Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, seria o comandante natural do Exército brasileiro na
Guerra do Paraguai. Quando o conflito rebentou, porém, o governo do Brasil estava em mãos dos liberais
– e Caxias, ligado ao Partido Conservador, acabou sendo substituído pelo ex-discípulo Manoel Osório. Em
julho de 1866, os conservadores forçaram sua ascensão, e Caxias enfim assumiu o comando geral das
tropas brasileiras. Um ano mais tarde, com Bartolomé Mitre saindo de cena, ele se tornaria o chefe dos
exércitos aliados, imprimindo às operações o estilo ofensivo que sempre caracterizou suas campanhas.
Venceu uma sucessão de batalhas e entrou em Assunção em janeiro de 1869. Doente, retirou-se em março,
deixando a guerra praticamente ganha.
Foi um ataque terrível e ruidoso, conforme revela o relato do alferes Dionísio
Cerqueira, do 4º Batalhão de Voluntários: “Novas colunas de cor avermelhada e
armas cintilantes surgiam umas após as outras; eram guerreiros acobreados,
espadaúdos, montados em pequenos cavalos, com os estribos de rodela entre os
dois dedos dos pés e chiripás de lã vermelha; com boleadeiras nos tentos,
empunhando lanças enormes, ou brandindo espadas curvas e afiadas, avançando
a galope, em alarido infernal, sobre os batalhões, já meio desorientados, pelas
cargas repetidas que davam, pelas linhas de atiradores que saíam, pelas fileiras
que rareavam, pelos oficiais que morriam, pelos chefes que tombavam. Parecia
uma tempestade… Cornetas tocavam à carga; lanças se enristavam; a artilharia
rugia; cruzavam-se baionetas; rasgavam-se os corpos sadios dos heróis; espadas
brandidas abriam crânios, cortavam braços e decepavam cabeças.”
Depois de duas horas de fragorosa batalha campal, as tropas do general
brasileiro Manuel Osório conseguiram conter o ataque ao centro da formação
brasileira e, em seguida, depois de auxiliarem as alas, passaram à ofensiva. Às
quatro e meia da tarde, o exército paraguaio batia em retirada, deixando 6 mil
mortos (contra 3.913 dos aliados) e 7 mil feridos. Porém, o comandante das
forças da Tríplice Aliança, Bartolomé Mitre, resolveu não perseguir o inimigo já
batido. Descontente e discordando da atitude de Mitre, Osório – que fora um dos
principais heróis da batalha – decidiria retirar-se, já no mês seguinte, do teatro de
operações.
Por quase dois anos, Osório se manteve longe da guerra – que, julgava ele,
poderia ter começado a terminar exatamente naquele dia, em Tuiuti, caso Mitre
tivesse revelado mais determinação.
De todo modo, se ainda não o fizera, quatro meses mais tarde Mitre teria
todos os motivos para se arrepender (e dar razão a Osório). Afinal, no dia 22 de


A
setembro de 1866, ele comandou pessoalmente um ataque à fortaleza de
Curupaiti, em pleno Chaco paraguaio. E, ali, o exército que Mitre perdera a
chance de destroçar em Tuiuti estava não apenas reagrupado, mas protegido
pelas trincheiras, pelos fossos e pelos 32 canhões de um forte recém-
reconstruído. Como não é difícil supor, o combate redundou em tragédia e
fracasso para os aliados, que perderam mais de cinco mil homens. Boa parte das
tropas argentinas (2.082 homens) e uruguaias (cerca de novecentos soldados) foi
dizimada em Curupaiti –, e ambos os países jamais tiveram possibilidade de
restaurar seus efetivos.
Assim, a partir de fins de 1866, a Guerra do Paraguai passou a ser, quase que
exclusivamente, uma guerra do Brasil contra o Paraguai. E o confronto ainda se
arrastaria por quatro terríveis e longos anos.
A DEZEMBRADA
pesar da vitória esmagadora em Tuiuti, em maio de 1866 a situação da
guerra permanecia incerta. Foi quando, no Rio de Janeiro, o Partido
Conservador, que estava na oposição, conseguiu forçar o gabinete liberal,
chefiado por Zacarias Góes e Vasconcelos, a entregar o comando-geral das
forças brasileiras ao então marquês de Caxias – mesmo porque o general Osório,
ferido e contrariado, havia se afastado momentaneamente da luta. Em janeiro de
1868, o general Bartolomé Mitre, presidente da Argentina, foi forçado a retornar
a Buenos Aires para enfrentar problemas políticos internos. O comando dos
exércitos aliados passou, então, às mãos de Caxias – ainda mais porque o Brasil
prosseguiria na guerra virtualmente sozinho.
Tão logo assumiu a chefia, Caxias – que encontrara o exército brasileiro mal
armado, indisciplinado e duramente atingido por doenças e epidemias –
reorganizou as tropas e deu início à ofensiva final para tomar Assunção, a capital
paraguaia. Duas décadas antes, porém, engenheiros militares brasileiros tinham
ajudado o governo do Paraguai a erguer a fortaleza de Humaitá, nas margens do
rio Paraguai, quase na confluência com o rio Paraná. Em junho de 1867, o
último baluarte do exército de López a impedir o avanço das forças aliadas era
justamente o forte erguido com a ajuda de seus inimigos de então. Mas, com o
exército reequipado e remotivado, Caxias pôde determinar o cerco a Humaitá,


N
contornando a fortaleza e atacando-a pela retaguarda, em fevereiro de 1868. O
forte, no entanto, só foi tomado em agosto. Estava aberto o caminho não apenas
para Assunção, mas para a vitória – embora a guerra ainda fosse clamar milhares
de vidas e exigir mais de uma dezena de batalhas épicas.
Depois de tomar a linha fortificada de Pisiquiri, às margens do rio Paraguai –
fazendo uma trilha com seis mil troncos de palmeiras para poder atravessar um
pântano –, Caxias deu início à ofensiva final, que entraria para a história com o
nome de Dezembrada. A campanha começou em 4 de dezembro de 1868, com a
batalha de Itororó. Depois vieram os combates de Angostura e Lomas Valentinas
– este último com seis dias de duração. Entre um e outro, no dia 11, foi travada a
Batalha do Avaí, que Pedro Américo iria imortalizar com um quadro de amplas
dimensões.
A Dezembrada terminaria no dia 30, com a tomada de Angostura. Uma
semana depois, a 5 de janeiro de 1869, os exércitos aliados marchavam sobre
Assunção. A guerra, porém, ainda não estava terminada, já que Solano López
abandonara a cidade, refugiando-se no norte do Paraguai com seus 13 mil
derradeiros soldados.
A RETIRADA DA LAGUNA
ão foram apenas belos (e polêmicos) quadros de batalhas que a Guerra do
Paraguai legou às artes brasileiras. Há também pelo menos uma obra-prima
literária produzida no campo de batalha. Militarmente, o episódio conhecido
como a Retirada da Laguna foi um fiasco e um fracasso. Literariamente, porém,
transformou-se em uma vitória maior.
Primeiro, os fatos: em maio de 1867, o Brasil ainda não possuía comunicação
por terra com o território de Mato Grosso, que havia sido invadido e permanecia
controlado pelo Paraguai. Uma pequena coluna brasileira, formada por 1.680
homens, comandados pelo coronel Carlos de Morais Camisão, recebeu a
incumbência de realizar uma incursão por trás das linhas inimigas e penetrar de
Mato Grosso. Foi uma marcha épica, iniciada a 8 de maio, que acabou
conduzindo aquela tropa desde o Rio de Janeiro até Coxim, em Mato Grosso (via
Mogi, Franca e Uberaba). De Coxim, os expedicionários, já vitimados pelo
cansaço, pela fome e pelas enchentes, entraram em Laguna, no Paraguai, sendo


então atacados pelo inimigo. Forçados a bater em retirada, foram acometidos por
epidemias de cólera-morbo e febres palustres. Toda a sorte de perigos e
privações, todos os atos de desespero e de heroísmo, foram brilhante e
minuciosamente descritos por Alfredo d’Escragnolle Taunay, em seu livro A

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