Camila quadros



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organização  do  comportamento  neste  sentido.  (...)  Para  que  assumisse  tal 
significado, seria preciso que o comportamento da coletividade cativa fosse 
organizado  em  função  de  uma  elaboração  consciente  da  condição  escrava; 
seria  necessário  que  se  atribuísse  à  casta  dos  cativos  a  possibilidade  de 
apreender,  ainda  que  fragmentariamente,  a  situação  alienada  em  que  se 
encontrava.  E isto consistiria na própria negação da natureza da condição 
escrava,  que  traz  em  si,  porque  é  da  sua  essência,  a  impossibilidade  de 
consciencialização  da  total  alienação  da  pessoa,  do  mancípio,  do 
instrumentum vocale. (...) Quando a alienação é completa, como o é no caso 
do  escravo,  este  não  pode  apropriar-se  dos  mínimos  necessários  ao 
desenvolvimento de um processo de desalienação. (...) Somente as condições 
estruturais, em suas contradições e tensões, é que conduzirão o cativo a uma 
situação histórico-social em que ele se negará.” (grifos nossos)
41
  
 
Essa citação evidencia a compreensão que o autor tem sobre o papel  do escravo na 
sociedade.  Esta  considera  completamente  nula  a  agência  escrava,  limitando  o  sujeito 
escravizado  somente  a  um  mero  instrumento  de  trabalho.  Na  concepção  dele,  a  subversão 
escrava se justificava pelas circunstâncias estruturais do sistema escravista, que estava em crise, 
devido às necessidades econômicas, como já foi explicitado. Isso permitiu o fortalecimento da 
causa (movimento) abolicionista, que que era compatível com a necessidade de transformação 
estrutural do país e portanto foi empreendida pelos brancos livres. Assim, Ianni declara que “a 
abolição  não  foi  um  processo  catastrófico  nem  doloroso.  Quando  ela  se  dá,  o  sistema 
econômico-social está em condições de recebê-la sem perturbações essenciais.”
42
 
Outra  obra  produzida  no  contexto  da  década  de  1960,  que  se  aproxima  muito  de 
Octavio  Ianni,  é  da  autora  Emília  Viotti  da  Costa,  que,  em  seu  livro
43
,  discorre  sobre  as 
mudanças na produção cafeeira, no final do século XIX, apontando as dificuldades enfrentadas 
pelos  cafeicultores  no  desenvolvimento  da  produção  e  no  aproveitamento  dela.  Entre  essas 
                                                           
40
 Ibidem, p. 199. 
41
 Ibidem, p. 234. 
42
 Ibidem, p. 205. 
43
 COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. 3º edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989, especialmente 
Capítulo IV: Transformações na economia cafeeira. pp. 181-226. 


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dificuldades estavam, por exemplo, os entraves para incluir novas técnicas de plantio, por meio 
de máquinas; assim como no escoamento da produção, devido à precariedade dos transportes. 
Entre os  motivos  que Costa apresenta como  argumento para a dificuldade em  desenvolver a 
economia cafeeira, encontra-se a mão de obra escrava.  
Segundo  a  autora,  era  preciso  desenvolver  a  produção  cafeeira,  o  que  encontrava 
resistências pelo uso dos escravos, pois estavam se tornando escassos, já que não havia mais o 
tráfico  de  africanos.
44
  Eles  também  não  tinham  condições  de  se  adequar  ao  novos  modos 
agrícolas, afinal sua condição servil anulava sua capacidade de trabalho, principalmente no que 
dizia  respeito  ao  uso  da  tecnologia.  Como  diz  Costa,  “a  introdução  de  processos  novos  na 
lavoura  e  beneficiamento  só  se  fazia,  entretanto,  lentamente.  A  existência  do  braço  escravo 
relativamente  abundante  estorvava  esse  progresso.”
45
  Disso  surgia  a  necessidade  dos 
cafeicultores trazerem o maquinário agrícola e trabalhadores aptos. 
Para  isso  eles  esperavam  ter  apoio  financeiro  do  Estado,  que  arcaria  com  os  custos 
desses  instrumentos.  E  também  a  substituição  dos  escravos  pelos  trabalhadores  livres,  por 
exemplo com imigrantes europeus, os quais deveriam ser estimulados, por programas estatais, 
para  irem  trabalhar  nas  fazendas.  Para  argumentar  essa  ideia,  Costa  retoma  o  argumento  do 
deputado Inácio de Morais, da província de São Paulo, o qual considera:  
“A diminuição de braços, que cada vez mais se vai tornando sensível, faz com 
que tenhamos necessidade de admitir um outro sistema de trabalho mais fácil 
e  menos  dispendioso,  qual  seja  o  produzido  por  máquinas”.  E  concluía, 
afirmando que os agricultores encontravam dificuldades em utilizá-las, não só 
por  falta  de  conhecimentos,  como  principalmente  por  falta  de  capitais.  Por 
isso, deveria o Governo facilitar os meios para que pudessem sair do sistema 
rotineiro.
46
 
 
É recorrente na análise da autora a comparação das zonas cafeeiras do Vale do Paraíba 
e do Oeste Paulista, a fim de indicar quais diferenças existiam, explicando porque aquela era 
mais “atrasada” e mais resistente à mão de obra livre, enquanto esta não se baseava no trabalho 
escravo e assim conseguia desenvolver sua produção, inclusive com as novas tecnologias. Sobre 
isso, ela afirma: 
As fazendas do Vale, que já se haviam organizado com base no braço escravo, 
não se sentiam ainda impelidas a providenciar sua substituição. O emprego de 
máquinas  demandava  não  só  investimento  de  capital,  como  era  pouco 
compatível  com  o  trabalho  escravo.  Exigia  trabalhadores  com  certa 
qualificação,  capazes  de  manobrá-las  e  conservá-las.  O  escravo,  pela  sua 
própria  condição,  não  tinha  interesse  algum  no  trabalho.  Faltava-lhe  o 
interesse,  faltava-lhe  a  liberdade  de  ação,  faltava-lhe  também  a 
                                                           
44
 Ibidem, p. 206. 
45
 Ibidem.
 
46
 Ibidem, p. 207. 


22
 
 
responsabilidade:  qualidades  necessárias  para  se  lidar  com  máquinas 
dispendiosas (...). Daí, o contraste entre essa região de lavoura mais antiga e 
as  zonas  novas,  onde  não  só  o  espírito  receptivo  às  inovações,  peculiar  às 
zonas pioneiras, mas, sobretudo, o alto rendimento do café e as dificuldades 
para  obtenção  de  escravos  e  maiores  facilidades  para  adoção  do  trabalho 
livre estavam a favorecer a mecanização.
47
 (grifos nossos) 
 
É com base nesse raciocínio, fundamentado pelo viés econômico, que a autora elabora 
sua interpretação sobre o fim do regime escravagista no Brasil. A escravidão no Brasil deixava 
de  ser  necessária  ao  desenvolvimento  econômico,  inclusive  passava  a  ser  um  problema, 
portanto, deveria ser extinta. Além desse argumento, podemos notar na citação uma ideia muito 
semelhante à de Ianni, para o qual, também, a estrutura econômica era decisiva no sentido de 
provocar a transformação histórica.
48
  
Essa vertente caracterizou a escravidão brasileira como um sistema de trabalho, uma 
estrutura social, que anula a capacidade individual dos sujeitos que estão inseridos nela. Por 
essa concepção, os indivíduos não têm consciência da sua condição social, pois a organização 
dessa estrutura faz com que um determinado grupo domine os demais, exercendo total poder 
sobre  eles,  o  que  acaba  por  aliená-los.  Quando  Costa  afirma  que  a  produção  de  café  por 
maquinaria exigia uma mão de obra capacitada, o que não correspondia aos escravos, devido à 
sua  própria  condição  social,  ela  compartilha  da  ideia  de  que  os  negros  têm  seu  potencial 
produtivo  e  criativo  anulado  pelo  sistema  escravista.  Ou  seja,  não  passam  de  instrumentos 
(objetos)  de  trabalho,  completamente  alienados.  Essa  compreensão  foi  predominante  na 
historiografia brasileira por muitos anos (até aproximadamente década de 1980), especialmente 
no que tange à escravidão, o que podemos notar por essas duas obras que foram apresentadas, 
consideradas  referências  nesse  assunto.  Os  dois  autores  a  seguir  também  não  negam  essa 
vertente interpretativa, apesar de introduzirem  outro tema referente à escravidão: as revoltas 
escravas 
 



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