Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
J
OACHIN
L
EBRETON
(1760-1820) era o chefe da missão. Fora um dos
organizadores do Louvre e, ao se recusar a devolver obras pilhadas durante as
campanhas de Napoleão, caiu em desgraça na Europa. Trouxe para o Brasil 54
telas do Louvre. Elas apodreceram.
N
ICOLAS
-A
NTOINE
T
AUNAY
(1755-1830), pintor de motivos históricos e
subchefe da missão, veio ao Brasil com os quatro filhos, entre os quais os
pintores Félix-Émile e Aimé Adrien, mais o irmão Auguste-Marie.
A
UGUSTE
-M
ARIE
T
AUNAY
(1768-1824), escultor que fez vários bustos de bronze
e lecionou escultura na Academia de Belas-Artes.
G
RANDJEAN DE
M
ONTIGNY
(1766-1850), arquiteto de renome, foi escolhido para
fazer o prédio que abrigaria a Escola de Belas-Artes. Poucos de seus projetos
saíram do papel. Os que tiveram tal sorte foram derrubados mais tarde.
C
HARLES
P
RADIER
(1768-1848), pintor, fez um dos melhores retratos oficiais de
D. João VI.
M
ARC E
Z
ÉPHYRIN FERREZ
, irmãos escultores, gravaram a primeira moeda
brasileira.
Ao todo, eram 46 pessoas (algumas vieram com família e criados), entre os
quais se incluíam artífices, como o serralheiro Nicolas Enout, o carpinteiro Louis
Roy, os curtidores de peles Fabre e Pilite, o ferreiro Level e o maior de todos, o
pintor Jean-Baptiste Debret. Apesar dos problemas que enfrentaram, estes
homens conseguiram mudar a face do Rio. O projeto inicial do marquês de
Marialva propunha a instalação no Brasil de uma Escola de Ciências, Artes e
Ofícios, na qual “as artes liberais e de luxo deviam ceder o passo às úteis e


A
necessárias”. Mas, ao embarcar na fragata Calpe, em 22 de fevereiro de 1816,
Lebreton já se decidira a criar uma Academia de Belas-Artes. A chegada ao Rio
se deu em 26 de março. De início, o conde da Barca conseguiu contornar o
conflito entre os políticos favoráveis às “artes úteis” e os defensores das “artes
liberais”. Mas o protetor da missão morreu no início de 1817. Então, vitimada
por campanhas difamatórias, inveja de artistas luso-brasileiros e brigas internas,
a missão quase gorou. Além do mais, vários artistas já chegaram ao Brasil
brigados entre si. No Rio, foram duramente atacados pelo cônsul francês Maler,
que os considerava “subversivos”. Depois, revoltaram-se os artistas locais, que,
com “empeçonhada rivalidade contra os que julgavam intrusos protegidos por
injustos e inadmissíveis privilégios”, desferiram uma série de ataques à missão.
Quando, amargurado e desgostoso, Joachin Lebreton morreu, em 1820, o
mundo ruiu para os artistas franceses. Embora continuassem a receber seu
salário de 800 mil-réis anuais, além das refeições, depois que o português
Henrique José da Silva assumiu o comando da Escola Real de Ciências, Artes e
Ofícios, os integrantes originais da Missão passaram a comer o pão que o diabo
amassou. Pintor medíocre, pai de doze filhos que mal podia sustentar, mas com
amizades sólidas entre os políticos, Silva armou todos os entraves burocráticos
para obstaculizar o trabalho dos franceses. Determinou que, antes de qualquer
outro curso, todos os alunos da Escola Real deveriam fazer, ao longo de três
anos, cadeira de Desenho. Quem era o professor de Desenho? Ele próprio.
Impedidos de lecionar na Escola fundada por eles mesmos, alguns missionários
retornaram à França. Outros alugaram casas nos arredores da cidade e passaram
a viver de aulas particulares. Ainda assim – e embora até hoje sejam acusados de
ter destroçado o barroco brasileiro e retardado a chegada do modernismo ao
Brasil –, o legado da missão francesa se impôs em inúmeras obras e quadros e
permanece mais do que vivo nos traços de Jean-Baptiste Debret.
A OBRA DE DEBRET
cima de tudo, era um flaneur. Percorria, atento e deslumbrado, calçadas e
cascatas, matas e morros, o cais e os caminhos que dali partiam. Entrava em
fazendas e favelas, frequentava palácios e paços. Não dava um passo sem o
bloco no qual rabiscava esboços minuciosos que, a seguir, no silêncio laborioso


de seu ateliê, transformava em quadros e pranchas. Sem as cerca de duzentas
gravuras que Jean-Baptiste Debret realizou do Rio de Janeiro, de São Paulo, do
Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul – seus nobres e seus escravos;
seus costumes e seus animais; suas ruas e suas casas –, é quase impossível supor
que imagem faríamos do Brasil de 1820. É provável que não fizéssemos imagem
nenhuma – pelo menos não uma confiável. Debret registrou os avanços e as
mazelas, os horrores e as maravilhas, a rudeza e os encantos do país com o rigor
de um historiador e a finesse de um artista inspirado. Não fossem seus quadros, a
maior parte dos livros didáticos sobre a história do Brasil seria mais maçante do
que já é. Um quadro de Debret, detalhista e lúcido, vale quase uma tese. Sua
obra revela como era – e por que viria a ficar como está – um país que é quase
um continente.
Jean-Baptiste Debret nasceu em Paris em 18 de abril de 1768, filho de
funcionário público graduado e primo do pintor Jacques-Louis David, seu
primeiro mestre. Em 1791, ao eclodir a Revolução Francesa, teve de abandonar a
Escola de Belas-Artes. Formou-se, então, engenheiro na Escola Politécnica.
Voltou a pintar em 1798 e foi premiado no Salão de Paris com obras sobre as
campanhas de Napoleão, de quem era admirador. Em 1814, a derrota do
imperador não abalou Debret apenas moralmente: acabou com sua carreira na
França, além de surpreendê-lo num momento de crise financeira. Foi, portanto,
com alívio e alegria que recebeu o convite de Lebreton para juntar-se à missão
francesa que viria para o Brasil. Só não podia imaginar que permaneceria por
quinze anos no Novo Mundo.
Ao longo da década e meia durante a qual esteve no Brasil, Jean-Baptiste
Debret jamais obteve as condições ideais para a realização de seu trabalho.
Ainda assim, deixou uma obra monumental que, um século e meio após sua
publicação, não encontra paralelo na iconografia brasileira. Ao desembarcar no
Rio, em março de 1816, Debret já se envolvera nas polêmicas internas que
abalavam a Missão Artística Francesa. Mas o ambiente com o qual se deparou
transformaria aquelas meras discussões acadêmicas em mexericos de comadres.
Embora tenha sido nomeado pintor da Casa Imperial e tenha ajudado a decorar o
Rio para a festa de aclamação de D. João VI (quando teve a ideia de iluminar
com lâmpadas de zinco e lustres de cristal os monumentos de Montigny,
transformando o Rio numa cidade-luz tropical), Debret esbarrou na muralha de


A
ignorância e inveja erguida por artistas e políticos locais. Decidido a não voltar
para a França, alugou uma casa no Catumbi e passou a viver de aulas
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