Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
made man urbano do Brasil. Tentou introduzir a nação no mundo do
capitalismo moderno, promover a indústria pesada, estabelecer de vez o trabalho
assalariado, a economia de mercado e o liberalismo. Foi incompreendido,
perseguido, humilhado, ofendido – e faliu. Mauá fez quase tudo certo: apenas
esqueceu que vivia num país ruralista, escravocrata e latifundiário, cuja
economia era controlada pelo Estado. Ainda assim, a obra de Mauá foi grandiosa
e – apesar dos lucros trazidos aos borbotões pelo café – é quase que
exclusivamente graças a ela que se pode falar no boom econômico do Segundo
Reinado.
O orçamento das empresas de Mauá era maior que o próprio orçamento do
Império. Mauá criou a primeira multinacional brasileira; foi pioneiro na
globalização da economia; foi o primeiro (e até hoje um dos únicos) empresário
brasileiro respeitado e admirado no exterior. Virou verbete da Enciclopédia
Britânica e personagem citado por Júlio Verne (em A volta ao mundo em 80
dias). Tinha o apoio e o respeito do barão Rotschild e dos irmãos Barings – os
maiores banqueiros de seu tempo. Mas era desprezado (e, talvez, invejado) por
D. Pedro II – o monarca “iluminista”, que só admirava as letras quando não eram
promissórias e os números se fossem abstratos.
O EMPRESÁRIO DO IMPÉRIO
Órfão de pai aos cinco anos – João Evangelista foi assassinado –, Irineu Evangelista de Sousa, nascido em
Arroio Grande – RS, em dezembro de 1813, mudou-se para o Rio em 1823. Aos onze anos, era contínuo.
Aos quinze, o homem de confiança do patrão. Aos 23, sócio de um escocês excêntrico. Aos trinta, um dos
comerciantes mais ricos do Brasil. Era pouco: aos 32, Irineu decidiu virar industrial – o primeiro do
Brasil. A crise de 1875 e a má vontade do governo o levaram à falência, em 1878. Mas Mauá pagou tudo o


A
que devia. Ao morrer, em outubro de 1889, perdera seu império industrial. Mas não devia nada a ninguém.
O imperador e o barão jamais tiveram uma discussão pública, mas, embora
fossem vizinhos, sua incompatibilidade de gênios era notória. Mauá cometia o
supremo pecado de ser devotado ao lucro – e isso o arqueólogo diletante, o
aprendiz de linguística e filólogo, astrônomo amador, botânico de fim de semana
e antropólogo iniciante D. Pedro II não podia tolerar. O desprezo pelas ideias e
pelas propostas de Mauá – e o torpedeamento contínuo de seus projetos feito
pelos políticos fiéis ao imperador – se configura como um dos mais lamentáveis
episódios da história econômica do Brasil.
De acordo com seu melhor biógrafo, o pesquisador Jorge Caldeira, autor do
bestseller Mauá, empresário do Império, o barão controlava seu vasto império
industrial e econômico sozinho. Não procurava ajuda nem mesmo para manter a
ampla correspondência diária, embora – ou talvez por isso mesmo – soubesse
que “de seu punho podiam nascer leis no Uruguai, movimentos de tropas na
Argentina, um novo ministro no Brasil, uma grande tacada na Bolsa de
Londres”.
De sua escrivaninha, Mauá comandava um império “consultando apenas as
próprias ideias”. Não parecia razoável, mas era assim que ele achava que
funcionava. E por mais de vinte anos de fato funcionou.
O IMPÉRIO DAS LETRAS
explosão cultural do Segundo Reinado foi feita à imagem e semelhança de
seu mecenas. Tranquilizado pela bonança política resultante da
“conciliação” (como se chamou o esquema de alternância no poder firmado
entre liberais e conservadores) e entusiasmado com a pujança econômica trazida
pelo café, D. Pedro II decidiu investir em cultura. Por florescer à sombra do
imperador, porém, tal movimento cultural se engajou no projeto de
“redescoberta”
da
nação
idealizado
pelo
próprio
monarca.
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