Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
monumentalização do Brasil – de seu passado (relido pela ótica do romantismo);
de suas cores, de suas “coisas” – foi articulada por historiadores, pintores e
literatos. Esse “nacionalismo conservador exprimiu-se de modo orgânico nos
anos de apogeu do Império escravagista: está nas páginas eruditas da Revista do
Instituto Histórico e Geográfico; permeia a rica messe documental da História


geral do Brasil de Varnhagen e é o cimento mítico do romance indianista e
colonial de José de Alencar”, como bem diagnosticou o crítico Alfredo Bosi.
De fato, embora tenha sido fundado pelo regente Araújo Lima, o Instituto
Histórico e Geográfico contou com os auspícios do imperador – que presidiu
mais de quinhentas sessões. D. Pedro II também enviou bolsistas para o Exterior
– especialmente para copiar documentos na Torre do Tombo, em Lisboa. Dentre
eles, nenhum se destacou mais do que Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-
1878), autor da monumental História geral do Brasil (publicada em 1854).
Eivada de preconceitos e esgares, a obra de Varnhagen é, ainda assim e até hoje,
a mais completa crônica documental da colônia, e seu autor tido como o pai da
historiografia brasileira. Da obra de Varnhagen emerge a construção idealizada
de uma nova nacionalidade: o Brasil da civilização branca.
Uma outra face do processo de construção da “identidade” nacional se
encontra na fase áurea da literatura romântica indianista – de 1837 até fins de
1869. Nem tanto na obra apocalíptica e fulgurante de Gonçalves Dias, na qual o
destino atroz e a morte pavorosa de tribos e raças eventualmente beiram a
morbidez. Filho de português com cafuza, Dias (1823-1864) viu o pai abandonar
a mãe assim que encontrou uma “branca de sociedade” com quem casar.
Escrevendo na época em que a província do Maranhão ainda fervilhava na luta
contra lusos renitentes, Gonçalves Dias viu o massacre dos indígenas como
metáfora de uma sociedade ainda sufocada pelos tentáculos da Metrópole.
Foi com José de Alencar que o romance indianista se pôs plenamente a
serviço de uma visão mitificadora da “nova” sociedade brasileira. Seus dois
livros clássicos, O Guarani e Iracema – aliás, fundadores do romance nacional
–, apresentam os nativos como bons selvagens, belos, fortes, livres e plenamente
subservientes ao branco. Como em Gonçalves Dias, os índios morrem no fim –
mas, em Alencar, essa morte se realiza numa espécie de altar de sacrifícios e dela
emerge um novo Brasil. Em Alencar, não apenas os “autóctones”, mas a própria
natureza brasileira é posta a serviço do nobre conquistador branco. Ou melhor:
existe só para servi-lo. José de Alencar (1829-1877), deputado conservador,
fundou o nativismo servil e colonialista. Ao fazê-lo inventou um novo passado
para o Brasil. Passado a limpo.
OS INDIGENISTAS: o apocalíptico Gonçalves Dias (no alto) e José de Alencar, um best-seller (à
esquerda).


A
AS CORES E OS SONS DO MONARCA
Academia Imperial de Belas-Artes desempenhou o papel de “braço
pictórico” no projeto de “monumentalização” dos fatos históricos do Brasil
concebido pelo Instituto Histórico e Geográfico sob a batuta de D. Pedro II.
Criada pela Missão Francesa de 1816, a Academia se caracterizou, desde o
início, como o berço de um certo neoclassicismo temporão; o baluarte seguro e
feroz do academicismo, fechado às mudanças artísticas cujos ventos já varriam a
Europa.
D. Pedro II adorava pintura neoclássica. De 1850 a 1880, muitos dos
principais pintores brasileiros ganharam bolsas – em geral concedidas pelo
próprio monarca – para estudar em Paris ou na Itália. A condição, porém, parecia
ser a de manter-se hostil às novas diretrizes da arte, afastando-se do realismo de
Coubert, do romantismo de Delacroix e do paisagismo de Corot. O resultado é
que pintores como Pedro Américo e Vítor Meireles, especialistas em pinturas
históricas e sacras, produziram obras clássicas e laboriosas, mas de um gélido
alheamento, aprisionadas em disciplina e convencionalismo, empapadas num
romantismo repleto de idealizações europeizantes. Pedro Américo e Vítor
Meireles fizeram escola e definiram as novas feições visuais da nação.
Pedro Américo Figueiredo e Melo (1843-1905) foi descoberto, aos nove anos
de idade, pelo viajante francês Louis Brunet, no vilarejo de Areias, na Paraíba.
Acompanhou, como desenhista, a expedição daquele naturalista. Em 1859, já
estava em Paris (com bolsa concedida por D. Pedro II). Estudou filosofia e
literatura na Sorbonne, doutorou-se em física em Bruxelas. Mas sua fama se fez
foi em Florença, onde apresentou as telas A batalha do Avaí, em 1877, e O grito

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