Brasil, uma história


partiu do Rio rumo a Goiás (quinto volume), retornando para São Paulo pelo



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

partiu do Rio rumo a Goiás (quinto volume), retornando para São Paulo pelo
caminho dos boiadeiros (sexto volume). Percorreu essa província, mais o Paraná
e Santa Catarina (sétimo volume), entrando no Rio Grande do Sul em junho de
1820 (oitavo volume), seguindo pelas Missões até Montevidéu, daí retornando
ao Rio e, a seguir, partindo para Paris. Saint-Hilaire levou dez anos para publicar
sua obra – e o fez meticulosamente, enquanto preparava a monumental Flora
Brasiliae Meridionalis (inédita no Brasil). Em fevereiro de 1821, Saint-Hilaire
havia sido envenenado pelo mel da abelha lechiguana. Os sintomas da doença o
infernizaram pelo resto da vida, até a morte, em 1853. Os dois últimos volumes
de sua viagem só foram publicados postumamente.


D
Capítulo
15
BRASIL AMAZÔNICO
e “inferno verde” a rain forest, de floresta sem fim a campos dos sonhos,
de última fronteira da civilização a “pulmão ao mundo”, a Amazônia
percorreu uma longa trajetória no imaginário ocidental. Desde que o
homem branco a penetrou pela primeira vez, há cinco séculos, a floresta
permanece praticamente a mesma – e o maior rio do mundo também. O que se
modificou foram as imagens que a mata majestosa, seus habitantes (humanos ou
não) e sua complexa ecologia passaram a adquirir na mente dos pesquisadores,
dos cientistas e da população urbana das maiores cidades do mundo.
Desde a sua descoberta casual, em 1542, a Amazônia tem funcionado como
uma espécie de cabo de guerra entre fato e ficção, fantasia e realidade. De
imediato, a maior região selvagem do mundo se tornou o novo palco de dois
antigos mitos: a lenda das ferozes guerreiras amazonas e a miragem de Shangri-
lá, a cidade perfeita (nos trópicos transfigurada em Eldorado), foram ambas
transplantadas para o seio da imensa mata virgem. Esses dois mitos fariam muita
gente perder a cabeça – literalmente.
Gonzalo Pizarro, Lope de Aguirre e Walter Raleigh, exploradores que, por
anos a fio, procuraram as amazonas e o Eldorado, foram decapitados ao retornar
de mãos vazias para a Europa. Mas quem poderia duvidar que, numa região
dominada pelos superlativos – onde as árvores tinham 50 metros, as cobras oito
metros e uma única planta aquática (a vitória-régia) chegava a dois metros de
diâmetro –, não pudesse, de fato, existir uma cidade de ouro e um reino de
mulheres guerreiras?
Assim que os ensandecidos conquistadores do século XVI foram substituídos
pelos meticulosos cientistas do século XIX – entre eles o francês La Condamine,
o “descobridor” da borracha –, ficou claro que o maior tesouro da Amazônia era
vegetal. A borracha seria responsável pela primeira corrida da história provocada
não por um minério, mas por uma planta. Pouco antes, estudos feitos na


“E
Amazônia pelos precursores de Darwin estavam ajudando o homem a entender
seu papel no planeta. Infelizmente, isso não seria suficiente para fazer com que o
homem descobrisse qual, afinal, era o seu papel na Amazônia.
O RIO DAS MULHERES GUERREIRAS
ram mulheres muito alvas e altas, com cabelo longo, entrançado e enrolado
na cabeça. São muito robustas e andam nuas em pelo, tapadas suas
vergonhas, com os arcos e flechas nas mãos, fazendo tanta guerra quanto dez
índios homens e, em verdade, houve uma que enterrou uma flecha a um palmo
de profundidade no bergatim, e as outras pouco menos, de modo que, finda a
luta, nossos barcos pareciam porcos-espinhos.”
Naquele 24 de julho de 1542, a malfadada expedição de Francisco de
Orellana já estava havia meio ano navegando pelas águas intempestivas de um
rio tão largo, grande e forte quanto jamais se vira, quando o frei dominicano
Gaspar de Carvajal, cronista oficial da desventura, sacou da pena para registrar a
primeira aparição “factual” das mitológicas amazonas na história das Américas.
Junto com Orellana e outros 21 homens, Carvajal deixara Quito, no Equador, em
fevereiro de 1541. A expedição fora se juntar ao imenso grupo liderado por
Gonzalo Pizarro, que havia partido da capital do império inca em busca do reino
da canela – localizado, em tese, além da cordilheira. Boa para o pulmão,
antisséptica e digestiva, a canela era uma riqueza inestimável no século XVI.
Tanto que poderia valer a vida de duzentos cavalos, mil cães (treinados para
matar), dois mil porcos, quatro mil índios e 250 fidalgos espanhóis – o número
de sacrificados nessa viagem de danação, cujo único resultado prático seria a
descoberta do maior rio do mundo.
No Natal de 1541, quando, famintos e febris, Pizarro e Orellana enfim
venceram a árida e gelada barreira dos Andes, mergulharam num ambiente ainda
mais ameaçador: a maior floresta jamais vista por qualquer europeu. Indignado,
Pizarro jogou aos cães metade dos índios sobreviventes e queimou vivos os
restantes. Mas em breve não haveria mais cães, porcos ou cavalos para alimentar
os espanhóis. Então, no dia 26 de dezembro, Orellana foi autorizado a construir
um barco e, com 57 homens, descer o rio que viria a se chamar Coca.


A
O plano era saquear as grandes aldeias indígenas que existiriam por lá. Seria
uma viagem sem volta: em seis dias a corrente o empurrou quase mil
quilômetros rio abaixo. Não havia aldeias: só mata e água. Os viajantes comeram
seus cintos e suas botas fervidos com ervas. O rio Coca deságua no Napo, que é
afluente do Ucayali, que no Brasil se chama Solimões e é um dos formadores do
majestoso rio no qual aquela nau de insensatos entrou em 11 de fevereiro de
1542. Enquanto isso, na floresta, Pizarro esperou por 40 dias antes de retornar
para Quito, amaldiçoando Orellana e acusando-o de traição. Com 80 homens
esmaecidos, chegou à cidade em agosto de 1542 – sem canela, sem cães, sem
cavalos, sem ouro. Exatas duas semanas mais tarde, a 26 de agosto, um mês após
enfrentar doze amazonas (e matar sete delas) e de ter navegado 7.250
quilômetros, Orellana e 48 sobreviventes chegaram ao oceano Atlântico.
Tornavam-se os primeiros homens a navegar o maior e mais misterioso rio do
planeta.
O REINO DO ELDORADO
o chegar à ilha de Cubágua, a 200 quilômetros de Trinidad, depois da
inacreditável viagem em companhia de Orellana, frei Gaspar de Carvajal
tratou de redigir no ato o relato da expedição – e o olho que uma flechada lhe
roubara não o atrasou nessa missão. Embora as dimensões do rio recém-
percorrido fossem espantosas, o que mais chamou a atenção em seu diário foi a
menção às amazonas, com as quais os expedicionários teriam se confrontado ao
chegar na confluência do rio que hoje se chama Madeira.
WALTER RALEIGH

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