  os  emancipacionistas,  também  os 
abolicionistas tinham como principais interlocutores os grandes proprietários 
e comerciantes, enfim, os representantes do capital. (...) Portanto, o fato de os 
próprios abolicionistas se pretenderem os arautos de um novo tempo histórico 
não  significava  que  eles  o fossem  efetivamente.  Para isso  seria  preciso  que 
eles  assumissem  uma  postura  de  ruptura  com  a  grande  propriedade,  o  que, 
como vimos, estava bem longe de suas pretensões.
72
 
 



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