Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Em junho de 1767, o conde Louis Antoine de Bougainville aportou na ilha de Santa Catarina, onde
iria passar quinze dias reabastecendo os dois navios com os quais se tornaria o primeiro francês a dar
a volta ao mundo. Durante suas incursões às florestas da ilha, o conde – um autêntico iluminista do
século XVIII, aristocrata, militar, filósofo e amigo de Diderot – descobriu a belíssima trepadeira que
hoje leva seu nome: a Bougainvillea spectabilis, também chamada de primavera ou três-marias.
Alguns meses depois, a planta seria coletada no Rio de Janeiro pelo genial botânico Joseph Banks,
que acompanhava a expedição de James Cook, e então desenhada (gravura ao lado) por Sidney
Parkinson, brilhante artista que o assessorava.
As viagens de Cook abriram caminho e a mente do jovem cientista Charles
Darwin, cuja obra estava destinada a mudar os rumos da história natural. Em 27
de dezembro de 1830, a bordo do Beagle, Darwin partiu da Inglaterra para uma
viagem de cinco anos ao redor do globo. Os estudos que realizou da fauna e da
flora de diversas partes do mundo lhe permitiram elaborar a inovadora teoria da
evolução das espécies.
Embora as ilhas Galápagos tenham tido papel mais importante na elaboração
da teoria, Darwin esteve duas vezes no Brasil – em Fernando de Noronha, em
Salvador e no Rio –, na ida e na volta da viagem, e impressionou-se
profundamente com sua natureza. O primeiro contato com os trópicos se deu em
28 de fevereiro de 1831, quando Darwin desembarcou na Bahia. No dia
seguinte, ele anotaria no diário: “O dia passou-se deliciosamente. Mas ‘delícia’ é
termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que,
pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira.


O
A elegância da relva, a novidade dos parasitas, a beleza das flores, o verde
luzidio das ramagens e, acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral,
foram para mim motivos para uma contemplação maravilhada. Jamais poderei
experimentar tanto prazer.”
A VIAGEM DO PRÍNCIPE MAXIMILIANO
ficial hussardo mais afeito às plantas e aos animais do que às armas, o
príncipe alemão Maximilian von Wied esteve no Brasil de junho de 1815 a
maio de 1817. Embora sua jornada, terrestre e fluvial, do Rio à Bahia, não tenha
sido tão duradoura nem tão ampla se comparada às de outros viajantes, a
quantidade de informações que o príncipe conseguiu coletar é impressionante.
Melhor ainda é que seu livro, Reise nach Brasilien in den Jahren 1815 bis 1817
(Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817), publicado em 1820, em Frankfurt,
em dois volumes, foi escrito em estilo denso e direto, sem as divagações
frequentemente encontradas no texto de muitos viajantes.
O príncipe viajou com o botânico Friedrich Sellow e o ornitologista
Freyreiss: juntos, os três sábios fizeram a primeira expedição realmente
científica ao Brasil, realizada sob a influência do barão Von Humboldt – o maior
de todos os naturalistas e que, em junho de 1800, fora impedido de entrar no
Brasil. Dedicado, austero e incansável, como era de se esperar de um oficial
hussardo, Maximiliano realizou um trabalho exemplar no Brasil.
Maximilian Alexander Philip von Wied-Neuwied era filho, neto, bisneto, tio
e irmão de soldados. General de divisão do Exército alemão, ganhou a Cruz de
Ferro em campo de batalha e entrou em Paris, depois da derrota de Napoleão, em
companhia de Frederico Guilherme III, da Prússia. Tão logo pôde, trocou as
batalhas pelas viagens científicas. No Brasil, sob o pseudônimo de Max von
Braunsberg, percorreu a mata costeira do litoral do Rio, do Espírito Santo, do
norte de Minas e do sul da Bahia. Embora o legado zoológico, botânico e
linguístico da expedição de Maximiliano seja grandioso, sua maior contribuição
foi etnográfica. Os estudos que o príncipe fez dos Puri, dos Botocudo e dos
Pataxó foram pioneiros e inovadores. Maximiliano ligou-se aos Botocudo, que
eternizou na aquarela Luta entre Botocudos. O príncipe virou grande amigo do
Botocudo Quack e levou-o para a Europa. Morreu em 1867, em Neuwied, aos 85


Q
anos, tão enamorado de borboletas, índios, árvores e plumas, fósseis e crânios
como nas primeiras décadas de sua existência movimentada e intensa.
A EXPEDIÇÃO DE SPIX E MARTIUS
uando a arquiduquesa Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo veio
de Viena para o Rio, em novembro de 1817, já casada por procuração com
D. Pedro I, trouxe consigo um grupo de quinze cientistas. Eram os integrantes da
chamada Missão Austríaca. D. Leopoldina ouvira falar que D. Pedro era um
amante das ciências naturais e imaginou que ele adoraria a ideia. Embora entre
as várias paixões de D. Pedro não se incluíssem rochas, plantas e aves, a Missão
Austríaca foi um marco na ciência no Brasil – especialmente porque, entre seus
membros, estavam o zoólogo Johann Baptist von Spix e o botânico Cari
Friedrich Phillip von Martius. A marcha de Spix e Martius pelo interior do Brasil
se tornaria não só uma das mais longas já realizadas na colônia como também
uma das mais produtivas. Homens de formação humanista, herdeiros intelectuais
de Humboldt, dedicados e destemidos, Spix e Martius devotaram os melhores
anos de suas vidas ao Brasil. Spix e Martius chegaram ao Rio em 15 de julho de
1817. Depois de quatro meses de deslumbramentos e descobertas numa das mais
belas cidades do mundo, partiram para São Paulo no dia 8 de dezembro, dando
início à jornada que os levaria a percorrer mais de vinte mil quilômetros ao
longo de três anos. De São Paulo, foram para Minas (Mariana, Sabará e Vila
Rica, onde realizaram várias pesquisas geológicas), cruzaram o sudoeste da
Bahia até Goiás e daí, pelo vale do rio São Francisco, seguiram até Salvador.
Depois de uma excursão a Ilhéus, voltaram a Salvador. Então seguiram para
Juazeiro, cruzando os sertões de Pernambuco e do Piauí até o Maranhão. De São
Luís, seguiram por mar até Belém, de onde subiram o Amazonas até Manaus,
onde se separaram: Spix então subiu pelo Solimões até o Peru, enquanto Martius
seguia pelo rio Japurá até os Andes. Em março de 1820, os dois se
reencontraram em Manaus. Três meses depois, partiram do Rio para a Europa
com um dos maiores acervos já reunidos no Brasil. O material botânico,
zoológico e etnográfico coletado por Spix e Martius daria trabalho para uma vida
inteira. E a ele ambos se dedicaram até o fim de seus dias – sem poder concluí-
lo.


“A
Em 1826, Spix morreu prematuramente, aos 46 anos, participando apenas da
redação do primeiro dos três volumes da portentosa Reise in Brasilien (Viagem

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