Brasil, uma história


partiu para Mato Grosso – uma viagem tremendamente acidentada que lhe



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

partiu para Mato Grosso – uma viagem tremendamente acidentada que lhe
tomou treze meses e dezoito dias.
Instalando-se em Cuiabá, o grande cientista explorou o Pantanal, suas
chapadas e toda a bacia do rio Paraguai. Tendo percorrido 39.372 quilômetros,
ele então retornou a Belém, em janeiro de 1792. Ao longo de dez anos,
Alexandre Rodrigues Ferreira tinha produzido relatórios sobre a situação urbana,
demográfica, administrativa e econômica de todas as povoações que percorrera;
havia redigido memórias sobre a fauna, a flora e os minerais dessas regiões; ao
mesmo tempo que coletava e armazenava milhares de espécies animais, vegetais
e minerais, descrevia as etnias indígenas e recolhia os objetos de maior interesse
etnográfico.
Ao retornar a Lisboa, Ferreira tornou-se membro da prestigiosa Ordem de
Cristo. Mas, a partir de então, nada mais deu certo: bom no trabalho de campo,
ele era fraco no gabinete. E, como se não bastasse o fato de tê-lo catalogado de
forma confusa e dispersa, Alexandre Rodrigues ainda veria seu material ser
saqueado por Geoffroy de Saint-Hilaire, cientista francês que, por ordem do
general invasor Andoche Junot, levou-o para Paris em 1808. Parte do espólio
retornaria a Lisboa em 1814, após o fim da ocupação francesa, mas até hoje o
acervo recolhido por Alexandre Rodrigues Ferreira – o Humboldt brasileiro –
ainda não foi devidamente estudado.
AS AVENTURAS DE HENRY BATES
or volta de 1845, os naturalistas ingleses Henry Walter Bates e Alfred Russel
Wallace podiam ser vistos caçando borboletas nos arredores da cidade de
Leicester e trocando cartas sobre o assunto de interesse comum. Três anos mais
tarde, no dia 18 de maio de 1848, os dois jovens cientistas já estavam
desembarcando em Belém para iniciar uma longa permanência na Amazônia,
durante a qual não apenas capturaram dezenas de milhares de borboletas, como
ajudaram a mudar os rumos da ciência. Wallace queria que Bates o ajudasse a
encontrar uma família de borboletas com o maior número possível de espécies,
de modo que eles pudessem estudar de que forma elas se modificavam. Esses
estudos seriam a base da teoria da origem das espécies, mais tarde consagrada
por Darwin. Filho de um operário têxtil, Bates não dispunha de capital para


N
financiar suas explorações e se sustentava com a venda de espécimes,
principalmente insetos, para museus ingleses. Deste modo, permaneceu onze
anos na Amazônia, de 1848 a 1859, recolhendo 14.712 espécies de mamíferos,
aves, répteis e insetos, sendo oito mil delas novas para a ciência. De início, Bates
e Wallace permaneceram juntos em Belém e arredores e percorrendo o
Tocantins. Depois, Bates seguiu sozinho pelo Solimões até a fronteira com o
Peru, retornando mais tarde para Manaus e daí para Londres. Em 1863, ganhou
fama com a publicação de O naturalista no rio Amazonas. Ilustrado com
desenhos minuciosos feitos por ele próprio e escrito num estilo primorosamente
vívido, o livro cativou a imaginação vitoriana, tornando-se, mais tarde, um
favorito também de George Orwell e de D. H. Lawrence. Bates se tornou o
maior especialista em mimetismo e um dos grandes responsáveis pelo
surgimento da teoria que fez a fama de Darwin.
A FEBRE DE ALFRED RUSSEL WALLACE
o dia lº de julho de 1858, o naturalista Alfred Russel Wallace apresentou
para a Linnean Society, em Londres, um texto chamado Sobre a tendência
das espécies de se afastarem indefinidamente do tipo original. Foi um momento
histórico, pois, naquela mesma tarde, outro cientista, de nome Charles Darwin,
leu o manuscrito do que viria a ser A origem das espécies pela seleção natural
um texto em tudo similar ao de Wallace. Nenhum dos dois foi acusado de plágio,
pois a academia sabia que ambos estavam desenvolvendo a mesma teoria,
paralela e simultaneamente – sem contato prévio. Wallace chegara às suas
conclusões durante um forte ataque de malária, nas ilhas Molucas, em 1857,
enquanto meditava sobre a tese de Malthus a respeito do crescimento das
populações. Mas não há dúvida de que ele jamais teria a inspiração para
desenvolver sua tese se não tivesse permanecido por quatro anos na Amazônia.
Nascido em janeiro de 1823, Wallace chegou a Belém aos 25 anos, em
companhia de Bates. No dia 26 de março de 1850, os dois se separaram em
Manaus. Wallace prosseguiu então pelas desconhecidas regiões do Alto Rio
Negro e pelo Uaupês, coletando borboletas e estudando também a espantosa
biodiversidade dos peixes amazônicos, até chegar a território venezuelano. No


“A
dia 6 de agosto de 1852, depois de retornar a Belém, Wallace partiu para a
Inglaterra. Mas o Helen, navio no qual viajava, incendiou em alto-mar,
queimando todas as coleções e diários que ele coletara. Depois de dez dias à
deriva nos escaleres, sedentos e famintos, Wallace e os demais sobreviventes do
naufrágio foram resgatados a cerca de duzentas milhas da costa das Bermudas.
Com ajuda da memória prodigiosa e das coleções de plantas e animais que
enviara antes para a Inglaterra, Wallace começou a redigir seu primeiro livro.
O CICLO DA BORRACHA
resina chamada cautchu nas terras da província de Quito, vizinhas ao mar,
é também muito comum nas margens do Marañón e se presta para os
mesmos usos. Quando fresca, pode ser moldada na forma desejada. É
impermeável à chuva, mas o que a torna mais notável é sua grande elasticidade.
Fazem-se garrafas que não são frágeis, botas, bolas ocas, que se achatam quando
apertadas, mas retornam à forma original quando cessa a pressão.”
No dia 28 de julho de 1743, a seiva da seringueira – em breve batizada de
látex – estava fazendo sua entrada oficial no mundo da ciência, pela pena
meticulosa do francês Charles Marie de la Condamine. Em poucos anos se
tornaria o produto vegetal mais importante e mais cobiçado do planeta –
provocando o boom econômico que faria Manaus se transformar, quase que da
noite para o dia, de aldeia indígena em capital industrial e recolocando (depois
do açúcar e antes do café) o Brasil no mapa econômico mundial. O sonho,
porém, não iria durar muito tempo.
Os portugueses conheciam a borracha há dois séculos e a utilizavam, como
disse o próprio La Condamine, para fazer “seringas”, “com a forma de uma pera
oca, com um canudo na ponta, que eles enchem d’água e apertam quando estão
cheias”. Por isso, batizaram a árvore de seringueira, embora jamais tenham
pensado em utilizá-la de outra maneira. La Condamine levou amostras da cao
o’chu (ou “árvore que chora” – de acordo com o seu simbólico e poético nome
indígena) para a Europa, e lá, após uma série de experiências científicas, a
borracha provaria ser, senão a maior, pelo menos a primeira das maravilhas
vegetais da era industrial. Mais tarde, iria estabelecer forte vínculo com a era do
petróleo e dos motores de combustão, ajudando a transformar por completo os


usos e costumes da humanidade.
Tudo começou em 1770, quando Joseph Priestley descobriu que ela apagava
os riscos deixados pelo grafite no papel. Em 1823, um escocês chamado Charles
Mackintosh infiltrou a borracha em tecidos, lã e couro, criando os primeiros
“impermeáveis” (que ficavam duros no inverno e derretiam no verão). Em 1839,
Charles Goodyear inventou a vulcanização, adicionando enxofre à borracha
quente.
Em 1888, John Dunlop ajudou seu filho a ganhar uma corrida de bicicletas
amarrando uma tira de borracha em cada roda e inflando-as. Três anos antes,
Karl Benz criara o primeiro automóvel movido a gasolina – que logo teria pneus
de borracha vulcanizada. Foi o começo do boom.
Em 1830, Manaus se chamava Barra e era uma vila de três mil habitantes. Em
1880, a cidade tinha 50 mil habitantes e exportava 12 mil toneladas de borracha
para a Europa. A terrível seca de 1877-79, no Ceará, provocara um fluxo
migratório para o Amazonas, e os retirantes viraram seringueiros, esvaindo a
seiva de oito milhões de árvores espalhadas por três milhões de quilômetros
quadrados.
As ruas, hotéis e cafés de Manaus fervilhavam, repletas de banqueiros
ingleses, investidores norte-americanos e prostitutas francesas. A cidade tinha
trezentos telefones, dezesseis quilômetros de linhas de bondes elétricos e três
linhas de navegação que a ligavam à Europa e aos EUA. Em 1896, foi
inaugurado o primeiro teatro do Brasil, o fabuloso Amazonas, decorado com
opulência.
Mas em 1904, quando Manaus estava no zênite, exportando 80 mil toneladas
de borracha por ano, as sete mil sementes de seringueira que o inglês Henry
Wickham contrabandeara trinta anos antes enfim brotavam na Malásia. Em
breve, fariam a produção brasileira ruir como um castelo de cartas. Em 1906,
Manaus havia virado quase uma cidade fantasma. Seu teatro fechou – e com ele
acabou-se a farsa do lucro fácil.
Embora a produção de borracha brasileira viesse a ganhar sobrevida com a
eclosão da II Guerra Mundial, a exploração incompetente, cruel e irracional
deste extraordinário recurso vegetal acabaria transformando aquele ciclo
econômico numa espécie de ópera-bufa.


O
Capítulo
16
O BRASIL INDEPENDENTE
príncipe não estava bem. Teria sido a água salobra de Santos ou algum
prato condimentado do jantar da noite anterior? Não se sabe – nem ele o
sabia. O fato é que uma diarreia o atacara, e a cavalgada pela tortuosa
estrada que o conduzia da baixada santista ao platô de São Paulo não tinha
ajudado em nada na recuperação do combalido ventre principesco. No instante
em que o major Antônio Ramos Cordeiro e o correio real Paulo Bregaro, que
tinham partido do Rio de Janeiro em direção a Santos com um maço de cartas
urgentes para D. Pedro, chegaram às margens do riacho Ipiranga, divisaram
alguns membros da guarda de honra parados numa colina. D. Pedro estava à
beira do córrego, “quebrando o corpo” – agachado para “responder a mais um
chamado da natureza”. A correspondência lhe foi entregue enquanto ele ainda
abotoava a braguilha do uniforme. As circunstâncias não eram as mais indicadas
para a “perpetração da façanha memorável”. Mas as notícias eram de tal forma
definitivas e perturbadoras que, depois de ler, amassar e pisotear as cartas, D.
Pedro montou “sua bela besta baia”, cavalgou até o topo da colina e gritou à
guarda de honra: “Amigos, as Cortes de Lisboa nos oprimem e querem nos
escravizar… Deste dia em diante, nossas relações estão rompidas”.
Após arrancar a insígnia portuguesa de seu uniforme, o príncipe sacou a
espada e, às margens plácidas do Ipiranga, bradou, heroico e retumbante: “Por
meu sangue, por minha honra e por Deus: farei do Brasil um país livre”. Em
seguida, erguendo-se dos estribos e alçando a espada, afirmou: “Brasileiros, de
hoje em diante nosso lema será: Independência ou morte”. Eram quatro horas da
tarde do dia 7 de setembro de 1822, e o sol, em raios fúlgidos, brilhou no céu da
pátria naquele instante.
As cartas que D. Pedro rasgara tinham sido enviadas pelas Cortes de Lisboa
(onde, com deboche, o chamavam de “rapazinho” ou de “brasileiro”). Elas
acintosamente informavam que, em vez de regente do Brasil, o príncipe passaria


A
a ser mero delegado das Cortes; que seus ministros seriam nomeados em Lisboa
e que aqueles que o tinham apoiado no episódio do “Fico” eram traidores da
pátria. Mas, junto às missivas, vinha também uma carta de seu conselheiro, José
Bonifácio de Andrada e Silva. “A sorte está lançada”, dizia Bonifácio, “nada
temos a esperar de Portugal, a não ser escravidão e horrores.”
A diarreia estragara o dia de D. Pedro, mas, apesar da crise das Cortes e das
dores de barriga, o príncipe vivia um período luminoso. Dois dias antes, “numa
viela pouco frequentada de Santos”, ele tinha visto uma “mulata de grande
beleza” e, “com o gesto rápido de quem não quer perder a caça, embargou-lhe o
passo” e a beijou. A moça, que evidentemente não reconheceu o príncipe
regente, o esbofeteou e fugiu. Embora, ao descobrir que era escrava, tenha
tentado comprá-la, D. Pedro ignorou a rejeição: fazia uma semana, estava
apaixonado. No dia 29 de agosto, em São Paulo, o jovem príncipe conhecera
aquela que, entre incontáveis candidatas, seria a mulher de sua vida: Domitila de
Castro Canto e Melo, futura marquesa de Santos. No dia 5 de setembro, quando
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