Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
“Pelo abominável intento de conduzir os povos da capitânia de Minas a uma
rebelião, os juízes deste tribunal condenam ao citado réu a que, com baraço e
pregão, seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca e nela morra a
morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e
levada a Vila Rica, onde em o lugar mais público dela será pregada, em poste
alto até que o tempo a consuma; e o seu corpo será dividido em quatro quartos,
e pregado em postes, pelo caminho de Minas, onde o réu teve suas infames
práticas, até que o tempo também os consuma; e declaram o réu infame, e seus
filhos e netos, e os seus bens aplicam para o Fisco, e a casa em que vivia em
Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e
no mesmo chão se erguerá um padrão, pelo qual se conserve a memória desse
abominável réu.” E assim se fez.
O Brasil ganhou seu Cristo cívico. E um Judas: o traidor Silvério dos Reis,
desprezado e escorraçado pelo resto de sua vida.


T
O MITO DO TIRADENTES
iradentes pode ter sido mero bode expiatório no trágico desfecho da
Conjuração Mineira. Mas a decência com a qual se comportou ao longo do
lento e tortuoso processo judicial e, acima de tudo, a altivez com que enfrentou a
morte, tornaram-no, no ato, não apenas a maior figura do movimento, mas
também um dos grandes heróis da história do Brasil. Enquanto a maioria dos
conjurados chorava, balbuciava e se maldizia – trocando acusações e blasfêmias
diante dos jurados –, Tiradentes manteve a dignidade, o senso de camaradagem e
uma tranquilidade despojada que, da mera leitura dos atos, sua presença refulge
imponente e quase majestosa. Embora, de início, tenha tentado negar a
existência da conspiração, tão logo as acusações se tornaram evidentes,
Tiradentes tratou de atrair toda a culpa sobre si, praticamente se apresentando
para o martírio ao proclamar responsabilidade exclusiva pelo movimento. Ao
saber que, além dele, outros conjurados tinham sido condenados à morte,
Tiradentes declarou: “Se dez vidas eu tivesse, dez vidas daria para salvá-los.”
Não houve, por parte dos acusados, qualquer espécie de retribuição. Com
toda a confusão de seus depoimentos, nenhum negara a participação de
Tiradentes nem seu entusiasmo fanático e às vezes imprudente pela revolução.
Para a Coroa, o alferes também despontava como a vítima ideal: primeiro, era
alguém com todos os ressentimentos de um típico “revolucionário francês”.
Depois, não era ninguém: “Quem é ele?”, perguntara uma carta régia enviada de
Lisboa ao desembargador Torres, juiz do processo. “Não é pessoa que tenha
figura, nem valimento, nem riqueza”, foi a resposta. Além do mais, quem levaria
a sério um movimento chefiado por um simples Tiradentes? Enforcá-lo e
esquartejá-lo, portanto, teria o efeito máximo como advertência e o mínimo
como repercussão.
UM SÍMBOLO BRASILEIRO
Não se sabe como eram as verdadeiras feições de Joaquim José da Silva Xavier. Todos os retratos são
fictícios – embora nenhum tenha seguido informações vindas de fonte segura. O depoimento de frei
Penaforte assegurava que, ao ser conduzido ao patíbulo, o réu estava “com a barba e a cabeça
raspadas”. Mas tais fatos eram adversos ao processo de mitificação do Tiradentes – e foram
ignorados. Na mais brilhante análise da fabricação do mito de Tiradentes, feita por José Murilo de
Carvalho no livro A formação das almas – O imaginário da República no Brasil (no qual se baseiam as


ideias desta página), são analisadas todas as imagens de Tiradentes e de seu martírio. Nelas,

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