Camila quadros



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escravos (grifos nossos) e dos seus líderes (...).”
53
. Mais uma vez, o autor sustenta a ideia de 
que  a  situação  dos  escravos,  dentro  do  sistema  escravista,  anulava  suas  capacidades  de 
intervirem sobre si, de forma consciente e objetiva.  
A  interpretação  do  autor  pode  ser  compreendida  quando  consideramos  o  contexto 
historiográfico da publicação do livro, influenciado teoricamente pela teoria ênfase na estrutura 
econômica como fator determinante das transformações históricas. Ele explica as estratégias de 
luta dos escravos como um esgotamento do sistema econômico, que leva a uma crise social, 
causada pelos escravos - alienados, devido a sua condição de vida  - que acaba agravando os 
problemas dessa estrutura social. Esses aspectos, somados a um contexto de desenvolvimento 
econômico e de civilização, no qual a escravidão aparece como um entrave (conforme Joaquim 
Nabuco  já  havia  defendido),  levam  à  extinção  do  sistema  escravagista.
54
  Podemos  perceber 
como  esse  discurso  do  Clóvis  Moura  se  aproxima  das  ideias  discutidas  nos  subcapítulos 
anteriores, sobretudo nas análises de Iaani e Costa.      
Baseando-se nos estudos realizados pelo autor Édison Carneiro, Moura aponta para as 
três  formas  que  geralmente  os  escravos  usavam  para  lutar  contra  a  escravidão:  a  revolta 
organizada (como a de Malês); a insurreição armada; e a fuga para o mato (por exemplo, para 
os quilombos). Moura também acrescenta as guerrilhas feitas pelos escravos, e os movimentos 
políticos  dos  brancos/senhores  (como  os  que  foram  citados  acima),  nos  quais  os  escravos 
aproveitavam para lutar pelos seus objetivos. O autor defende que os quilombos e as revoltas 
coletivas eram as principais estratégias de resistência dos escravos.
55
  
No  decorrer  do  livro,  ele  examina  os  quilombos  existentes  ao  longo  da  história 
brasileira e por todo o território.
56
 Discorre sobre vários quilombos (entre eles Palmares), suas 
organizações e as medidas tomadas pelo governo para desmantelá-los. Todavia, não se atenta 
para  a  repercussão  que  eles  geravam,  por  que  e  como  esses  quilombolas  se  organizavam,  a 
pressão social que eles causavam, especialmente sobre os senhores e o governo, que tinham que 
lidar com isso, e, consequentemente, o impacto na escravidão.  
                                                           
53
 Ibidem, p. 74 
54
 Ibidem, pp. 113 e 114. 
55
 Ibidem, p. 89 e 90. 
56
 Ibidem, p. 87.
 


25
 
 
Assim, apesar de tratar das revoltas escravas, Moura faz uma análise que não atribui 
agência e protagonismo aos escravos. Ele explica essas insubordinações com fatores ligados ao 
contexto  econômico, por exemplo uma crise econômica, e não necessariamente por ser uma 
reivindicação  do  próprio  escravo.  É  evidente  a  influência  da  teoria  que  prioriza  a  estrutura 
econômica, a qual anula a ação do escravo, já que esse era visto como um objeto, fazendo com 
que ele assumisse tal posição social. Essa ideia notamos no seguinte argumento do autor, “por 
outro  lado,  ele  não  apenas  produzia  mercadorias  dentro  de  um  sistema  que  dificultava  o 
desenvolvimento das forças produtivas, mas se constituía, também, em mercadoria, em objeto 
de troca. (...) dentro do regime escravista, não passava, efetivamente, de um instrumento.”
57
 
Na mesma perspectiva de análise podemos inserir a autora Lana Lage da Gama Lima, 
que trata das revoltas escravas e o seu envolvimento com o abolicionismo, do final do século 
XIX.
58
  Semelhante à Moura, Lima enfatiza, como as principais estratégias de luta dos escravos, 
as  fugas  para  os  quilombos  e  rebeliões  escravas,  como  ataques  aos  senhores,  às  senzalas, 
incêndios das produções agrícolas. Ela também aborda os quilombos, suas configurações, sem 
deixar  de  citar  Palmares.  A  autora  explica  essa  estratégia  de  fuga  dos  escravos  como  uma 
consequência do sistema escravista, por ele ser altamente violento e opressor, impossibilitando 
a  ação  dentro  dele,  restando  somente  a  fuga  e  a  violência  como  opções  aos  escravos.
59
  Ela 
ressalta  a  reação  dos  senhores  e  do  governo  aos  escravos  insubordinados,  que  fugiam  ou 
atacavam  seus  responsáveis.  Assim,  nos  baseando  em  Lima,  construímos  uma  percepção  da 
escravidão  brasileira  como  uma  estrutura  social  altamente  violenta  e  dominadora,  dentro  da 
qual as ações dos sujeitos envolvidos são resultados dessa organização exploradora.
60
 
Outro ponto que se aproxima do trabalho de Clóvis Moura é quanto à análise que a 
autora faz do envolvimento dos escravos em movimentos políticos, como na Revolta Filipe dos 
Santos  ou  pela  Independência  do  país.  Segundo  ela,  as  instabilidades  sociais  do  contexto, 
advindas de crises econômicas ou políticas, propiciavam que os escravos participassem dessas 
insurreições. Sobre isso, ela afirma
Gostaríamos  de  observar  que,  ao  considerarmos  a  participação  do  escravo 
nesses  movimentos  revolucionários  como  fator  de  ampliação  de  sua 
consciência de si mesmo e da sociedade que o oprime, não nos importamos 
com os objetivos formais desses movimentos e se o escravo capta ou não seu 
verdadeiro sentido. O que importa para nós, nesse momento, é o fato de que 
essa  participação  vai,  em  primeiro  lugar,  fazer  com  que  o  escravo  assuma, 
                                                           
57
 Ibidem, p. 57.
 
58
 LIMA, Lana L. da Gama. Rebeldia Negra e Abolicionismo. Editora Achiamé. Rio de Janeiro: 1981. 
59
 Ibidem, p. 32. 
60
 Ibidem, p. 37. 


26
 
 
diante  de  si  mesmo,  sua  condição  de  pessoa  humana,  dotada  de  vontade 
própria;
61
 
 
Por  esse  trecho,  conseguimos  ver  que  ela  também  compactua  com  Moura  da 
concepção de que o escravo estava alienado pelo sistema, sem ter consciência de suas ações, 
sendo conduzido por uma elite social, e, portanto, sem reivindicar, por conta própria, mudanças 
para  si,  ideias  que  advêm  do  contexto  historiográfico  em  que  eles  se  inserem,  o  qual  foi 
discutido  anteriormente.  Nesse  sentido,  ela  defende  que  é  somente  com  a  crise  do  sistema 
escravista  (ideia  defendida  também  por  Moura,  Otávio  Ianni  e  Emília  V.  da  Costa)  e  a 
consequente  ascensão  da  campanha  abolicionista,  no  final  do  século  XIX,  que  o  escravo 
reconhece a possibilidade de lutar pelo fim da escravidão, conforme vemos a seguir: 
À  medida  em  que  o  sistema  entra  em  crise  e  a  mão-de-obra  escrava  vai-se 
configurando  como  inadequado  ao  desenvolvimento  capitalista  do  país,  a 
perspectiva de liberdade toma forma para o escravo, através da propaganda 
abolicionista  e  das  próprias  medidas  e  promessas  governamentais.  E,  na 
década de 1880, quando a Campanha Abolicionista se define, é que o escravo 
vai vislumbrar, para seu ato de rebeldia, um futuro diferente da marginalidade, 
uma vez que, agora, seu comportamento divergente se acha legitimado dentro 
do próprio "mundo dos brancos".
62
 
 
A  partir  disso,  a  autora  trata  do  envolvimento  dos  abolicionistas  com  as  revoltas 
escravas, a partir da região dos Campos dos Goitacazes, ressaltando a atuação do abolicionista 
Carlos de  Lacerda,  entre as  décadas  de 1870 e 1880.  Lima expõe as estratégias de ação dos 
abolicionistas  destacando,  por  exemplo,  a  atuação  por  meio  da  imprensa,  principalmente  o 
jornal  Vinte  e  Cinco  de  Março  (cujo  responsável  era  o  Lacerda);  as  relações  que  eles 
estabeleciam  com  os  escravos,  apoiando  e  incentivando  as  fugas  e  reações  violentas,  como 
incêndios  e  ataques  aos  senhores;  a  pressão  que  faziam  sobre  os  senhores  escravagistas, 
inclusive se aproveitando de conflitos que envolviam autoridades policiais. Os abolicionistas 
denunciavam os abusos de poder dos senhores, ressaltavam a condição precária dos escravos e 
exaltavam que o fim da escravidão não demoraria a chegar. Segundo a autora, “ao se iniciar a 
última década da escravidão, o negro é portanto apontado constantemente como um elemento 
perturbador da ordem e, além disso, tal fato é claramente relacionado com a agitação causada 
pelos debates abolicionistas (...).”
63
 
Lima  apresenta uma série de casos  em  que a violência esteve presente nas relações 
entre os senhores, escravos e abolicionistas. Tal descrição contribui para entendermos como o 
                                                           
61
 Ibidem, p. 74. 
62
 Ibidem, p. 75. 
63
 Ibidem, p. 97. 


27
 
 
abolicionismo  de  intensificou  na  década  de  1880,  atingindo  diversos  grupos  sociais,  que  até 
então não estavam diretamente envolvidos, e que, juntamente com vários outros aspectos, foram 
abolindo a escravidão brasileira. Não podemos deixar de questionar a maneira como a autora 
aborda esse assunto, pois ela explica o fortalecimento das revoltas escravas graças ao apoio que 
tinham no movimento abolicionista, empreendido por jornalistas, políticos e demais sujeitos de 
uma elite social. Ou seja, as revoltas escravas não se justificam pela consolidação, reivindicação 
e organização dos próprios escravos, mas sim porque o contexto de crise do sistema escravista, 
junto com o apoio desses outros sujeitos, permitiu que os escravos tomassem consciência de si. 
Mais uma vez, as transformações econômicas são enfatizadas e a agência escrava minimizada. 
Por  fim,  a  autora  analisa  as  consequências  e  resultados  que  a  abolição  surtiu  na 
condição  do  negro  liberto.  Ela  defende  que  o  escravo,  ao  aderir  à  causa  abolicionista,  não 
percebeu que se manteria na condição de subordinado, afinal o movimento abolicionista, aquele 
organizado por essa  elite social, não  garantia uma mudança na estrutura  de produção, o que 
continuaria sujeitando o negro à força produtiva, mas agora como um trabalhador assalariado. 
Pelas palavras de Lima,  
Ao  defender  a  abolição  em  nome  do  progresso,  entendido  como 
desenvolvimento capitalista, o movimento identifica como interesse do negro 
a generalização dessa igualdade formal. Escapa-lhe a compreensão de que a 
igualdade jurídica não significa necessariamente igualdade, econômica e que, 
portanto, a extensão dos direitos burgueses ao escravo não modificaria, por si 
só,  a  sua  situação  no  processo  produtivo.  E,  uma  vez  engajado  no 
abolicionismo,  o  negro  passa  a  acreditar  nessa  liberdade  formal  como  a 
solução de seus problemas. Assim é que, ao absorver a ideologia abolicionista, 
o  escravo  absorve  também  suas  limitações.  Se  antes  o  sistema  fecha  à  sua 
atitude  rebelde  qualquer  outra  perspectiva  que  não  a  marginalização,  agora 
limita essas perspectivas aos novos interesses da classe dominante. (...).
64
 
 
Ou  seja,  pela  visão  da  autora,  a  abolição  da  escravidão  não  causou  a  mudança 
necessária na estrutura social, já que o negro continuava sendo inferiorizado e marginalizado, 
sem  consciência de sua  própria luta e seus  próprios  objetivos. Disso,  podemos  destacar dois 
pontos:  primeiro,  a  influência  da  teoria  marxista,  que  pressupõe  um  progresso  para  uma 
sociedade capitalista, em que há uma dominação de classes, na qual os negros, sem perceberem, 
se mantém na condição de subalternos, mas agora assalariados. Afinal, eles não teriam tido a 
consciência  de  classe  suficiente  para  promover  a  “verdadeira  revolução”.  Depois,  a 
consideração  de  que  um  sujeito  que  foi  escravizado,  que  lutou  pela  sua  liberdade,  quando  a 
conquista, não é capaz de atribuir a ela significado, já que a condição alcançada não passa de 
uma formalidade, pois a estrutura social se conformou a uma outra forma de dominação.  
                                                           
64
 Ibidem, p. 146. 

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