Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Jamais se saberá com certeza, mas quando os portugueses chegaram à Bahia, os índios brasileiros
somavam mais de dois milhões – quase três, segundo alguns autores. Mas, no alvorecer do Terceiro Milênio
da Era Cristã, não passam de 325.652 – menos do que dois estádios do Maracanã lotados. Foram
dizimados por gripes, sarampo e varíola; escravizados aos milhares e exterminados pelo avanço da
civilização e pelas guerras intertribais, em geral estimuladas pelos colonizadores europeus. Ainda assim,
os povos remanescentes constituem 215 nações e falam 170 línguas diferentes.
De acordo com dados do ano 2000, obtidos junto à Fundação Nacional do Índio (Funai), as tribos mais
ameaçadas de extinção são os Xetá, do Paraná (restam apenas sete indivíduos), os Juma, do Amazonas
(cinco) e os Avá-Canoeiro (dez, dos quais só seis contatados). As tribos mais numerosas são os Ticuna (23
mil índios), os Xavante e os Kayapó. A idade média dos índios brasileiros é 17,5 anos, porque mais da
metade da população tem menos de 15 anos. A expectativa de vida é de 45,6 anos, e a mortalidade infantil
é de 150 para cada mil nascidos. Existem pelo menos 30 grupos que jamais mantiveram contato com o
homem branco, 41 dos quais sequer se sabe onde vivem – embora seu destino já pareça traçado: a extinção
os persegue e ameaça.


N
Capítulo
3
O BRASIL DOS PORTUGUESES
a terça-feira à tarde, foram os grandes emaranhados de “ervas compridas
a que os mareantes dão o nome de rabo-de-asno”. Surgiram flutuando
sobre as águas, ao lado das naus, e sumiram no horizonte. Na quarta-
feira pela manhã, o voo dos fura-buchos, uma espécie de gaivota, rompeu o
silêncio dos mares e dos céus, reafirmando a certeza de que a terra se encontrava
próxima. Ao entardecer, silhuetados contra o fulgor do crepúsculo, delinearam-
se os contornos arredondados de “um grande monte”, cercado por terras planas,
vestidas de um arvoredo denso e majestoso.
Era 22 de abril de 1500. Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro
Álvares Cabral vislumbrava terra – mais com alívio e prazer do que com
surpresa ou espanto. Nos nove dias seguintes, nas enseadas generosas do sul da
Bahia, os treze navios da maior armada já enviada à Índia pela rota descoberta
dois anos antes por Vasco da Gama permaneceriam reconhecendo a nova terra e
seus habitantes. O primeiro contato, amistoso como os demais, deu-se já no dia
seguinte, quinta-feira, 23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano da Índia e
companheiro de Gama, foi a terra, em um batel, e deparou-se com dezoito
homens “pardos, nus, com arcos e setas nas mãos”. Coelho deu-lhes um gorro
vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto. Em troca, recebeu um
cocar de plumas e um colar de contas brancas. O Brasil, então batizado Ilha de
Vera Cruz, misturava, naquele instante, sua história ao curso da história da
expansão europeia.
A chegada dos portugueses está registrada com requinte e minúcia. Poucas
são as nações que possuem uma “certidão de nascimento” tão precisa e fluente
quanto a carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, Dom
Manuel, relatando o “achamento” da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira
sobre o amplo desvio de rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para
oeste do que o necessário para chegar à Índia. Terá sido a chegada ao Brasil um


O
mero acaso?
É provável que a questão jamais venha a ser plenamente esclarecida. No
entanto, a assinatura do Tratado de Tordesilhas que, seis anos antes, dera a
Portugal a posse das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de dois mil
quilômetros) a oeste de Cabo Verde, a naturalidade com que a nova terra foi
avistada, o conhecimento preciso das correntes e das rotas, as boas condições
climáticas durante a viagem e a probabilidade de que aquele território já tivesse
sido avistado anteriormente parecem ser a garantia de que o desembarque,
naquela manhã de abril de 1500, foi mera formalidade: Cabral poderia estar
apenas tomando posse de uma terra que os portugueses já conheciam, embora
superficialmente. Uma terra pela qual, de qualquer forma, ainda demorariam
cerca de meio século para se interessar de fato.
UM IMPÉRIO ULTRAMARINO
grande impulso que conduziu a frota de Pedro Álvares Cabral de Lisboa a
Calicute, na Índia – e o levou a topar com o Brasil no meio do caminho –,
foi apenas um pequeno, ainda que reluzente, movimento na grande sinfonia que
configura o processo de expansão ultramarina dos portugueses ao redor do
planeta. Para muitos historiadores, é justamente a “abertura” do mundo
desencadeada pelos navegadores de Portugal que estabelece, mais que o advento
da imprensa ou a queda de Constantinopla, o legítimo início da Era Moderna. Ao
se aventurarem “por mares nunca dantes navegados”, os portugueses derrubaram
os mitos da geografia arcaica e provaram, com adorável arrogância, que o ciclo
do saber não estava fechado a sete selos. Sua aventura marítima foi o primeiro
processo humano de dimensões planetárias.
Simples pescadores até o crepúsculo do século XIII, os portugueses
começaram a constituir sua marinha no alvorecer do século XIV, tendo por
mestres os genoveses. Em 1415, sob o comando de D. João I, uma frota
portuguesa alçou-se em sua primeira investida militarista e conquistou Ceuta, no
Marrocos. Seria o marco inicial de uma aventura expansionista que, pelos dois
séculos seguintes, estendeu o domínio português pelos sete mares e por cinco
continentes. A obra de D. João I teve continuidade com seu filho, o infante D.
Henrique, que vislumbrou nos oceanos o futuro de Portugal.


E
Em 1420, navegadores formados na escola de D. Henrique (re)descobriram a
ilha da Madeira. Em 1434, Gil Eanes venceu o cabo Bojador, no Saara espanhol.
Em 1455, chegou-se ao Cabo Verde e, em 1487, Bartolomeu Dias atingiu o
limite da África, dobrando o cabo das Tormentas, rebatizado de cabo da Boa
Esperança. Em 1498, Vasco da Gama, enfim, desvendou a rota marítima para a
Índia. Mais tarde os portugueses chegariam à China e ao Japão. Lisboa se
tornou, então, uma cidade cosmopolita, cujos estaleiros viviam em febril
atividade, e as ruas eram percorridas por astrônomos judeus, banqueiros
genoveses, cartógrafos catalães, marinheiros italianos e mercadores holandeses.
A capital de Portugal se tornava também uma das capitais do mundo.
POETA A DESCOBERTO

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