Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Queremos D. Pedro II/Embora não tenha idade
A nação dispensa a lei/E viva a Maioridade
Muitas nações já dispensaram a lei. Poucas o fizeram tão alegre e
explicitamente.
O SEGUNDO IMPERADOR
o início de 1837, em conversa informal na Câmara, o deputado liberal José
de Alencar (pai do escritor) diria: “Julgo político irmos arranhando nos
ânimos dos povos o amor a esse sujeitinho, porque só a essa âncora poderemos
nos agarrar.” O “sujeitinho” era Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo
Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Miguel Gabriel Rafael Gonzaga,
filho de D. Pedro I e D. Leopoldina, nascido em 2 de dezembro de 1825 e sobre
o qual seria, de fato, jogado o peso duma nação.
De “constituição débil e temperamento nervoso”, D. Pedro II perderia a mãe
dez dias depois de completar um ano. O pai partiu quando ele tinha cinco anos –
e, apesar da correspondência assídua, jamais voltou a vê-lo. Teve uma infância
marcada pela solidão e pela austeridade – que viriam a se tornar características
marcantes de sua personalidade ao longo de 66 anos de vida. Afastado dos
turbilhões da Regência, D. Pedro II foi logo mergulhando nos estudos.
“Queriam-no sábio e inofensivo”, escreveu o biógrafo Pedro Calmon, “com a
timidez dos ‘príncipes filósofos’ e a ilustração virtuosa do frade, mais inclinado à
contemplação e à humildade”.
Seu tutor foi José Bonifácio (derrubado em 1833), e seu principal professor o
pintor Félix Émile Taunay. Cada passo da vida do imperador era controlado: do
momento de acordar à hora de se recolher, Pedro II obedecia sempre à mesma
rotina. “A juventude fugira dele a galope”, diria o historiador Gilberto Freyre:


imperador aos cinco anos, chefe da nação aos 14, ele faria “a triste figura de um
menino amadurecido antes do tempo (que) aos vinte e tantos era já um velho
com barbas e aspectos de um avô”. O “sujeitinho” velho antes da hora
governaria a nação por 50 anos.
Um dos primeiros atos de D. Pedro II como imperador foi decretar anistia aos
envolvidos nas revoltas internas da Regência. Essa seria uma das marcas de seu
meio século de governo: perdão aos rebeldes vencidos. Por isso, apelidaram-no
“o Magnânimo”. Uma de suas ações seguintes foi a dissolução da Câmara e a
derrubada do “gabinete maiorista” que lhe dera o poder – ato que acabou
promovendo nova ascensão dos conservadores. E essa viria a ser outra
característica do governo daquele que certos historiadores chamam de “o maior
dos brasileiros”: o permanente rodízio no poder entre liberais e conservadores
(foram 36 gabinetes em 50 anos de governo – um a cada ano e três meses, em
média).
A prática se tornaria ainda mais regular a partir de 1847, quando D. Pedro II
recriou o cargo de presidente do Conselho de Ministros (que havia sido extinto
pelo Ato Adicional de 1834) – instalando no país uma espécie de
parlamentarismo. D. Pedro II parece ter percebido a verdade contida na frase do
senador Holanda Cavalcanti: “Nada se assemelha mais a um saquarema do que
um luzia no poder.”
“Luzias” eram os liberais, e “saquaremas”, os conservadores: embora em tese
fossem adversários irreconciliáveis, no fundo eram farinha do mesmo saco. Em
1850, o barão de Cotegipe, conservador, lamentaria que “nossos negócios
(políticos) infelizmente andam em contínua ação e reação”. Mas, em 1853, o
marquês do Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão, líder dos conservadores,
formou o chamado Ministério da Conciliação, enfim unificando as duas forças
políticas do país. Começaria então um período de paz interna e prosperidade
econômica e cultural – época que o historiador Capistrano de Abreu denominou
de “o apogeu do fulgor imperial”. Os lucros trazidos pela lavoura do café
transformaram rapidamente o Brasil. Tudo mudou, menos o essencial: o país
continuou sendo uma sociedade agrária e escravocrata.
O REINADO DO CAFÉ


A
inda hoje há quem lamente o fato de o inglês Henry Wickman ter surrupiado da
Amazônia as sementes de seringueira que vingaram na Malásia e
encerraram melancolicamente o ciclo da borracha no Brasil. No entanto,
não foi muito diferente a maneira como o café – uma riqueza vegetal de
potencial ainda mais espetacular – chegou ao país. Em 1727, o oficial português
Francisco de Mello Palheta retornou da Guiana Francesa trazendo as primeiras
mudas da rubiácea que mudaria a história do Brasil – econômica, política, social
e ecologicamente. Palheta não roubara as mudas: ganhou-as de presente de
madame d’Orvilliers, mulher do governador de Caiena. Como a saída de mudas
ou sementes de café estava proibida, há estudiosos que consideram “lícito pensar
que o aventureiro português recebeu não só frutos, mas favores mais doces de
madame”.
De qualquer modo, não seria a partir do Pará – onde germinaram sem
dificuldade – que as plantas se espalhariam pelo resto do Brasil. Em 1781, o
funcionário João Alberto de Castello Branco foi transferido de Belém para o Rio
e trouxe sementes consigo. A planta – que fora introduzida na América pelo
francês Gabriel de Clieu, em fins do século XV, na ilha de Martinica, no Caribe
– chegava então ao lugar a partir do qual teria sua notável expansão.
O mundo descobriu as delícias do café na primeira metade do século XIX. Só
então o Brasil perceberia o quão doce lhe poderia ser o amargo grão. O centro de
irradiação da cultura cafeeira foi a Baixada Fluminense, de onde a lavoura subiu
a serra, atingindo as matas do rio Paraíba do Sul. Depois da libertação das treze
colônias norte-americanas, em 1776, os EUA – sequiosos por café e dispostos a
se afastar dos mercados dominados pela Inglaterra – passaram a importar o café
brasileiro. As florestas foram implacavelmente derrubadas, quase um milhão de
escravos foram trazidos da África e do Nordeste, os grandes capitais
(imobilizados desde a proibição do tráfico de escravos em 1850) encontraram
nova ocupação, e novas cidades, novas fortunas e novos latifúndios surgiram
quase que da noite para o dia.
Diferentemente do açúcar, o café não requeria vultosos investimentos, como
a montagem do engenho. Não eram necessários mais do que os tanques para a
lavagem do grão após a colheita e um terreiro onde espalhar e secar o café, ao
passo que as máquinas de decorticação e triagem eram simples, baratas e de
fabricação local.


I
Entre 1821 e 1830, o café respondia por apenas 18% do total das exportações
brasileiras. De 1831 a 1870, passou a ser responsável por 50%. A partir de 1871,
o Brasil começou a colher cerca de cinco milhões de sacas por ano – a metade da
produção mundial. O café gerou uma nova classe social – e, a seguir, política.
Fez o país criar ferrovias e aparelhar os portos do Rio e de Santos. Mais tarde,
incentivaria a vinda de trabalhadores assalariados – e derrubaria o Império que
ajudara a tornar fulgurante.
VISCONDE DE MAUÁ: VIDA E OBRA
rineu Evangelista de Souza, barão e visconde de Mauá, foi o primeiro self-

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