Brasil, uma história


partes dos que se diziam abolicionistas. Foi uma especulação a mais! A prova é



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

partes dos que se diziam abolicionistas. Foi uma especulação a mais! A prova é
que fizeram essa república e depois dela só advogam a causa dos bolsistas
[investidores da bolsa de valores], dos ladrões da finança, piorando
infinitamente a condição dos pobres. (…) Estávamos metidos com financistas, e
não com puritanos, com fâmulos de banqueiros falidos, mercenários e agiotas…”
AS LEIS DA ABOLIÇÃO
um país que adotou a ficção jurídica segundo a qual as leis “pegam” ou
“não pegam”, não é de estranhar que as imposições contra o tráfico de
escravos e contra a própria escravidão tenham demorado tanto para “pegar”. Às
pendengas judiciais, aos tortuosos caminhos legais da Câmara e do Senado, aos
entraves, recuos e decursos de prazo provocados por infindáveis discussões
partidárias, aos conflitos entre os liberais e conservadores que antecediam a
aprovação de qualquer nova lei contra a escravidão é preciso acrescentar o fato
de que, depois de finalmente aprovadas, tais leis se tornavam, no ato e na prática,
letra morta. Esse processo sórdido explica por que a luta legal contra a
escravidão se prolongou por 80 anos no Brasil.
Foi somente após a humilhação internacional resultante do Bill Aberdeen que
o Brasil, enfim, se dispôs a proibir o tráfico. A abolição se tornou, então, uma
questão interna, realmente “nacional”. Sem a pressão exterior, seu processo se
arrastaria por quase quatro décadas. A maioria dos conservadores era, a priori,
contra a libertação dos escravos. Se ela tivesse de ser feita, os proprietários
precisariam ser indenizados pelo Estado e o processo deveria ser “lento, gradual


e seguro”. Em maio de 1855, o conselheiro José Antônio Saraiva propôs que a
escravidão fosse extinta em 14 anos e que o Estado pagasse 800 mil-réis por
escravo entre 20 e 30 anos, 600 mil-réis pelos de 30 a 40, 400 mil-réis pelos de
40 a 50 e um conto (ou 1 milhão) de réis por escravo com menos de 20 anos.
SILVA JARDIM
Era um homem de natureza vulcânica. Tanto é que, no início de 1888, depois que sua proposta de
desencadear uma “ação popular revolucionária” para derrubar D. Pedro II e instalar a República no
Brasil não foi aceita no Congresso Republicano, realizado em São Paulo, o advogado e jornalista
Antônio Silva Jardim (1860-1891) decidiu vender, por 500 mil-réis, sua parte num escritório de
advocacia. E disse: “Com esse dinheiro, vou derrubar a monarquia. Com alguns níqueis e uma
garganta, também se pode abrir caminho para a República.” Silva Jardim não era apenas um
republicano extremado: era também um abolicionista radical, disposto a burlar qualquer expediente
jurídico que barrasse a libertação dos escravos. Para ele, a lei da abolição deveria ter – como de fato
teve – apenas dois artigos. “A questão se resolveria assim: o primeiro artigo diria: fica abolida a
escravidão no Brasil; e o segundo, pedimos perdão ao mundo por não tê-lo feito há mais tempo.”
Silva Jardim foi responsável pela fuga de dezenas de escravos de fazendas paulistas. Mas, pouco após
a abolição, quando iniciou sua pregação republicana numa viagem pelo vale do Paraíba, pelo Rio de
Janeiro e por Minas Gerais, fazendo, em um mês, trinta comícios em 27 cidades, teve sérios problemas
com a “Guarda Negra”, a milícia de escravos libertos encarregada de dissolver a cacetadas as
reuniões republicanas. Chegou a discursar de revólver em punho. Certa vez, quando seus
companheiros quiseram escoltá-lo até em casa, ele fez questão de ir sozinho. Disse: “Quero ver quem
tem mais coragem: se eu para morrer, se essa gente para matar.” Depois da Proclamação da
República, o rebelde desiludiu-se com o movimento – e perdeu a eleição para senador. Partiu, então,

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