Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Favorito da Rainha Elizabeth I, com quem teve um caso, Walter Raleigh foi uma das dinâmicas e
controversas figuras da colonização inglesa. Descobridor das Guianas e primeiro colonizador dos
EUA (fundou a Virgínia e a Carolina do Norte), sir Walter Raleigh, tido como o introdutor do tabaco
na Inglaterra, ficou conhecido como o “homem que pesou a fumaça”. Para ganhar uma aposta,
colocou um charuto numa balança, fumou-o e pesou as cinzas. A diferença entre uma medida e outra
era “o peso da fumaça”. O mais romanesco dos ingleses se tornou um herói popular.
Aquele era um mito antigo, de origem grega, como a própria palavra


(amazos, ou “sem seios”). Embora Carvajal jamais tenha afirmado que as
guerreiras que seu grupo enfrentou retiravam o seio para melhor manejar o arco,
resolveu chamá-las pelo mesmo nome que Homero utilizara, no século VIII a.C.,
para balizar as mulheres guerreiras da antiga Cítia.
Carvajal seria criticado ainda em vida pelo cronista López de Gomara:
“Dentre os disparates que disse, o maior foi afirmar que havia amazonas, (
que) nunca tal se viu nem tampouco se verá neste rio.” Para o próprio Gomara,
porém, “que mulheres andem com armas e pelejem, ali não é muito, pois esse é
seu costume nas Índias”. Duzentos anos depois, Humboldt e La Condamine
ofereceriam a mesma explicação para a cena descrita por Carvajal: na América,
era fato corriqueiro as mulheres irem à luta ao lado dos maridos. Ainda assim, na
terceira vez que o Amazonas foi navegado da nascente à foz, em 1639, nem o
português Pedro Teixeira, nem seu cronista, Cristóbal de Acuña, viram sinal das
tais amazonas.
LOPE DE AGUIRRE
Comparadas à delirante jornada de Lope de Aguirre pela Amazônia, as viagens de Francisco de
Orellana e Pedro Teixeira pelo maior rio do mundo foram piqueniques de escoteiro. Um dos caudilhos
mais ensandecidos da história, Aguirre era tenente na expedição liderada pelo governador Pedro de
Ursua, que partira de Lima em 1559 em busca do Eldorado. Após um ano de tormento e volteios pela
selva, Aguirre amotinou-se, matou Ursua e assumiu o comando da expedição, em 1º de janeiro de
1561. Pretendia fundar um reino na atual Venezuela, do qual seria o monarca. Antes de ser preso e
decapitado, Aguirre descobriu a ligação entre o Amazonas e o Orinoco – perdida por duzentos anos
depois dele. Sua alucinada viagem virou filme de Werner Herzog (ao lado, Klaus Kinski no papel do
tirano).
Pouco antes de Pedro Teixeira se tornar o chefe da primeira expedição a subir
o Amazonas e de Cristóbal de Acuña vir a ser o segundo cronista do rio,
narrando a viagem de volta, de Quito a Belém, o Amazonas se tornaria berço de
outro mito – quase tão longevo quanto o das amazonas. El Dorado era o nome do
rei do país dos Omáguas e senhor de sua reluzente capital, Manoa, cidade dos
telhados de ouro. Todas as manhãs, o Homem Dourado tinha seu corpo
polvilhado de ouro, antes de mergulhar num lago sagrado no qual seus súditos
jogavam joias e adornos. Depois que um certo Juan Martínez chegou à ilha de


E
Trinidad afirmando que vivera sete meses como prisioneiro em Manoa do
Eldorado, uma nova febre do ouro tomou conta dos conquistadores espanhóis na
América – e logo afetaria ingleses, alemães e holandeses.
Mesclando elementos de A utopia, de Thomas Morus, da Nova Atlântida, de
Francis Bacon, e de romances de cavalaria, como Amadis de Gaula, a lenda do
Eldorado se espalhou como fogo na palha. A primeira expedição a meter-se na
selva em busca do reino de ouro foi a de Pedro de Ursua e Lope de Aguirre (leia
box na página ao lado). As mais alucinadas aventuras em busca do Eldorado,
porém, foram patrocinadas por sir Walter Raleigh: primeiro em 1595 e depois
em 1617 (após permanecer treze anos encarcerado na Torre de Londres). Raleigh
navegou pelo Orinoco e percorreu o planalto das Guianas em busca de uma
cidade que não estava lá. Na volta para Londres, acabou decapitado por ordem
do rei James.
A ÉPICA VIAGEM DE PEDRO TEIXEIRA
m 5 de fevereiro de 1637, ao desembarcar em Belém, os frades espanhóis
Andrés de Toledo e Domingo de Brieva, acompanhados por seis soldados
castelhanos, tornaram-se, quase exatamente um século depois da extraordinária
aventura de Orellana e Carvajal, os primeiros homens a navegar o imenso rio
Amazonas da nascente até a foz. Tão logo foi informado da impressionante
façanha daqueles oito homens – e apoiando-se no fato de Portugal e Espanha
estarem então unidos sob a mesma coroa –, o governador do Pará, Jacomé
Noronha, decidiu de imediato enviar uma expedição pelo mesmo caminho que
trouxera os espanhóis, só que na direção inversa.
Para comandar tal missão, Noronha escolheu o capitão-mor Pedro Teixeira.
Em 28 de outubro de 1637, Teixeira, acompanhado por setenta soldados e 1.200
indígenas, partiu de Belém rio acima, com 47 canoas “de bom porte”. Oito
meses depois, em 24 de junho de 1638 – com menos da metade da tripulação (a
maior parte dos nativos desertou ou morreu) –, a expedição chegava a Quito,
tendo realizado a prodigiosa tarefa de vencer, em barcos movidos a remo, a forte
correnteza do Amazonas (cuja velocidade é de seis nós). Mais do que surpreso, o
governador de Quito ficou alarmado com o feito: ele temia que, a partir de então,
o rio começasse a ser utilizado como via de acesso para a conquista do Peru


pelos portugueses. O governador tratou Teixeira com a devida cortesia, mas
mandou-o em seguida de volta a Belém.
LA CONDAMINE
Enviada para Quito para medir o raio equatorial da Terra – que, segundo a polêmica teoria de
Newton, deveria ser menor do que o raio polar (o que tornaria o planeta um “elipsoide achatado”) –,
a missão que o cosmógrafo francês Charles Marie de la Condamine fez à Amazônia, entre 1735 e
1746, iria inaugurar um novo período na história das viagens à América. Rico, ilustrado, amigo do
filósofo Voltaire, foi La Condamine quem abriu a era das grandes expedições científicas.
Desembarcando no Equador em fins de 1735, perambulou por oito anos pela cordilheira dos Andes.
Em maio de 1743, decidiu descer o Amazonas da nascente até a foz – viagem que, surpreendentemente,
foi autorizado a fazer, tanto pelos espanhóis como pelos portugueses (que, meio século depois,
proibiriam a entrada do barão Von Humboldt no Brasil). A jornada durou dez meses, consagrando La
Condamine como “descobridor” da borracha (leia p. 176), do quinino e da platina.
Para acompanhar – e descrever – a longa jornada de retorno, as autoridades
espanholas destacaram os jesuítas Cristóbal de Acuña e Andrés de Artieda. Em
16 de fevereiro de 1539, em companhia de Teixeira e sua tropa, eles zarparam do
Equador. Dez meses mais tarde, em 12 de dezembro, o grupo original estava de
volta ao porto de partida: Belém do Pará. Pedro Teixeira tornou-se, assim, o
primeiro homem a ter percorrido toda a extensão do maior rio do planeta nos
dois sentidos, numa espantosa jornada de ida e volta. Cristóbal de Acuña, por
seu turno, seguiu imediatamente para a Espanha, onde redigiu o relato Novo
descobrimento do grande rio das amazonas – um livro em tudo superior ao que
o dominicano e inquisidor Gaspar de Carvajal produzira um século antes.
Embora a viagem fosse atribulada e repleta de imprevistos, e segundo Acuña,
as margens do grande rio estivessem ocupadas por cerca de dois milhões de
indígenas, nem ele, nem Teixeira, nem ninguém viu qualquer sinal das fabulosas
“amazonas”. A expedição, de qualquer forma, não se tornou apenas um marco na
história das explorações: foi graças à coluna de pedra que Teixeira fincou, em 16
de agosto de 1639, na confluência dos rios Aguarico e Napo (atualmente
fronteira entre o Equador e Peru) – numa petulante tentativa de estabelecer um
limite entre as possessões espanholas e portuguesas na América –, que a maior
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