Camila quadros


  O fim da escravidão como uma exigência do desenvolvimento econômico



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1.2  O fim da escravidão como uma exigência do desenvolvimento econômico: 
Octavio Ianni e Emília Viotti da Costa.
 
 
Por volta da década de 1960, tomou vulto uma produção bastante significativa sobre a 
escravidão  brasileira,  advinda,  principalmente,  de  sociólogos,  entre  os  quais  Florestan 
Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni. Sobre esse último, destacamos a obra 
“As metamorfoses do escravo”
34
, na qual o autor analisa como a escravidão se estruturou na 
região  de  Curitiba.  Nesse  sentido,  ele  também  discute  o  fim  da  mão  de  obra  escrava  nessa 
localidade, no final do século XIX. O contexto em que esse trabalho foi elaborado teve forte 
influência  das  teorias  marxistas,  que  acabaram  sendo  determinantes  na  forma  como  se 
interpretou a escravidão brasileira, o que é visível, inclusive, pelas citações de Marx que Ianni 
inclui  em  seu  texto,  para  explicar  seus  raciocínios:  “Segundo  Marx,  em  reflexões  sobre  o 
processo  de  racionalização  inerente  à  economia  mercantilizada  (...)”
35
.  É  com  base  nesse 
referencial teórico e metodológico que Ianni analisou a escravidão brasileira. 
                                                           
33
 Ibidem, p. 243. 
34
 IANNI, Octavio. As metamorfoses do escravo: apogeu e crise da escravatura no Brasil meridional. São Paulo: 
Difusão Europeia do Livro. 1962. 
35
 Ibidem, p. 105. 


19
 
 
O  autor  constrói  uma  argumentação  que  visa  a  justificativa  econômica  para  a 
substituição do escravo pelo trabalhador livre. Segundo ele, “as transformações sofridas pela 
estrutura  econômica-social  exigiram  uma  paulatina  substituição  do  escravo  pelo  trabalhador 
livre,  ao  lado  de  renovações  tecnológicas  destinadas  a  aumentar  o  rendimento  do  trabalho 
humano.”.
36
  Ao  longo  de  todo  o  livro,  essa  é  a  ideia  central,  pois,  de  acordo  com  Ianni,  o 
desenvolvimento da economia brasileira, com o uso de tecnologias, a dificuldade em adquirir 
escravos, depois da extinção do tráfico, a chegada dos imigrantes (trabalhadores assalariados), 
e a própria organização da estrutura escravocrata (que oprimia e anulava o cativo), exigia que 
a economia se modernizasse, o que pressionava pela libertação dos escravos. 
Para o autor, a escravidão era um sistema econômico-social que não tinha potencial 
para se dinamizar e substituir a forma de trabalho, engessando o desenvolvimento econômico 
do país. Ele afirma que, “o trabalho escravo perde prestígio progressivamente, em consequência 
das  inovações  tecnológicas,  do  encarecimento  do  preço  do  cativo,  da  destruição  das  bases 
morais do regime, da própria eficácia do trabalho de grupos europeus (...).”
37
 Além disso, Ianni 
também aponta para o caráter depreciativo que o trabalho adquire graças ao uso da mão de obra 
escrava.  Apoiando-se  nos  estudos  de  Caio  Prado  Jr.,  ele  defende  que  os  homens  livres  se 
negavam  a  trabalhar  em  serviços  empreendidos  também  pelos  escravos,  por  considerarem 
depreciativo.
38
  Dessa  maneira,  o  autor  procura  demonstrar  como  esse  sistema  social  era  um 
entrave no progresso brasileiro. 
Nesse  sentido,  os  argumentos  de  Ianni  embasam  a  tese  de  que  a  necessidade  de 
desenvolver  a  economia  brasileira  acentuou  a  instabilidade  na  estrutura  escravocrata,  que 
permitiu a ascensão do movimento abolicionista e a transformação da ordem social. Segundo 
ele, “aí está a função revolucionária da abolição, vista como um processo social deflagrado por 
influência das condições estruturais  emergentes.”
39
.  Outro  aspecto  enfatizado  pelo  o  autor  é 
quanto à condição do sujeito escravizado dentro daquele sistema, pois é recorrente a concepção 
de  que  o  escravo  vivia  alienado  e  inconsciente  sobre  si  mesmo.  Quando  se  refere  às 
insubordinações escravas, Ianni afirma:  
Neste momento ele pode adquirir a consciência, ainda que difusa, insuficiente, 
não  estruturada,  do  seu  estado  de  alienação.  (...)  Independentemente  da 
consciência  que  os  sujeitos  (brancos  ou  negros  e  mulatos)  tinham  das 
condições e dos efeitos daquelas alternativas de canalização das tensões, o fato 
                                                           
36
 Ibidem, p. 107. 
37
 Ibidem, p. 185. 
38
 Ibidem, p. 189. 
39
 Ibidem, p. 192. 


20
 
 
é  que  as  fugas,  revoltas,  homicídios,  suicídios  concorreram  para  o 
solapamento das bases sociais e morais do regime.
40
  
 
Ainda analisando a insubmissão escrava, Ianni  avalia que não é possível considerar 
tais atos com algum caráter político ou com o objetivo de transformar o regime. Pois, na visão 
dele,  a  condição  dos  escravos  impossibilitava  que  eles  se  organizassem  e  encabeçassem  um 
movimento para sua liberdade. Pelas palavras do autor
(...) não é possível afirmar-se que ele [escravo] tivesse desenvolvido uma ação 
social à qual se possa atribuir tal significação política. A sua atuação não era 
diretamente abolicionista (...).  A condição escrava é incompatível com uma 



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