Brasil, uma história



Baixar 2.26 Mb.
Pdf preview
Página55/193
Encontro22.07.2022
Tamanho2.26 Mb.
#24335
1   ...   51   52   53   54   55   56   57   58   ...   193
Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Escrito por Tomás Antônio Gonzaga durante sua prisão no Rio, em 1789, “Marília de Dirceu” é um
dos mais belos poemas de amor da língua portuguesa. Foi dedicado à jovem Maria Doroteia de Seixas
Brandão, de 16 anos, por quem o poeta, de 43 anos, apaixonou-se e com quem iria casar se não
tivesse sido preso. Enviado para dez anos de degredo na África, em 1792, Tomás Antônio Gonzaga
nunca mais veria sua amada. Mas parece não ter sofrido muito com a ausência dela: casou-se com
Juliana de Souza Mascarenhas, mulher “de muitas posses e poucas letras”, da família mais opulenta
de Moçambique, enriquecida pelo tráfico de escravos, ao qual o poeta passou a se dedicar,
integrando-se à “melhor sociedade” local. Rico e ocioso, Tomás Antônio Gonzaga ficou em
Moçambique até morrer, em 1810. “Marília de Dirceu” foi publicado em Lisboa, com grande sucesso,
em 1799.
Entre os poetas conjurados propriamente ditos, o menos fulgurante foi o
coronel José de Alvarenga Peixoto. Nascido no Rio, em 1744, Alvarenga
Peixoto era um advogado que virou minerador. Foi autor de apenas trinta
poemas e não deixou livro publicado. Partiu dele a sugestão de incluir na
bandeira da Conjuração um trecho de uma écogla de Virgílio: Libertas quae sera
tamen (“Liberdade ainda que tardia”). Os dois outros poetas inconfidentes eram
homens de gênio, autores de obras profícuas e densas, cujo legado persiste.
Silva Alvarenga, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga faziam
uma poesia influenciada pelo bucolismo: uma exaltação da vida campesina
simples, com sua paisagem, seus pastores e seus rebanhos, de acordo com as
normas ditadas pelos modelos greco-romanos. Nos melhores momentos de suas
obras – e eles são muitos –, Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da
Costa, mesmo sem ousar romper com os modelos neoclássicos, revelaram um
estilo luminoso e o domínio pleno do soneto camoniano. Ambos podem ter sido
revolucionários fracassados, mas com certeza foram poetas maiores.
Cláudio Manuel da Costa nasceu em Mariana, em 1729. Estudou no colégio
dos jesuítas, no Rio, e se formou em Direito, em Coimbra. Advogado, minerador
e fazendeiro de gado bovino e suíno, senhor de muitos escravos, logo se tornou
um dos homens mais ricos de Minas. Membro da Ordem de Cristo, seu prestígio


E
era tal que foi secretário do governo entre 1762 e 1765, sendo depois reeleito
para o período de 1769 a 1773. Rico, influente, solteiro, dono de uma bela
mansão, era figura respeitada e popular, que costumava reunir amigos e
intelectuais em movimentados saraus.
Tomás Antônio Gonzaga, ou “Dirceu”, nasceu no Porto, em 1744, mas veio
com os pais para o Brasil aos oito anos de idade. Estudou no colégio dos
jesuítas, na Bahia. Aos 16 anos voltou para Portugal, onde, em 1768, formou-se
em Direito na Universidade de Coimbra. Ao retornar para o Brasil, foi nomeado
ouvidor de Vila Rica – e, como Cláudio Manuel da Costa, lucrou bastante graças
à política de vistas grossas do governador Rodrigo José de Meneses com o
contrabando de ouro e diamantes.
Tomás Antônio Gonzaga era discípulo de Cláudio Manuel da Costa e ambos
constituíam o centro de um grupo que reunia também o intendente de Vila Rica,
Francisco Pires Bandeira, o contratante João Rodrigues de Macedo, o ex-ouvidor
de São João del Rei, Alvarenga Peixoto, o comandante militar da capitania,
Francisco Freire de Andrade, o cônego Luiz Vieira da Silva, dono de uma das
mais notáveis bibliotecas da colônia (repleta de livros considerados
“subversivos”) e os clérigos radicais Carlos Correia de Toledo, José da Silva e
Oliveira Rolim.
Foram esses advogados, juízes, magistrados, comerciantes, fazendeiros,
emprestadores de dinheiro, padres, cônegos e membros de sociedades secretas e
irmandades leigas que temerariamente decidiram desafiar o poder colonial.
O FIM DA CONJURAÇÃO
m 1788, sempre zelosa de sua mais opulenta capitania, a Coroa substituiu o
corrupto governador Luiz da Cunha Meneses por Luís Antônio Furtado de
Mendonça, visconde de Barbacena e sobrinho do vice-rei Luís de Vasconcelos e
Sousa. O visconde chegou a Vila Rica com ordens expressas para aplicar o
alvará de dezembro de 1750, de acordo com o qual Minas precisava pagar 100
arrobas (ou 1.500 quilogramas) de ouro por ano para a Coroa. Caso a
arrecadação não atingisse essa cota, seria, então, cobrada a derrama – o imposto
extra tirado de toda a população até completar as cem arrobas. A derrama seria
cobrada em fevereiro de 1789.


No dia 26 de dezembro de 1788, na casa do tenente-coronel Francisco de
Paula Freire de Andrade, chefe do Regimento dos Dragões, alguns dos
personagens mais importantes de Minas se encontraram para uma reunião
conspiratória. Três tipos de homem estavam na reunião: intelectuais, como o
filho do capitão-mor de Vila Rica, José Álvares Maciel; entusiastas, como o
alferes Joaquim José da Silva Xavier (que fora atraído pelas ideias de Maciel).
Em maior número e muito mais voz de comando, mineradores endividados,
como Alvarenga Peixoto e o padre Oliveira Rolim, notório traficante de
diamantes e de escravos. Mais tarde, na segunda reunião, no mesmo local, se
juntaria ao grupo o negociante Joaquim Silvério dos Reis, talvez o homem mais
endividado da capitania, com um passivo oito vezes superior aos ativos. Todos
decidiram se rebelar contra a Coroa.
Ficou decidido que, no dia em que fosse decretada a derrama, uma revolução
eclodiria. Os planos para o golpe eram tão vagos quanto os projetos do futuro
governo. Em tese, a revolta levaria à fundação, em Minas, de uma república
independente, cuja capital seria São João del Rei. O Distrito Diamantino seria
liberado, assim como a exploração do ferro e a industrialização. Seriam
construídos hospitais, criada uma universidade e abolida a escravidão. O
governo seria entregue a Tomás Antônio Gonzaga, por três anos – a seguir,
seriam convocadas eleições livres. Minas estava destinada a ser, portanto, uma
espécie de paraíso na Terra.
Embora a historiografia oficial considere a Conjuração uma luta pela
liberdade no Brasil, para o historiador norte-americano Kenneth Maxwell, autor
de A devassa da devassa, o melhor livro sobre o tema, “a conspiração dos
mineiros era, basicamente, um movimento de oligarcas, no interesse da
oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa. (…) A
derrama proporcionava aos magnatas locais um subterfúgio préfabricado para
alcançarem seus objetivos egoístas sob o disfarce de um levante popular”. Mas o
plano gorou: em fevereiro de 1789, Barbacena suspendeu a derrama. Os
inconfidentes se desarticularam. Conforme Maxwell, só depois da suspensão da
derrama foi que Joaquim Silvério dos Reis denunciou a trama – para obter o
perdão de suas dívidas. Em maio, os acusados, um a um, começaram a ser presos
e enviados para o Rio.


A
O DESTINO DOS CONSPIRADORES
cena foi meticulosamente preparada, de modo a ter o mais teatral dos
efeitos. A leitura da sentença, iniciada no dia 18 de abril de 1792, na sala do
Tribunal do Rio, teve a espantosa duração de 18 horas, prolongando-se das 8 da
manhã às 2 da madrugada seguinte. E ocorreu em meio a grande confusão, na
presença dos dezoito acusados – deitados em estrados de madeira, já que o peso
de seus colares de ferro não permitia que permanecessem de pé –, todos
acompanhados pelos dezoito padres que os assistiam, além de nove juízes,
dezenas de guardas com suas armas carregadas e o próprio vice-rei. Pela cidade,
todos os prédios públicos estavam guarnecidos. Depois de muita tensão, com os
réus tresnoitados, em ferros e ansiosos, o escrivão passou a ler as sentenças: sete
inconfidentes foram condenados ao degredo e onze condenados à morte.
Vestidos em panos de algodão ordinários, barbudos, grisalhos, esmaecidos,
com os olhos sensíveis à luz após 36 meses no cárcere, os condenados passaram
a blasfemar uns contra os outros (“Depois de três anos incomunicáveis, era neles
mais violento o desejo de falar (…) e eles acusavam-se mutuamente”, anotou
frei Raimundo de Penaforte, presente ao julgamento). Apenas Tiradentes
mantinha-se sereno e silente. Então, dramaticamente como planejado, iniciou-se
a leitura da carta de clemência enviada, vários dias antes, pela rainha D. Maria I.
A partir daquele instante, “houve um alvoroço indizível, com os presos
levantando-se, erguendo os braços, desafogando seus corações, gritando,
entoando terços, cânticos de louvor” e urras à rainha, que daquele dia em diante
passou a ser chamada de “clementíssima”.
Alvarenga Peixoto, José Álvares Maciel, Luís Vaz de Toledo Pisa, Francisco
Antônio de Oliveira Lopes, Francisco de Paula Freire de Andrade e Domingos
de Abreu Vieira partiram para o exílio em Angola, no dia 5 de maio de 1792. No
dia 23, zarpou o navio que levou para Moçambique os conjurados Tomás
Antônio Gonzaga, Vicente Vieira da Mota, José Aires Gomes, João da Costa
Rodrigues, Vitoriano Gonçalves e Salvador de Amaral Gurgel. Os padres
implicados foram julgados secretamente em Lisboa. Cláudio Manuel da Costa
fora encontrado morto na Casa de Contos, em Vila Rica, no dia 4 de julho de
1789. A informação oficial foi de que ele se suicidara, mas muitos historiadores
acham que, na verdade, o poeta foi morto – numa sessão de tortura ou, então,
pelos próprios inconfidentes.


De todas as sentenças originais, apenas uma foi mantida: aquela que
condenava à morte e à infâmia o alferes Joaquim José da Silva Xavier. Órfão de
pai e mãe desde os dez anos, Tiradentes fracassara em tudo na vida: fora, sem
sucesso, tropeiro, minerador e dentista, até que, em dezembro de 1755, alistou-se
na Companhia dos Dragões.
Em 14 anos de carreira, porém, recebeu apenas uma promoção, tendo
estacionado no posto de alferes (equivalente, hoje, ao de tenente). Em 1787,
desgostoso com sua situação, pediu licença da tropa e mudou-se para o Rio,
onde, sem outra alternativa, voltou a trabalhar como dentista. Foi então que
conheceu José Álvares Maciel, cujas ideias republicanas e separatistas muito o
influenciariam.
De volta a Minas, Tiradentes tornou-se o mais entusiástico e temerário
propagandista do golpe. Mas não há dúvida de que seu papel na trama foi, e
sempre seria, menor. Ainda assim, e por isso mesmo, era o bode expiatório ideal
– e a Coroa o escolheu para servir de exemplo. Tiradentes cumpriu o papel com
altivez espantosa. Desde sua prisão no Rio de Janeiro, em maio de 1789
(gravura na p. 137), até o momento em que ouviu a leitura da sentença,
Tiradentes em nenhum momento vacilou, blasfemou ou traiu. E era uma
sentença terrível:

Baixar 2.26 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   51   52   53   54   55   56   57   58   ...   193




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal