Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
capítulo).
Foi o afastamento de Zacarias e de seus ministros que rompeu com os quinze
anos de conciliação (de homens e de ideias) entre liberais e conservadores. De
fato, em 1853, o marquês do Paraná organizara um ministério muito
propriamente batizado de “Gabinete da Conciliação”. Embora tal gabinete tenha
caído em 1859, a ascensão do “Gabinete Zacarias”, em 24 de maio de 1862,
garantiria uma considerável estabilidade ao regime imperial – baseada
fundamentalmente na preservação dos interesses das elites e na manutenção do
regime escravista.
A Guerra do Paraguai aumentou o prestígio popular do imperador. Mas,
depois do fim do conflito, no primeiro semestre de 1870, tudo começou a dar
errado para D. Pedro II: uma sucessão quase conspiratória de acontecimentos
que só cessaria com a sua destituição em 1889. De fato, os vinte anos que se
seguiram ao final da Guerra do Paraguai foram o oposto das duas décadas
anteriores.
“Abriu-se contra o imperador a guerra do ridículo, um veio incessantemente
explorado pelos jornais ilustrados da imprensa popular, que surgiu em 1875 com
a Gazeta de Notícias”, conta o mesmo Capistrano de Abreu. “O imperador
tolerava que a crítica e o insulto, a própria calúnia, tivessem livre curso e
campeassem impunes” diz Pandiá Calógeras. “Nunca se defendeu, seguro como
estava em sua consciência de homem de bem de se achar acima de tais
misérias.”
Fosse ou não um homem de bem – e muito provavelmente o era –, D. Pedro
II, abatido com a morte da filha Leopoldina, em 1871, e muito afetado pela
diabetes e pela insuficiência cardíaca, começou a alhear-se progressivamente do
mundo. A volta dos liberais ao poder em 1878 não acalmou a nação. De um


jorro, seguiram-se a “questão religiosa” (ver capítulo 21); as mortes de Caxias,
Osório, Rio Branco, Nabuco, Alencar e Zacarias; o clamor abolicionista; e a
fermentação republicana. “O edifício do prestígio oficial fendia-se de alto a
baixo; uma atmosfera de chalaça deletéria envolvia tudo”, comenta Capistrano.
“Só o imperador não dava por isso, embebido em seus estudos de sânscrito,
persa, árabe, hebraico e tupi.” Pode-se dizer que foi com um certo alívio que, na
tarde de 16 de novembro de 1888, D. Pedro II recebeu do major Sólon Ribeiro,
comandante da cavalaria, a comunicação de que fora deposto e deveria deixar o
país “no mais breve prazo possível”.
O ÚLTIMO ADEUS
Foi no Hotel Belford, modesto estabelecimento em Paris, onde se hospedara no começo de 1890, que D.
Pedro II passou os dois últimos anos de sua vida – enfim livre para os livros. No exílio, o imperador
comportou-se com a dignidade sóbria e o retraimento supostamente erudito que sempre o caracterizaram.
Recusou-se a receber pensão do governo, recusou-se a utilizar seu grande prestígio internacional para
levar uma vida faustosa, embora quem lhe pagasse as contas fosse o barão de Penedo, provavelmente com
dinheiro público, numa contradição bastante reveladora não apenas da personalidade, mas dos quase 50
anos durante os quais o imperador governara o Brasil. D. Pedro II morreu solitário, em 6 de dezembro de
1891. O escritor Victor Hugo chamou-o de “neto de Marco Aurélio”, o famoso fotógrafo Félix Nadar
retratou-o no leito de morte e o governo francês o enterrou com honras de chefe de Estado, o que irritou
militares republicanos no Brasil. D. Pedro II desceu ao túmulo levando seus mistérios. “É impossível
conhecer-lhe o pensamento íntimo, os terrores que lhe perseguiram a infância, tendo feito da dissimulação
um instinto de sua natureza e dado ao seu olhar qualquer coisa de intranquilo”, escreveu um
contemporâneo.


F
Capítulo
19
A GUERRA DO PARAGUAI
oi uma virada nos rumos da guerra. A esquadra brasileira – uma fragata,
quatro corvetas e quatro canhoneiras, com 2.287 homens e 59 canhões a
bordo – estava próxima à embocadura dos rios Paraná e Paraguai, junto ao
afluente Riachuelo, nos arredores de Corrientes, quase na atual fronteira entre a
Argentina e o Paraguai. Reinava calma a bordo: os marinheiros preparavam-se
para assistir à missa da festa da Santíssima Trindade. Mas então, por volta das
nove horas da manhã, em formação de batalha e com uma velocidade de doze
milhas por hora (a favor da correnteza), duas corvetas, sete vapores e seis chatas
paraguaias, com 2.500 homens e 44 canhões, surgiram subitamente à frente
deles. Era domingo, 11 de junho de 1865, e uma das maiores batalhas navais da
história do continente iria começar. A esquadra brasileira era comandada pelo
chefe de divisão Francisco Manoel Barroso, que estava a bordo da fragata
Amazonas, na qual mandou içar o letreiro: “O Brasil espera que cada um cumpra
o seu dever”, seguido pela ordem: “Atacar o inimigo mais próximo que cada um
puder”. Foi exatamente o que aconteceu ao longo de mais de dez horas de um
combate feroz, ao final do qual a sorte havia mudado de lado na Guerra do
Paraguai.
O mais longo, mais sanguinolento e mais destrutivo conflito armado da
história da América do Sul havia começado seis meses antes. Desde então, a
iniciativa ofensiva pertencia ao Paraguai. Com o maior e mais poderoso exército
do continente (cerca de 60 mil homens em armas), e sob o comando férreo do
ditador Francisco Solano López, o Paraguai vinha se preparando havia anos para
deflagrar um conflito armado. A ambição de López era tornar seu país uma
potência continental. Seus interesses bateram de frente com os do império
brasileiro e, a seguir, com os da jovem República Argentina. Na conflituosa
geopolítica da bacia do Prata – uma região conflagrada desde o século XVI –,
López desempenhou o papel do fósforo no paiol de pólvora. Ao longo dos quatro


D
anos que se seguiram à Batalha do Riachuelo, Brasil, Argentina e Uruguai –
unidos pelo Tratado da Tríplice Aliança – destroçaram o Paraguai.
Passados quase 150 anos do fim do conflito, a Guerra do Paraguai ainda
desperta paixão e polêmica. A historiografia oficial de cada um dos países
envolvidos apresenta uma versão diferente, senão dos fatos, ao menos de seus
objetivos e suas motivações. A verdade é mais uma entre as centenas de milhares
de vítimas da guerra. Nos compêndios brasileiros, o conflito surge como fruto da
megalomania e do expansionismo de López. O papel supostamente heroico de
líderes militares (Caxias, Osório, Tamandaré, Barroso) e a descrição de batalhas
épicas (em geral acompanhada da reprodução dos belos quadros que D. Pedro II
encomendou a pintores como Pedro Américo, autor de A batalha do Avaí, e
Vítor Meireles, autor de Batalha naval do Riachuelo) muitas vezes substituem
análises mais profundas. Nos livros argentinos, são outros heróis e outras
batalhas – mas o tom celebratório é o mesmo. Para os paraguaios, tudo começou
por causa da truculência dos países vizinhos, poderosos e invejosos, que
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