Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Tiradentes surge como o “mártir ideal e imaculado na brancura de sua túnica de condenado”. Foi
assim que ele virou símbolo nacional aceito tanto por monarquistas e abolicionistas como pelos
republicanos. O fenômeno se repetiria nos anos 60 do século XX, quando tanto os militares como
grupos revolucionários da esquerda usaram-no como símbolo de liberdade. Após dois séculos,
Tiradentes vive.
Mas os caminhos da história escolheram outras vias e, um século depois,
Tiradentes seria transformado no grande símbolo da República –
independentemente do papel que tivesse desempenhado na Conjuração. Por anos
a fio, a história da revolta subsistira apenas na memória popular. A partir de
1873, e até 1893, a literatura e a historiografia começaram a transformar
Tiradentes numa espécie de Cristo cívico. Ele renascera um pouco antes – no
livro Brasil pitoresco, escrito em 1859 pelo francês Charles Ribeyrolles, na
figura de um herói republicano “que se sacrificara por uma ideia”. Em 1873,
porém, o historiador Joaquim Norberto de Souza lançou sua História da
Conjuração Mineira. Descobridor dos Autos da Devassa, ele foi o primeiro a
consultálos. Após treze anos de pesquisa, concluiu que o papel do Tiradentes
fora secundário e que, por causa da “lavagem cerebral” a que o teriam submetido
na prisão os frades franciscanos, substituíra o ardor patriótico pelo fervor
religioso. “Prenderam um patriota, executaram um frade.” Os republicanos, já
tentando alçar Tiradentes ao papel de símbolo do regime que estava para nascer,
protestaram. Negavam ter Tiradentes beijado as mãos e os pés do carrasco; não
aceitavam a versão de que ele se dirigira à forca com um crucifixo; não
acreditavam que tivesse dito que, como Cristo, também morreria nu. Mas o fato
é que as semelhanças entre a paixão de Cristo e o martírio de Tiradentes eram
tão evidentes (não faltavam nem Judas nem Pedros – e, agora, nem a
ressurreição) que, depois de estabelecida a República, até mesmo os pintores
ligados ou contratados por ela passaram a representar Tiradentes como se fosse
Jesus no patíbulo.
Com a passagem dos anos, a memória e as imagens de Tiradentes
continuariam sendo esquartejadas.
AS REVOLTAS ECONÔMICAS


V
árias insurreições ocorreram contra a dominação portuguesa durante o período
colonial brasileiro. Embora algumas delas tenham se tornando também
lutas pela autonomia e pela independência, os reais motivos de sua eclosão
foram os desmandos do sistema colonial – pesadas tributações, impostos e
monopólios estatais. Com frequência, essas revoltas tomavam ares nacionalistas,
voltando-se contra os “marinheiros”, como os portugueses eram ironicamente
chamados pelos brasileiros.
A Revolta de Beckman, ocorrida em 1684 no Maranhão, foi a primeira luta
armada significativa contra as regras econômicas impostas pela Metrópole.
Começou quando, aproveitando-se da ausência do governador da província, um
senhor de engenho, Manuel Beckman – chamado de Bequimão –, lançou um
manifesto no qual deixava clara a revolta existente contra a Companhia de
Comércio do Maranhão, que detinha os direitos de importação e exportação na
região. No documento, o líder do movimento afirmava que “a duas coisas
devemos pôr termo – aos jesuítas e ao monopólio – a fim de que tenhamos as
mãos livres quanto ao comércio e quanto aos índios”.
Além de deter o monopólio comercial, a Companhia – fundada em 1682 –
estava obrigada a introduzir quinhentos escravos negros por ano na província, já
que os jesuítas haviam conseguido proibir a escravização dos indígenas. A
insurreição dos comerciantes e senhores de engenho eclodiu quando a
Companhia não somente aumentou os preços de artigos importados considerados
básicos – azeite, trigo, vinho e bacalhau – como deixou de fornecer a mão de
obra africana. Em fevereiro de 1684, o grupo liderado por Beckmann formou um
governo provisório, expulsou os padres jesuítas, fechou a Companhia de
Comércio do Maranhão e passou a escravizar nativos em massa. Somente um
ano depois, em 15 de maio de 1685, o governador Gomes Freire de Andrade,
aproveitando-se das dissidências internas entre os rebeldes, conseguiu organizar
o contra-ataque e retomar São Luís, até então sob o controle dos
“revolucionários”. Mesmo tendo se refugiado na floresta, Beckmann foi preso e
enforcado. Mas, ao fim e ao cabo, seus objetivos foram alcançados: a
Companhia de Comércio do Maranhão foi extinta um ano depois e, em 1759, a
própria Companhia de Jesus acabou expulsa do Brasil. Aos indígenas restou a
escravização e a extinção.
Outro conflito econômico dos tempos do Brasil Colônia foi a chamada


N
Revolta de Vila Rica, ocorrida em Minas Gerais no ano de 1720. Na noite de 27
de junho, sete homens saíram às ruas da cidade acompanhados por escravos
armados, conclamando a população a insurgir-se contra os abusos cometidos
pela Coroa Portuguesa. Protestavam contra a criação das Casas de Fundição (que
facilitavam a cobrança do “quinto” real sobre a exploração do ouro), a proibição
da circulação do ouro em pó e os desmandos do ouvidor Martinho Vieira e do
governador, conde de Assumar.
A revolta chegou a explodir, porém era desorganizada demais para
sobreviver. O conde de Assumar, astuciosamente, recebeu os rebeldes e até
assinou um documento concordando com suas dezoito reivindicações, mas,
assim que conseguiu reunir tropas suficientes, prendeu os revoltosos. No final,
apenas Felipe dos Santos – foragido da justiça portuguesa por “abandono de lar”
e figura de pouca importância no contexto da revolta – foi condenado em
julgamento sumário e executado com requintes de crueldade. Apesar disso, a
Revolta de Vila Rica não foi de todo inconsequente. No fim daquele mesmo ano,
Minas se tornaria uma capitania independente de São Paulo.
A GUERRA DOS MASCATES
o início do século XVII, Olinda era uma cidade de origem portuguesa,
encarapitada no topo de uma colina defronte ao mar de Pernambuco,
ocupada por mansões da aristocracia rural. Ao seu lado, nos baixios da colina, o
Recife havia sido construído pelos holandeses, e sua população era formada
principalmente por comerciantes e membros da pequena burguesia luso-
brasileira. Estes eram chamados pejorativamente de “mascates” pelos
olindenses, que consideravam o Recife um simples bairro comercial de sua
cidade. Foi nesse cenário que eclodiu, em 1710, um violento conflito interno: a
Guerra dos Mascates.
Após a Insurreição Pernambucana, em 1645, o Recife tornou-se mais ativo,
com seu porto registrando grande movimento e seus habitantes alimentando a
ideia de ver o “bairro” elevado à condição de vila. Os aristocratas de Olinda –
em sua maior parte senhores de engenho endividados pela crise do açúcar –
lutavam pela manutenção de seus privilégios.
No dia 19 de novembro de 1709, o governador Sebastião de Castro e Caldas


decidiu apoiar as reivindicações dos “mascates” e concedeu ao Recife o status de
vila. Na noite de 14 de fevereiro de 1710, ergueu o pelourinho na praça central
da nova cidade. A situação parecia ter sido aceita – embora a contragosto – pelos
olindenses, quando, oito meses depois, um episódio ocorrido com Castro e
Caldas desencadeou a violência entre as duas cidades rivais. Baleado por um
grupo de encarapuçados enquanto caminhava pelo centro da cidade, o
governador ordenou a prisão de vários senhores de engenho e do próprio ouvidor
de Olinda, embora seus agressores nunca tenham sido identificados.
Indignada, a elite olindense se revoltou e atacou o Recife com homens
vestidos de penas e plumas, fingindo um “ataque de índios”. Eles destruíram o
pelourinho e rasgaram o documento de criação da vila. O governador fugiu, mas
os recifenses reagiram, e os combates se prolongaram por três meses. Na
tentativa de solucionar o problema, o rei de Portugal, D. João V, nomeou um
novo governador, Félix José Machado, em outubro de 1711. Ambos os lados
depuseram as armas, mas o novo governador revelou-se partidário da causa do
Recife e prendeu 150 supostos implicados, entre eles Bernardo Vieira de Mello,
ex-governador do Rio Grande do Norte, favorável à independência de
Pernambuco e à proclamação da República. Vários nobres fugiram para o sertão,
e muitos foram executados em Lisboa. Em 7 de abril de 1714, D. João V assinou
ato régio anistiando os envolvidos, e a partir de então Olinda e o Recife
passaram a dividir o privilégio de sediar a casa do governador de Pernambuco.


O
Capítulo
13
O BRASIL DA FAMÍLIA REAL
dia nasceu radiante. Desde a madrugada, a multidão se aglomerava no
cais do largo do Paço, fitando a esquadra fundeada na baía de
Guanabara. O desembarque, porém, só começou por volta das onze horas
da manhã. Descontando-se os 45 dias passados na Bahia, a armada real estava
em alto-mar havia dois meses. Ao longo dos 64 dias durante os quais aquelas
oito naus, cinco fragatas, três brigues e trinta navios mercantes cruzaram o
Atlântico, se uma tormenta por desventura afundasse a frota, faria submergir não
apenas toda a dinastia de Bragança, mas boa parte da nobreza, do clero e da
corte de um reino que partira para o exílio. Mas, singrando a mesma rota que
Cabral seguira 300 anos antes – e sob a escolta de quatro navios de guerra
britânicos –, aquele pedaço flutuante de Portugal desfrutou uma viagem
relativamente tranquila.
Agora, na luminosa manhã de 8 de março de 1808, mais de dez mil nobres
exilados se preparavam para pôr novamente os pés em terra e iniciar não só um
novo período para a história de Portugal, mas, principalmente, uma nova era
para o Brasil. Pelos treze anos que se seguiram, D. João VI e sua corte viveram
no Rio de Janeiro: de início, fugindo do avanço incontido de Napoleão; depois,
tentando se esquivar do jugo britânico. Dias antes do desembarque no Rio, o
Brasil já começara a se livrar dos grilhões coloniais. Em breve, seria um reino
unido a Portugal. A seguir, um país independente.
O júbilo com que o povo do Rio se preparava para receber a família real não
era, portanto, apenas fruto de uma suposta devoção monárquica, mas uma
antecipação genuína pelas benesses que estavam por vir. E assim, no instante em
que o futuro rei, sua mulher Carlota Joaquina, príncipes, nobres, cortesãos e até a
rainha louca, D. Maria, pisaram em solo carioca, o som dos clarins, o espaçar
dos rojões, o alarido do povaréu, o troar dos aplausos e dos urras e o clamor dos
sinos ecoaram pela baía de Guanabara.


O
A procissão real seguiu por ruas cobertas de areia branca, juncadas de folhas
de mangueira e de canela, por entre as filas da soldadesca perfilada, com
uniformes de gala refulgindo ao Sol, diante das casas enfestoadas com panos
multicoloridos. A marcha a conduziu da rua Direita à do Ouvidor e dali à
remodelada igreja do Rosário, onde se rezou a missa para dar graças pela
chegada à nova sede do reino de Portugal. Embora satisfeita com o
desembarque, a família real não pôde deixar de notar que, além de despojada, a
cidade do Rio exalava “os odores mais pútridos”. A população, apesar de
extasiada com a visão de tanto fausto, também não foi capaz de ignorar a feiura
de D. João VI e de D. Carlota, nem os gritos alucinados de D. Maria I e as
cabeças raspadas das cortesãs (por causa da epidemia de piolhos ocorrida a
bordo). Em poucos anos, o Brasil e a realeza iriam se acostumar com os próprios
defeitos – embora só a nação de fato se modificasse.
A FUGA DE PORTUGAL
dia nasceu chuvoso e frio. Desde a madrugada, a multidão se aglomerava
no porto do Tejo, fitando a frota que balouçava nas águas barrentas do rio e
as enormes pilhas de baús amontoados no cais. A chuva caía sobre móveis
rebuscados e objetos de arte, sobre mais de 60 mil livros e manuscritos de
bibliotecas reais, sobre quadros, pratarias e arquivos. A mesma chuva
transformara as ruas estreitas que serpenteavam das sete colinas de Lisboa até o
porto em riachos ou atoleiros. Por elas, engarrafavam-se mais de setecentas
carruagens e carroças.
Quando os pertences da família real começaram a ser embarcados, um
engalfinhamento enlouquecido de cortesãos dispostos a obter permissão para
subir a bordo varreu o cais. Calado e ressentido, o povo lisboeta percebia que
estava prestes a ser abandonado pela monarquia. Era 27 de novembro de 1807.
Por meses a fio, por meio de um intrincado jogo diplomático e à custa de
muitas humilhações, D. João VI havia conseguido manter uma aparente
neutralidade na luta travada por Napoleão para submeter a Inglaterra à sua coroa
imperial. No dia 12 de agosto de 1807, a França e sua aliada, a Espanha, deram
um ultimato a Portugal: se até o dia lº de setembro D. João não fechasse seus
portos a navios ingleses, confiscasse propriedades e prendesse todos os súditos


britânicos residentes no país, a aliança franco-espanhola declararia guerra a
Portugal.
Encurralado entre duas hipóteses desastrosas (romper com a Inglaterra, um
antigo e poderoso aliado, ou desafiar seus vizinhos), D. João VI postergou a
decisão até 20 de outubro, quando fingiu ter bloqueado seus portos aos
britânicos. Não foi o bastante: em novembro, o general Junot deu início à
invasão de Portugal.
O REI DO MUNDO

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