Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
brasileiras da teoria da bondade natural, publicado em 1937.
Tudo começou com Michel de Montaigne (1533-1592), que não apenas tinha
um criado que convivera com os nativos do Brasil, durante a malfadada
experiência da França Antártica entre 1556 e 1558, no Rio, como manteve
contato pessoal com três Tupinambá, na França, em 1562. A partir desses dois
episódios, e da leitura atenta que fez dos livros de André Thevet e Jean de Léry,
Montaigne compôs seu clássico ensaio Dos canibais, texto que está na origem
do mito do bom selvagem e cujos efeitos seriam duradouros.
Com o fulgor e o radicalismo típicos, Montaigne traçou um painel idílico e
vigoroso da vida selvagem, da qual se serve, como num espelho convexo, para
atacar os “malefícios da civilização”. Ainda assim, ao final do texto, não se
esquece de ironizar os índios que idealizou: “Está tudo muito bem, mas, bom
Deus, eles não usam calças!”
Dos canibais teria duradoura influência, tanto entre filósofos do século XVII,
como Locke e Espinosa, como, mais especialmente, entre os humanistas do
século XVIII. Em O espírito das leis, que redigiu em 1748, Montesquieu louva o
amor à liberdade e o igualitarismo entre os índios. No verbete “Selvagens” de
sua monumental Enciclopédia, publicada em 1751, Diderot também apresenta
uma versão idealizada e altamente elogiosa dos povos indígenas. Nada se
compara, porém, ao clamor revolucionário e à paixão incandescente com a qual
Jean-Jacques Rousseau escreveu, entre 1753 e 1760, o Discurso sobre a origem
da desigualdade entre os homens e O contrato social.
Ambos os textos foram meditados em seus devaneios de caminhante solitário
pela floresta, em Montmorency. Ambos defendem a ideia da bondade natural do
homem e de sua corrupção pela civilização. Ambos serviram para estimular os
revoltosos de julho de 1789.
Voltaire, uma espécie de versão bizarra de Rousseau, também abordaria o
tema. Como lhe convinha, porém, o fez com escárnio e escracho no romance
Cândido, de 1759. Além do ataque frontal aos jesuítas, Cândido, o herói
“otimista” de Voltaire, viaja, em companhia de sua amante, pelo Paraguai, Brasil
e Guianas, deplorando os costumes canibais. Nesse sentido, Voltaire ecoa o
ceticismo cínico de Shakespeare, que, dois séculos antes, zombara do idealismo
de Montaigne ao criar, na peça A tempestade, o personagem Caliban – selvagem


C
rude e cruel. Ainda assim, foram as ideias defendidas por Montaigne as que
prevaleceram. E até hoje são elas que parecem pautar – para o bem e para o mal
– a visão dos europeus sobre os nativos americanos.
O FUTURO DOS ÍNDIOS NO BRASIL
omo na história bíblica de Ló – o sobrinho de Abraão que sobreviveu à
destruição de Sodoma e Gomorra e teve de praticar o incesto com as duas
filhas para evitar o fim da própria tribo –, apenas uma relação incestuosa poderá
salvar os índios Avá-Canoeiro da extinção. Outrora temidos e numerosos – eram
mais de três mil em 1750 –, os Avá-Canoeiro não são, na aurora do Terceiro
Milênio, mais do que dez. Entre essa única e última dezena de sobreviventes,
apenas o garoto Trumack (nascido em 1987) e a menina Potdjawa (de 1989)
podem ter filhos. Só que Potdjawa e Trumack são irmãos. Como entre muitos
outros povos do mundo, entre os Avá-Canoeiro a pena para o incesto é a morte.
O dilema dessa tribo é exemplar: haverá para os índios do Brasil futuro que não
seja perverso?
Tão desesperador quanto o caso dos Avá-Canoeiro é o dos Xetá, do Paraná,
tribo da qual só restam sete membros. Do descobrimento até hoje, mais de mil
grupos étnicos já foram extintos no Brasil. Sobram 200 tribos e pouco mais de
300 mil índios. Suas reservas ocupam 850 mil quilômetros quadrados, ou cerca
de 10% do território nacional – área sob constante ameaça de invasores e
posseiros. Em pleno século XXI, o Brasil ainda trata seus nativos como mero
entrave ao avanço da civilização. Qual o caminho da salvação para os habitantes
originais de Pindorama, a Terra das Palmeiras?
De todos os dramas vividos pelas tribos brasileiras, o mais rumoroso tem sido
o do suicídio coletivo dos Guarani-Kayowá, de Mato Grosso do Sul. Agrupados
em reservas improdutivas, submetidos a um regime de trabalho semiescravo e
despojados de suas tradições, 236 Kayowá se mataram em menos de uma
década. Só em 1995, foram 54 os que cometeram o deduí, o suicídio ritual – ou
rito de “apagar o Sol”, como os próprios índios, trágica e poeticamente, o
denominam. Com suas reservas ameaçadas também pela usina de Belo Monte,
mais membros da tribo ameaçam tirar a própria vida numa sombria cerimônia
coletiva.


No Brasil, a Idade da Pedra ainda não acabou.
A POPULAÇÃO NATIVA

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