C. A. Vianna Programa de Pós-graduação



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o Sr.(a) tem ou teve hipertensão arterial sistêmica 

(pressão alta)?”; “...diabetes mellitus (açúcar no 

sangue)?”; ...colesterol ou triglicerídeos alto?”; “...

angina/dor no peito ou infarto do coração?”; “...

acidente vascular cerebral (isquemia ou derrame 

cerebral)?”.

Para a informação de “uso de AAS” foi apre-

sentado aos entrevistados um cartão plastificado 

com as principais apresentações do AAS dispo-

níveis no mercado e solicitado que a pessoa indi-

casse no cartão a medicação que estava tomando 

ou trouxesse a embalagem e/ou a receita para a 

entrevistadora conferir. A dose de 80 a 325mg/dia 

de AAS foi a dose considerada para prevenção das 

DCV. Não foram considerados os medicamentos 

que continham outros fármacos na sua formula-

ção além do AAS, como antigripais ou relaxantes 

musculares. A pergunta “Desde o mês passado o 

Sr.(a) usou Aspirina ou alguma das seguintes me-

dicações todos os dias ou na maioria dos dias?”, 

tinha três opções de resposta: não; sim, usou to-

dos os dias e; sim, usou na maioria dos dias. Foi 

considerado “maioria dos dias” quando a pessoa 

usou a medicação por pelo menos 20 dias no úl-

timo mês.

As variáveis independentes foram: sexo ob-

servado pela entrevistadora, idade contínua, 

posteriormente categorizada em décadas (40-49 

anos, 50-59 anos e 60 anos ou mais), cor da pe-

le observada pela entrevistadora e classificada 

em branca, preta, parda, indígena ou amarela 

(dicotomizada em branca e não branca para as 

análises), situação conjugal (casado/com com-

panheiro, solteiro/sem companheiro, separado, 

viúvo), escolaridade coletada em anos completos 

(categorizada em 0-4, 5-8, 9-11 e 

≥ 12 anos de 

estudo), tabagismo (fumante, não fumante e ex-

fumante), nível socioeconômico de acordo com 

a classificação da Associação Brasileira de Em-

presas de Pesquisa (ABEP; http://www.abep.org/

codigosguias/Criterio_Brasil_2008.pdf, acessado 

em 13/Jul/2009) em 3 categorias (A/B, C, D/E), 

autopercepção de saúde (excelente/ muito boa, 

boa, regular e ruim), atividade física no lazer (sim 

≥ 150 minutos/semana e não < 150minutos/se-

mana de atividade física no lazer conforme o In-



ternational Physical Activity Questionnaire 

16

, e 



obesidade (IMC 

≥ 30kg/m


2

17



.

O peso e a altura foram aferidos com balan-

ças digitais da marca Tanita, com capacidade 

máxima de 150kg e precisão 0,1kg (Tanita Corp., 

Tóquio, Japão) e estadiômetros feitos sob enco-

menda (artesanalmente, Pelotas, Brasil), com 

capacidade máxima de 2m e precisão de 1mm, 

por antropometristas previamente treinadas e 

padronizadas.

Os dados foram analisados com o pacote es-

tatístico Stata, versão 11.0 (Stata Corp., College 

Station, Estados Unidos). Para a análise bivaria-

da, foi utilizado o teste do qui-quadrado, de he-

terogeneidade ou tendência segundo a natureza 

das exposições, sendo calculadas as prevalências 

de uso de AAS e seus respectivos intervalos de 

95% de confiança (IC95%), conforme as variá-

veis independentes. Tanto para a análise bruta 

quanto para a multivariável foi utilizada a regres-

são de Poisson 

18

, com controle para efeito de 



delineamento amostral (comando svy do Stata). 

Na análise multivariável, utilizou-se um mode-

lo hierárquico, com as variáveis demográficas e 

socioeconômicas no primeiro nível, as variáveis 

de hábitos de vida como tabagismo e atividade 

física no lazer no segundo nível, obesidade no 

terceiro nível e autopercepção de saúde num ní-

vel mais proximal ao desfecho.

Os testes de Wald de heterogeneidade ou 

tendência foram utilizados para avaliar a signi-

ficância estatística de cada variável no modelo. 

Foi feita uma seleção de variáveis por nível, man-

tendo-se na análise aquelas variáveis com valor 

p < 20. As variáveis situadas no mesmo nível ou 

em um nível superior ao da variável em questão 

foram tidas como potenciais fatores de confusão. 

O nível de significância estatística considerado 

para associação foi de 5%.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética 

em Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFPel 

e todos os participantes assinaram um Termo de 

Consentimento Livre e Esclarecido antes de ini-

ciar a entrevista.

Resultados

Dos 3.059 indivíduos elegíveis da amostra, fo-

ram entrevistadas 2.732 pessoas (10,7% de per-

das ou recusas). Vinte e duas gestantes foram 

excluídas, resultando numa amostra final de 

2.710 indivíduos.

O perfil das perdas e recusas foi semelhan-

te ao da amostra em relação à faixa etária (p = 

0,256). Contudo, as perdas foram discretamente 

maiores nos homens do que nas mulheres, e nas 

pessoas de cor branca em relação às pessoas não 

brancas (p < 0,001).

A mediana de idade foi de 45 anos (intervalo 

interquartil 32-58), 56,7% da amostra eram do 

sexo feminino, 81,4% da cor branca e 58,6% refe-

riram estar casadas ou viver com companheiro. 

Com relação às variáveis socioeconômicas, me-

tade da amostra tinha menos de 9 anos de esco-

laridade, e entorno de 80% pertenciam às classes 




USO DE AAS NA PREVENÇÃO DE DOENÇAS CARDIOVASCULARES

1125


Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(6):1122-1132, jun, 2012

C, D ou E. Por sua vez, 21,3% da amostra eram 

fumantes e uma proporção similar referiu ser ex-

fumante. Quanto à prática de atividade física e 

estado nutricional, 75,5% dos indivíduos foram 

classificados como inativos no lazer (< 150 mi-

nutos/semana), enquanto 23,4% apresentaram 

obesidade (IMC 

≥ 30kg/m

2

).



Com relação às doenças autorreferidas, a 

HAS foi a mais frequente (36,7%; IC95%: 33,7-

39,7), seguida da dislipidemia (24,8%; IC95%: 

21,6-28,3), angina e/ou IAM (10,9%; IC95%: 7,5-

14,9), diabetes mellitus (10,1%; IC95%: 6,9-14,5) 

e AVC (4,4%; IC95%: 1,4-9,5).

Dentre todos os indivíduos da amostra, 492 

(29,6%; IC95%: 25,5-33,7) tinham indicação de 

receber AAS para prevenção primária das DCV, 

ou seja, eram pessoas acima de 40 anos, com 

pelo menos duas das seguintes doenças: HAS, 

diabetes mellitus ou dislipidemia. Já para a pre-

venção secundária, 375 pessoas (13,9%; IC95%: 

10,5-17,8) apresentaram indicação por conta da 

história prévia de AVC ou angina/IAM.

O uso de AAS na prevenção primária de DCV 

foi de 24,8% (IC95%: 21,0-28,9); e na prevenção 

secundária, a prevalência foi de 34,3% (IC95%: 

29,5-39,4). A Figura 1 mostra que a prevalência 

de uso de AAS na prevenção primária não foi 

muito diferente quando apenas duas das três do-

enças (HAS, diabetes mellitus ou dislipidemia) 

estiveram presentes (menos de 20% em todos os 

casos), mas quando as três doenças foram rela-

tadas, o uso de AAS foi referido por um terço dos 

entrevistados. Por sua vez, das duas doenças que 

definem a prevenção secundária, o uso de AAS 

foi mais frequente entre aqueles com anteceden-

te de AVC (43,7%; IC95%: 34,6-56,1) quando com-

parados com aqueles com angina/infarto (32,9%; 

IC95%: 27,5-38,6), entretanto essa diferença não 

foi estatisticamente significativa.

Dos indivíduos que estavam usando AAS pa-

ra prevenção primária, 91% referiram usar por 

indicação médica e apenas 9% por conta pró-

pria. Esses valores não foram muito diferentes 

na prevenção secundária (89% e 9,4% respecti-

vamente), mas neste caso 1,6% referiu usar a me-

dicação por indicação de familiares. Por sua vez, 

dentre os indivíduos que estavam usando AAS 

na prevenção primária, 14% responderam que 

desconheciam o motivo para estar usando essa 

droga, e entre os indivíduos que estavam usando 

AAS para a prevenção secundária a prevalência 

foi de 12%.

A Tabela 1 apresenta as prevalências de uso 

de AAS na prevenção primária, a análise bruta 

e ajustada conforme variáveis sociodemográfi-

cas, estilo de vida, obesidade e autopercepção 

de saúde.

Nos indivíduos com cor da pele não branca o 

uso de AAS foi 70% mais frequente que entre os 

brancos, mesmo após ajuste para potenciais fa-

tores de confusão. Pessoas com 60 anos ou mais 

de idade usaram AAS com uma frequência 2,6 

Figura 1


Prevalência de uso de ácido acetilsalicílico (AAS) na prevenção de doenças cardiovasculares. Pelotas, Rio Grande do Sul, 

Brasil, 2010.

AVC: acidente vascular cerebral; HAS: hipertensão arterial sistêmica; IAM: infarto agudo do miocárdio.



Vianna CA et al.

1126


Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(6):1122-1132, jun, 2012

Tabela 1


Prevalência e análises brutas e ajustadas de uso de ácido acetilsalicílico (AAS) na prevenção primária (presença de dois fatores de risco: diabetes mellitus, 

hipertensão arterial sistêmica – HAS e/ou dislipidemia em 

≥ 40 anos). Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 2010 (N = 492).

Variável


n

Prevalência

Análise bruta

Análise ajustada

(IC95%)

RP (IC95%)

Valor de p

RP (IC95%)

Valor de p

Sexo


0,454 *

0,566 *


Feminino

309


25,9 (20,6-31,1)

1,00


1,00

Masculino

183

23,0 (16,1-29,8)



0,89 (0,65-1,22)

0,91 (0,65-1,27)

Idade (anos)

0,002 **


0,001 **

40-49


85

11,8 (4,3-19,2)

1,00

1,00


50-59

130


21,5 (14,2-28,9)

1,83 (0,96-3,49)

1,81 (0,97-3,38)

≥ 60


277

30,3 (24,1-36,5)

2,58 (1,34-4,97)

2,58 (1,37-4,87)

Cor da pele

0,003 *


0,002 *

Branca


391

21,7 (16,8-26,7)

1,00

1,00


Não branca

101


36,6 (26,9-46,4)

1,69 (1,20-2,37)

1,70 (1,22-2,36)

Situação conjugal

0,867 *

0,297 *


Casado/Com companheiro

303


24,8 (18,8-30,7)

1,00


1,00

Solteiro/Sem companheiro

43

27,9 (13,8-42,0)



1,13 (0,63-2,01)

1,11 (0,58-2,13)

Separado

53

26,4 (14,4-38,4)



1,07 (0,66-1,73)

1,03 (0,63-1,67)

Viúvo

93

22,6 (14,2-30,9)



0,91(0,60-1,40)

0,72 (0,46-1,13)

Escolaridade (anos)

0,092 **


0,230 *

≥ 12


61

21,3 (9,4-33,2)

1,00

1,00


9-11

82

15,9 (8,3-23,4)



0,74 (0,38-1,46)

0,70 (0,34-1,41)

5-8

152


25,0 (16,9-33,1)

1,17 (0,61-2,27)

1,00 (0,49-2,06)

0-4


140

30,0 (22,5-37,5)

1,41 (0,78-2,53)

1,20 (0,62-2,32)

Nível socioeconômico

A/B


86

17,4 (8,0 -27,0)

1,00

0,489 **


1,00

0,729 **


C

219


28,3 (22,0-34,6)

1,62 (0,92-2,85)

1,53 (0,88-2,64)

D/E


187

24,1 (17,2-31,0)

1,38 (0,76-2,50)

1,26 (0,70-2,27)

Tabagismo

0,565 *


0,396 *

Sim


80

21,3 (12,1-30,4)

1,00

1,00


Não

238


23,9 (18,0-29,9)

0,89 (0,55-1,43)

1,04 (0,63-1,73)

Ex-fumante

174

27,9 (19,1-35,4



1,15 (0,81-1,64)

1,25 (0,90-1,74)

Autopercepção de saúde

< 0,001 **

0,004 **


Excelente/Muito boa

32

15,6 (3,5-27,8)



1,00

1,00


Boa

170


16,5 (10,3-22,6)

1,05 (0,46-2,42)

1,13 (0,51-2,51)

Regular


225

30,0 (23,5-36,0)

1,91 (0,87-4,16)

1,82 (0,85-3,89)

Ruim

63

34,9 (21,3-48,5



2,23 (1,06-4,73)

2,00 (0,94-4,28)

Ativo no lazer (

≥ 150 minutos/semana)

0,769 *

0,603 *


Não

368


24,2 (19,2-29,2)

1,06 (0,73-1,52)

0,91 (0,63-1,31)

Sim


96

22,9 (14,5-31,3)

1,00

1,00


Obesidade (IMC 

≥ 30kg/m


2

) ***


0,680 *

1,00


0,743 *

Não


246

25,6 (19,0-32,2)

1,00

Sim


203

23,8 (17,4-30,1)

0,93 (0,65-1,33)

0,97 (0,81-1,16)

IC95%: intervalo de 95% de confi ança; IMC: índice de massa corporal; RP: razão de prevalência.

* Teste Wald de heterogeneidade;

** Teste Wald de tendência;

*** Variável com maior número de dados ignorados (10,4%).




USO DE AAS NA PREVENÇÃO DE DOENÇAS CARDIOVASCULARES

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(6):1122-1132, jun, 2012

vezes maior do que aqueles com 40-49 anos de 

idade, com tendência significativa mesmo após 

ajuste. O nível socioeconômico medido pelo 

ABEP e a escolaridade, o sexo e a situação conju-

gal não estiveram associados com o uso de AAS. 

O uso de AAS foi duas vezes mais frequente entre 

aqueles que referiram ter uma saúde ruim quan-

do comparados com os que relataram uma saúde 

excelente ou muito boa, mesmo após ajuste. O 

tabagismo, a atividade física no lazer e a obesida-

de não estiveram associados com o uso de AAS 

na prevenção primária.

A Tabela 2 apresenta as prevalências e as aná-

lises brutas e ajustadas de uso de AAS na preven-

ção secundária das DCV. A prevalência de uso de 

AAS foi cerca de 30% maior nos homens do que 

nas mulheres, no entanto a diferença não foi esta-

tisticamente significativa. As pessoas de 60 anos 

ou mais usavam quase duas vezes mais AAS que 

as pessoas na faixa etária dos 40-49 anos. A cor 

da pele, a situação conjugal e a escolaridade não 

estiveram associadas ao uso de AAS na preven-

ção secundária. Em relação ao nível socioeconô-

mico, os indivíduos mais pobres (classes sociais 

D/E) usavam 50% menos AAS do que os indiví-

duos das classes sociais mais favorecidas (clas-

ses A/B). Quanto às variáveis comportamentais, 

somente o fumo esteve associado ao uso de AAS; 

os ex-fumantes usavam AAS com uma frequên-

cia 41% maior do que os não fumantes, mesmo 

após ajuste para sexo, cor da pele, idade e nível 

socioeconômico. As variáveis autopercepção de 

saúde, atividade física no lazer e obesidade não 

estiveram associadas ao uso de AAS na preven-

ção secundária das DCV.

Discussão

As prevalências baixas de uso de AAS encontradas 

no estudo, tanto na prevenção primária das DCV 

quanto na secundária (24,8% e 34,3%, respecti-

vamente) são preocupantes, especialmente se 

considerarmos o benefício do AAS na redução de 

novos eventos, redução de mortalidade, além de 

sua boa tolerabilidade e segurança 

5,19,20

. Estudos 

realizados entre 1999 e 2004 em países de alta ren-

da (Estados Unidos, Islândia, Inglaterra), sobre o 

uso de AAS na prevenção de DCV, demonstraram 

prevalências muito amplas, variando entre 33% 

na prevenção primária até 97% na prevenção se-

cundária 

7,8,9,21

. No Brasil, um estudo realizado 

em 2005 na cidade de Porto Alegre avaliou 636 

pacientes ambulatoriais, diabéticos, maiores de 

40 anos com e sem DCV prévia e evidenciou que 

somente 17,7% dos pacientes estavam usando 

AAS na prevenção primária e 43% na prevenção 

secundária 

10

. Não foram localizados estudos de 



base populacional que tenham avaliado a preva-

lência de uso de AAS na prevenção das DCV no 

Brasil. É possível que a prevalência de uso de AAS 

esteja relacionada à falta de prescrição médica, 

particularmente por causa da falta de consenso 

na prevenção primária, sobre quais pacientes re-

almente se beneficiariam de tal prática. Outros 

fatores que poderiam afetar o uso de AAS seriam 

a dificuldade de acesso à medicação ou até a falta 

dela nas unidades básicas de saúde.

No último ano, algumas publicações levanta-

ram dúvidas sobre o uso rotineiro do AAS na pre-

venção primária das DCV 

6,22,23


, mas o benefício 

na prevenção secundária já está bem estabeleci-

do há vários anos 

5

. Em junho de 2010, a Ameri-



can Diabetes Association (ADA) se pronunciou 

diante dos resultados das metanálises sobre o 

uso de AAS na prevenção primária de DCV. A ADA 

recomendou que o AAS seja utilizado nas doses 

de 75-162mg/dia em pacientes diabéticos com 

alto risco de DCV (homens acima de 50 e mulhe-

res acima de 60 anos, com múltipos fatores de 

risco), com baixo risco de sangramento gastroin-

testinal e sem contraindicações ao uso de AAS. 

Para os demais pacientes, a indicação de uso de 

AAS deve ser individualizada 

22

.



Aparentemente, o uso de AAS após um even-

to cardiovascular agudo é alto, conforme reve-

lado por um estudo realizado entre pacientes 

diagnosticados com IAM recente num hospital 

de Rio de Janeiro, entre 2006 e 2007, tendo sido 

prescrito o medicamento em até 94,7% dos pa-

cientes 

11

. Da mesma forma, o acompanhamen-



to de pacientes com cardiopatia isquêmica por 

serviços especializados garante uma prevalência 

de prescrição de AAS em até 98% dos pacientes, 

conforme revelado por uma pesquisa realiza-

da em Porto Alegre em 2002 

12

. Todavia, muitos 



desses pacientes são posteriormente acompa-

nhados apenas por serviços de atenção básica e 

provavelmente a falta de prescrição de AAS e/ou 

de orientação no seu uso por parte do médico de 

tais unidades seja responsável pela descontinui-

dade do tratamento.

Quanto aos fatores associados, encontra-

mos que o uso de AAS na prevenção primária 

foi maior nos indivíduos de cor não branca. 

Apesar de outros estudos terem evidenciado 

maior utilização dos serviços de saúde entre in-

divíduos brancos 

24,25

, acreditamos que o uso 



mais frequente de AAS para prevenção primá-

ria nos não brancos pode estar associado com a 

maior gravidade das doenças nesses grupos po-

pulacionais, tal como acontece com a HAS entre 

pessoas de cor/raça negra 

26

. Isso seria também 



compatível com o maior uso de AAS entre ido-

sos e entre aqueles com pior percepção sobre o 

seu estado de saúde. O incremento de doenças



Vianna CA et al.

1128


Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(6):1122-1132, jun, 2012

Tabela 2


Prevalência e análises brutas e ajustadas de uso de ácido acetilsalicílico (AAS) na prevenção secundária (pós-AVC e/ou IAM/angina). Pelotas, Rio Grande do 

Sul, Brasil, 2010 (N = 373).

Variável

n

Prevalência



Análise bruta

Análise ajustada

(IC95%)

RP (IC95%)

Valor de p

RP (IC95%)

Valor de p

Sexo


0,076 *

0,092 *


Feminino

245


31,0 (24,4-37,6)

1,00


1,00

Masculino

128

40,6 (31,2-50,1)



1,31 (0,97-1,36)

1,28 (0,96-1,71)

Cor da pele

0,384 *


0,104 *

Branca


293

33,1 (24,4-37,6)

1,00

1,00


Não branca

80

38,8 (31,2-50,1)



1,17 (0,82-1,67)

1,31 (0,93-1,85)

Idade (anos)

0,032 **


0,031 **

40-49


49

20,4 (10,2-34,3)

1,00

1,00


50-59

84

39,3 (28,8-50,5)



1,93 (1,06-3,47)

1,79 (0,98-3,28)

≥ 60

200


40,5 (33,6-47,7)

1,98 (1,12-3,52)

1,94 (1,07-3,50)

Situação conjugal

0,407 *

0,616 *


Casado

216


38,0 (31,0-45,3)

1,00


1,00

Solteiro


37

24,3 (9,7-39,0)

0,64 (0,34-1,21)

0,78 (0,39-1,55)

Separado

50

28,0 (13,8-42,2)



0,73 (0,43-1,27)

0,69 (0,37-1,27)

Viúvo

70

32,9 (22,8-44,0



0,87 (0,61-1,23)

0,86 (0,59-1,24)

Escolaridade (anos)

0,959 **


0,412 **

≥ 12


34

44,1 (25,8-62,5)

1,00

1,00


9-11

55

21,8 (10,8-32,8)



0,49 (0,27-0,85)

0,65 (0,36-1,17)

5-8

112


36,6 (27,3-45,9)

0,83 (0,51-1,34)

1,14 (0,73-1,77)

0-4


126

36,5 (27,4-45,7)

0,83 (0,51-1,33)

1,13 (0,70-1,81)

Nível socioeconômico

< 0,001 **

< 0,001 **

A/B


41

48,8 (30,7-66,8)

1,00

1,00


C

154


40,3 (31,8-48,7)

0,83 (0,56-1,28)

0,90 (0,64-1,27)

D/E


178

25,8 (18,8-32,9)

0,53 (0,34-0,83)

0,50 (0,33-0,76)

Tabagismo

0,001 *


0,024 *

Não


174

31,0 (23,7-38,4)

1,00

1,00


Sim

80

22,5 (13,1-31,9)



0,73 (0,47-1,12)

0,81 (0,51-1,30)

Ex-fumante

119


47,1 (37,4-56,7)

1,52 (1,14-2,01)

1,41 (1,03-1,93)

Autopercepção de saúde

0,387 **

0,474 **


Excelente/Muito boa

26

23,1 (6,3-39,9)



1,00

1,00


Boa

88

37,5 (26,4-48,6)



1,62 (0,75-3,51)

1,77 (0,90-3,47)

Regular

179


33,0 (26,0-40,0)

1,43 (0,70-2,91)

1,60 (0,83- 3,10)

Ruim


77

39,0 (26,9-51,0)

1,69 (0,78-3,64)

1,71 (0,84-3,47)

Ativo no lazer (

≥ 50 minutos/semana)

0,649 *

0,552 *


Não

272


32,0 (25,4-38,6)

0,92 (0,65-1,32)

1,12 (0,77-1,62)

Sim


72

34,7 (23,6-45,9)

1,00

1,00


Obesidade (IMC 

≥ 30kg/m


2

) ***


0,374 *

0,392 *


Não

206


36,6 (29,2-44,1)

1,00


1,00

Sim


126

32,0 (24,1-39,9)

0,93 (0,79-1,09)

0,94 (0,82-1,08)

AVC: acidente vascular cerebral; IAM: infarto agudo do miocárdio; IC95%: intervalo de 95% de confi ança; IMC: índice de massa corporal; RP; razão de 

prevalência.

* Teste de Wald de heterogeneidade;

** Teste de Wald de tendência;

*** Variável com maior número de dados ignorados (10,4%).



USO DE AAS NA PREVENÇÃO DE DOENÇAS CARDIOVASCULARES

1129


Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(6):1122-1132, jun, 2012

crônicas com o passar dos anos ocasionaria 

também maior procura por atendimento de 

saúde, conforme mostraram três estudos popu-

lacionais realizados na cidade de Pelotas entre 

1999 e 2008 

27,28,29

, o que explicaria o maior uso 

de AAS nessas faixas etárias, tanto para preven-

ção primária como secundária.

Da mesma forma, a autopercepção de saúde 

tem sido utilizada em alguns estudos 

27,29

 como 


indicador global de saúde e a pior percepção 

de saúde estaria também relacionada com uma 

maior procura por atendimento médico, poden-

do ser responsável pelo maior uso de AAS na pre-

venção primária entre esses indivíduos.

Assim, certas características relacionadas 

com a severidade das doenças (cor não branca, 

idade avançada, pior percepção de saúde) oca-

sionariam maior procura pelos serviços de saú-

de, aumentando a proximidade com a equipe de 

saúde e a probabilidade de indicação de uso de 

AAS para prevenção primária quanto de outras 

medidas preventivas 

30

. Isso estaria de acordo 



com o descrito por Starfield 

31

 sobre a continui-



dade dos cuidados na atenção primária à saúde, 

a qual dependeria da existência de um médico de 

referência que conheça não apenas o indivíduo, 

mas também a sua família e o contexto social no 

qual está inserido.

Por sua vez, a falta de associação da cor da 

pele e da autopercepção de saúde com o uso de 

AAS para prevenção secundária poderia ser o 

resultado do viés de sobrevivência seletiva, pois 

justamente os não brancos e com pior percepção 

de saúde podem não ter sido localizados por con-

dições relacionadas à gravidade da doença (óbito 

ou hospitalização no momento da entrevista).

Embora as mulheres consultem mais no 

que diz respeito à prevenção 

28,29


, os homens, 

sobretudo aqueles com idade mais avançada 

e, portanto, com maiores chances de apresen-

tarem doenças crônicas, fazem mais consultas 

com especialistas 

27

. Tal fato estaria de acordo 



com o achado deste estudo em que a frequência 

de uso de AAS na prevenção secundária foi 30% 

maior nos homens do que nas mulheres, ainda 

que essa associação não tenha sido significativa. 

Em 2004, um estudo inglês evidenciou que as 

mulheres usavam cerca de 30% menos AAS do 

que os homens para prevenção secundária das 

DCV 


21

, o que sugere que o sexo seria sim um 

fator associado ao uso de AAS.

Nosso estudo identificou também que os 

indivíduos ex-fumantes tinham uma maior pre-

valência de uso de AAS na prevenção secundária 

do que os fumantes e não fumantes. Esse acha-

do pode ser resultado de causalidade reversa, 

em que os ex-fumantes poderiam ter abando-

nado o cigarro por já terem apresentado algum 

sintoma de DCV e devido a isso necessitarem 

maior uso de AAS. Mas também poderia refletir 

uma maior preocupação com a sua saúde por 

causa da presença de sintomas respiratórios, 

ocasionando maior disposição em procurar 

atendimento e aderir a um tratamento prescrito 

pelo médico 

29

.



Mesmo que o AAS seja uma droga de baixo 

custo, encontramos que o uso da medicação na 

prevenção secundária de DCV foi maior nos indi-

víduos pertencentes às classes sociais mais altas, 

talvez em função do acesso mais fácil a serviços 

especializados, à medicação e/ou a uma melhor 

conscientização da necessidade do seu uso. Pa-

niz et al. 

32

, em 2005, estudaram o acesso à medi-



cação de uso contínuo nas regiões Sul e Nordeste 

do Brasil e também encontraram maior acesso 

à medicação de uso crônico quanto maior nível 

socioeconômico.

O presente estudo mostrou que pouco mais 

de um terço da população apresenta pelo menos 

um fator de risco para DCV. Um dos possíveis li-

mitantes desses resultados seria a forma em que 

foram identificadas as pessoas, dado que o diag-

nóstico dessas doenças foi autorreferido, pois a 

confirmação clínica de tais diagnósticos seria 

logisticamente difícil e onerosa. Porém, com 

exceção da dislipidemia, as prevalências autor-

referidas encontradas no presente estudo foram 

similares às estimativas do Ministério da Saúde 

para a população adulta: 36,7% para HAS, 10,1% 

para diabetes mellitus, 10,9% para angina/IAM e 

4,4% para AVC. Chrestani et al. 

33

 realizaram um 



estudo de validação diagnóstica de HAS autorre-

ferida na cidade de Pelotas em 2009 encontrando 

uma prevalência de HAS semelhante à do nosso 

estudo (34%).

Da mesma forma, o erro recordatório, co-

mum em estudos transversais, provavelmente 

não afetou de forma importante as informações 

obtidas sobre o consumo de AAS, visto que essa 

medicação é de uso contínuo. Além disso, as fo-

tografias usadas para mostrar aos entrevistados 

as diversas apresentações farmacêuticas de AAS 

também ajudaram a lembrança e a identificação 

do medicamento utilizado. Finalmente, outra 

limitação deste estudo foi o fato de não terem 

sido coletadas informações sobre o acesso aos 

serviços de saúde. Esse aspecto parece não ter 

afetado os nossos achados, pois mesmo entre 

indivíduos com melhor posição socioeconômi-

ca – que apresentam maior acesso aos serviços 

de saúde 

29,30

 – a prevalência de uso de AAS foi 



baixa.

A principal contribuição deste estudo é aler-

tar a classe médica, clínicos e especialistas, sobre 

o baixo consumo de AAS na prevenção de DCV. 

Tal achado pode refletir uma falha na prescrição 



Vianna CA et al.

1130


Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(6):1122-1132, jun, 2012

médica ou na orientação e esclarecimento para 

os pacientes sobre a importância do uso dessa 

medicação, o que também pode contribuir pa-

ra a não adesão ao tratamento. Mesmo havendo 

controvérsias sobre o uso de AAS na prevenção 

primária das DCV, os benefícios na redução de 

eventos e mortalidade na prevenção secundária 

estão bem estabelecidos e não justificam a baixa 

prevalência de uso encontrada neste estudo. O 

presente estudo não permite chegar a conclu-

sões sobre quais são as causas do não uso do AAS. 

Logo, mais estudos são necessários para esclare-

cer os reais motivos da baixa prevalência do uso 

de AAS na prevenção das DCV. 

Resumo





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