Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
A odisseia dos navegadores portugueses pelos mares da Terra encontrou seu Homero na figura de um
marujo caolho e temperamental de nome Luís Vaz de Camões – o maior poeta da língua portuguesa de
todos os tempos. Em 1569, depois de viajar pela Índia e pela China, Camões chegou a Lisboa trazendo
a versão original de Os Lusíadas, o grande poema épico que concedeu aos descobrimentos
portugueses a imortalidade só referendada pelas obras-primas.
A VIAGEM DE CABRAL
ra domingo, e Lisboa, capital ultramarina da Europa, estava em festa. Os
treze navios da frota mais poderosa já armada por Portugal balouçavam nas
águas reluzentes do Tejo. “E muitos batéis rodeavam as naus e ferviam todos
com suas librés de cores diversas, que não parecia mar, mas um campo de flores,
e o que mais elevava o espírito eram as trombetas, atabaques, tambores e gaitas”,
registrou o cronista João de Barros, testemunha ocular do dia memorável. Oito
meses antes, chegara àquele mesmo porto a diminuta frota de Vasco da Gama.
Trazia a notícia que durante quase um século fora a obsessão portuguesa:
desvendara-se, enfim, a rota marítima que conduzia à Índia. Agora, o rei D.
Manuel queria que todos, especialmente os espiões espanhóis, italianos e
franceses, vislumbrassem a gloriosa partida de sua nova missão (comercial e
guerreira) ao reino das especiarias.
Celebrava-se a missa. No altar estava D. Diogo Ortiz, um dos três homens
que, uma década antes, vetara financiamento português ao projeto de Colombo


A
de chegar à Índia pelo rumo do oeste. Junto a ele, Pedro Álvares Cabral, filho,
neto e bisneto de conquistadores, mais um militar do que propriamente um
navegador, rezava, silente. Aos 32 anos, estava pronto para sua primeira missão
além-mar.
Os navios partiram na segunda-feira, 9 de março de 1500. Cabral e Gama
haviam conversado longamente. Dois anos antes, ao fazer um grande arco no
rumo do oeste, para aproveitar melhor as correntes do Atlântico, Gama passara
tão perto do Brasil que talvez tenha mesmo pressentido a presença de terra.
Cabral se aventurou ainda mais em direção ao poente (tanto que, segundo seus
cálculos, julgava estar no local onde hoje é Brasília). Chegou à Terra dos
Papagaios – uma escala ideal para as Índias.
Dez dias depois, ao zarpar de Porto Seguro, Cabral parece ter deixado ali,
além de dois degredados e cinco grumetes desertores, a porção que lhe restava
de sorte. Na terceira semana de maio, nas proximidades do cabo das Tormentas,
depois de um cometa ter luzido no céu por dez noites, tenebrosa tempestade se
abateu sobre a frota. Quatro naus, entre as quais a de Bartolomeu Dias, foram
tragadas pelo mar. Não houve sobreviventes. Reduzida a sete embarcações (uma
havia naufragado logo após a partida e o navio de mantimentos seguira de volta
a Portugal com a notícia da descoberta), a armada chegou à Índia em fins de
agosto. Cabral obteve permissão para fundar uma feitoria, mas, em 16 de
dezembro, o estabelecimento foi atacado por mercadores árabes. O comandante
reagiu e bombardeou Calicute por dois dias, provocando grandes estragos e
mortes. Com seis navios repletos de especiarias, iniciou a viagem de volta. Foi
bem recebido pelo rei. A seguir, porém, após desentendimentos com o monarca,
caiu em desgraça na corte e nunca mais voltou a navegar. Retirou-se para
Santarém. Lá morreu em 1520, quase na obscuridade – virtualmente sem saber
que revelara à Europa um território de dimensões continentais.
A SEMANA DE VERA CRUZ
s ordens eram claras: a portentosa esquadra de Pedro Álvares Cabral estava
em missão rumo à Índia. Deveria seguir pela rota descoberta por Vasco da
Gama, estabelecer relações comerciais e diplomáticas com o samorin de Calicute
e, de imediato, fundar uma feitoria em pleno coração do reino das especiarias.


Por isso, apesar da exuberância da paisagem, da complacência dos nativos e das
benesses do clima, os portugueses permaneceram apenas dez dias nas paragens
paradisíacas da Ilha de Vera Cruz.
No dia 2 de maio de 1500, onze navios partiram rumo à pimenta, à canela e
ao gengibre. O décimo segundo, sob comando de Gaspar de Lemos, zarpou na
direção oposta, levando ao reino as cartas que anunciavam o achamento da nova
terra. Quantas foram as missivas que a nau dos mantimentos conduziu em seu
bojo é questão que jamais se elucidará. O certo é que tanto Cabral como os
demais capitães enviaram relatos ao rei. Ainda assim, apenas três cartas
sobreviveram. De longe, a melhor e mais detalhista é a redigida pelo escrivão
Pero Vaz de Caminha. Graças a ela, ainda é possível reconstituir, passados cinco
séculos, o período que alguns historiadores chamam de “Semana de Vera Cruz”.

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