Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Se fosse norte-americano, sua vida teria rendido vários livros e filmes. Mas Luís Gama era um pobre
negro brasileiro, nascido na Bahia em 1830, e, embora sua biografia mais pareça um conto dramático,
continua sendo praticamente ignorada no país. Luís Gama (à direita) foi, e continua sendo, o nome
mais emblemático do movimento abolicionista. Filho de um fidalgo português empobrecido e de Luísa
Mahin, “negra africana livre que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã”, Gama foi ilegalmente
vendido como escravo pelo próprio pai, aos dez anos de idade. Levado para o Rio de Janeiro e, mais
tarde, para Santos, fugiu da casa de seu “dono”, foi soldado, jornalista, poeta e, por fim, advogado.
Iniciou, então, monumental batalha judicial, conseguindo a libertação de mais de quinhentos escravos,
baseando-se na lei de 1831, segundo a qual todos os africanos entrados no país depois de 7 de
setembro daquele ano eram livres. Também obteve alforria de mais quinhentos cativos aproveitando-se
de outra brecha da lei. Morreu aos 52 anos, em São Paulo, em 24 de agosto de 1882 – seis anos antes
da Lei Áurea. Seu enterro, no cemitério da Consolação, transformou-se numa portentosa manifestação
abolicionista e republicana.
JOAQUIM NABUCO


E
m 1883, Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo estava morando em
Londres. Era correspondente do Jornal do Commercio, amigo do
embaixador do Brasil na Inglaterra, barão de Penedo, e vivia no bairro mais
aristocrático da capital do mundo. Ainda assim, não havia se recuperado da
derrota eleitoral sofrida dois anos antes, no Brasil. Deputado do Partido Liberal,
ele fora eleito em 1878 por Pernambuco, tornando-se, a partir de então, um
“verdadeiro tormento na Câmara”. Em 1880, depois de fundar a Sociedade
Brasileira contra a Escravidão, ele se transformara no maior porta-voz do
abolicionismo legalista e parlamentar.
De formação conservadora, filho de uma das mais tradicionais famílias do
país, ligada à economia açucareira e à política imperial, o monarquista Nabuco
(nascido no Recife em agosto de 1849) apresentou, em agosto de 1880, um
minucioso projeto de lei propondo a abolição da escravatura em 1890 e o
pagamento de uma indenização aos senhores de escravos. O projeto se chocava
com a proposta dos militantes radicais, em geral republicanos, que queriam
abolição imediata e sem indenização. Pego entre dois fogos, Nabuco não
conseguiu reeleger-se em 1881.
SOB AS BÊNÇÃOS DE BENTO
A obra de Luís Gama teria continuação – ou melhor, se radicalizaria – nas ações desencadeadas pelo mais
fiel e ativo de seus discípulos: Antônio Bento. Branco, rico e filho de fazendeiros, Bento nascera em
condições opostas às de Gama. Mas se tornou um abolicionista fanático, não apenas libertando os
escravos da fazenda de sua irmã, mas criando um grupo radical, os Caifazes, que passou a invadir
fazendas e articular fugas em massa de centenas de escravos. Para completar os traços invulgares de sua
singularíssima biografia, Antônio Bento era – e continuou sendo até a morte, em 1898 – monarquista e
conservador. Mas foi também o mais subversivo de todos os abolicionistas, a ponto de ter sua morte
tramada por senhores de escravos e sua mansão invadida várias vezes pela polícia. Antônio Bento foi
também o principal organizador do quilombo do Jabaquara, localizado em Santos, para onde foram
levados mais de dez mil escravos cuja fuga ele próprio ajudara a organizar.
No agridoce exílio londrino, ele escreveu então uma das mais densas e belas
obras de combate já publicadas em português: O abolicionismo – livro
fulgurante, moderno e incisivo, no qual, livre do compromisso com as manobras
políticas, Nabuco defende a abolição imediata e sem indenização, desde que
dentro da lei.
Em 1884, Nabuco retornou ao Brasil e à Câmara: foi reeleito com ampla
margem de votos. Como se manteve monarquista e legalista, e acreditando que a
abolição era, basicamente, “negócio de brancos”, certos historiadores o


N
consideraram “líder da ala direita do movimento”. Nos anos seguintes, a
abolição se concretizou, embora logo ficasse claro que não se tratava de muito
mais do que uma mera medida jurídica, e em seguida veio a República. Apesar
de ter sido ministro dos governos de Prudente de Morais e de Campos Sales,
Nabuco (que morreu em Washington, em janeiro de 1910) amargurou-se
profundamente com os destinos do país e dos ex-escravos.
Em janeiro de 1893, ele havia escrito para André Rebouças, o amigo que
muito o influenciara e que então se achava no exílio voluntário na África: “Com
que gente andamos metidos! Hoje estou convencido de que não havia uma
parcela de amor ao escravo, de desinteresse e de abnegação em três quartas
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