Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
O
QUÊ
: Palmares não era apenas um, mas doze quilombos, unidos por uma rede
de trilhas na mata. No quilombo do Macaco, de dois mil habitantes, viveram o
“rei” Ganga Zumba e seu sobrinho Zumbi. Palmares pode ter tido vinte mil


habitantes e seis mil casas.
Q
UANDO
: o quilombo começou a ser erguido em 1602 por quarenta escravos
fugidos de engenhos em Pernambuco. Como só foi destruído em fevereiro de
1694, sua existência prolongou-se por quase um século.
O
NDE
: a Serra da Barriga fica a cerca de noventa quilômetros a noroeste de
Maceió, mas a área de influência do quilombo era muito maior: cerca de 200
km
2
, em Pernambuco e Alagoas.
Q
UEM VIVEU LÁ
: negros de todos os grupos étnicos e também indígenas e até
brancos fora da lei. Não se sabe a língua falada no quilombo. De 1656 a 1678, o
líder do quilombo foi Ganga Zumba (ou “Grande Senhor”). Em novembro de
1678, Zumba foi ao Recife e firmou tratado de paz com o governador Souza
Castro: seriam livres os negros nascidos em Palmares, ao passo que os outros
habitantes do quilombo deveriam ser entregues às autoridades. Zumbi discordou
do acordo, destituiu Ganga Zumba e assumiu o movimento de resistência dos
Palmares.
C
OMO O QUILOMBO FOI DESTRUÍDO
: ao longo de sua luta quase secular, Palmares
foi atacado 25 vezes. As primeiras expedições foram enviadas pelos holandeses
em 1644 e 1645. Em 1692, Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista, foi
contratado para atacar o quilombo. Palmares caiu em 6 de fevereiro de 1694,
mas Zumbi escapou. Foi morto por André Furtado Mendonça quase dois anos
depois. Sua cabeça foi exposta em praça pública “para satisfazer os ofendidos e
justamente queixosos e aterrorizar os negros, que o julgavam imortal”.
O GUERRILHEIRO NEGRO
Zumbi, cujo nome quer dizer “Deus da Guerra”, era sobrinho-neto da princesa Aqualtune. Envenenou
seu tio, Ganga Zumba, “rei” de Palmares, e tomou o poder. Zumbi era casado com uma branca. Ele
preferiu o suicídio à rendição: jogou-se dum penhasco para não ser capturado pelos que atacaram seu
quilombo. Zumbi era homossexual. Todas as afirmativas acima estão erradas ou são improváveis.
Pouco se sabe sobre o guerreiro dos Palmares. Documentos comprovam que, de 1676 a 1695, de fato
existiu um “general” negro de nome Zumbi. Ele era baixo, coxo e valente: “negro de singular valor,
grande ânimo e constância rara; aos nossos serve de embaraço, aos seus, de exemplo”, disse um
cronista. Contrário à paz firmada por Ganga Zumba, Zumbi liderou a resistência final dos Palmares.
Delatado, foi morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça ficou exposta na praça central do Recife,
até se decompor por completo.


E
Capítulo
12
A CONJURAÇÃO MINEIRA
ncarcerado havia três anos, o prisioneiro caminhava com dificuldade e
mal conseguia abrir os olhos. A alva (o tosco roupão vestido pelos
condenados) roçava-lhe os tornozelos. O baraço (a grossa corda da forca)
rodeava-lhe o pescoço e se estirava até as mãos do carrasco que o conduzia. Nas
janelas, nas portas, nos beirais, pelas árvores, o povo acompanhava cada gesto
do padecente. À frente ia a cavalaria, com suas fanfarras. Depois, o clero, os
franciscanos e a Irmandade da Misericórdia, rezando salmos. A seguir,
acorrentado e monologando com o crucifixo que trazia à altura dos olhos, seguia
o condenado. Às vezes a procissão parava. O escrivão, então, lia o mandado em
voz alta: “Justiça que a rainha manda fazer a este infame, réu Joaquim José da
Silva Xavier, pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constituiu
chefe e cabeça na capitania de Minas Gerais…”. Às onze da manhã, sob um sol
abrasador, o séquito chegou ao campo de São Domingos, centro do Rio de
Janeiro. Ali se erguia o patíbulo.
Três horas antes, o grupo partira do presídio. Lá, quando o carrasco, o negro
Capitania, se aproximara, com o baraço e a alva, o condenado adiantou-se e
beijou-lhe as mãos e os pés. A seguir, quando lhe ordenaram que se despisse para
vestir a alva, ele tirou a camisa e disse: “Meu salvador morreu também assim,
nu, por meus pecados.” Agora a vítima subia os degraus do patíbulo. Era sábado,
21 de abril de 1792.
O édito da rainha conclamara o povo do Rio a assistir à execução, e a praça
estava repleta. À sombra da forca, o prisioneiro pediu ao carrasco para que
“acabasse logo com aquilo”. Mas faltavam os sermões. O frade Raimundo de
Penaforte citou o Eclesiastes: “Nem por pensamento detraias do teu rei, porque
as mesmas aves levarão a tua voz e manifestarão teus juízos.” Em seguida,
quando o povo e o padecente rezavam o credo, de súbito, em meio a uma frase,
houve um baque surdo, e o corpo da vítima balançava no ar. Para apressar a


E
morte, o carrasco pulou sobre os ombros do enforcado. Ambos dançaram um
bailado tétrico. Morria o Tiradentes.
Mas a condenação ainda não estava completa: a sentença determinava que o
corpo fosse “espostejado”, e o esquartejamento começou em seguida. Dividido
em quatro pedaços, bem salgados e postos dentro de grandes sacos de couro, o
corpo de Tiradentes partiu para sua última viagem. O quarto superior esquerdo
foi pendurado num poste em Paraíba do Sul – RJ. O quarto superior direito foi
amarrado numa encruzilhada na saída de Barbacena, em Minas Gerais. O quarto
inferior direito ficou na frente da estalagem de Varginha – MG; o último foi
espetado perto de Vila Rica, cidade à qual a cabeça de Tiradentes chegou em 20
de maio de 1792. Ficou enfiada num poste, defronte da sede do governo.
Tiradentes saía da vida para entrar na história.
A VILA RICA DOS POETAS
m 1780, um século após a descoberta das minas, Vila Rica já havia muito
deixara de ser um acampamento mineiro embarrado e sem atrativos. Situada
no sopé do grandioso penedo do Itacolomi, no sul de Minas, a cidade se
constituía de uma teia de ruas pavimentadas percorrendo ladeiras íngremes,
ladeadas por graciosas construções de dois pisos, muitas das quais possuíam
terraços ajardinados. No topo das colinas, ou em frente a praças amplas, havia
inúmeras igrejas barrocas, com altares reluzindo em ouro e paredes repletas de
ornamentações suntuosas. Não era uma cidade: era uma obra de arte urbana. Vila
Rica, disse um poeta, era “a pérola preciosa do Brasil”.
Mas a riqueza da cidade – seu ouro preto, seus diamantes reluzentes, suas
minas opulentas – era também a fonte de suas desgraças. Submetida a uma
sangria feroz, que se manifestava na forma de impostos de entrada e impostos de
saída (qualquer produto levado às minas era duramente taxado; cada grama de
ouro que saía pagava um tributo oneroso), Vila Rica via sua fortuna se esvair.
Levado para além-mar, o ouro de Minas permitia a D. João V reinar numa
luxuosa ostentação a ponto de se tornar conhecido como o Roi-Soleil português.
O mais perturbador é que o “fulvo metal” nem sequer servia para enriquecer a
Metrópole: era apenas o ouro “que Portugal distribuía tão liberalmente para a
Europa”, como observou o viajante inglês Henry Fielding. Nada mais natural,


P
portanto, que a jovem sociedade mineira alimentasse um profundo estado de
indignação e revolta. E essa revolta não demoraria muito para eclodir.
Pelo menos algumas vantagens Vila Rica (abaixo) conseguia auferir de sua
opulência. Além de constituir uma sociedade urbana, possuía uma estrutura bem
mais complexa do que aquela que se reduzia a senhores e escravos. Havia uma
“classe média”: comerciantes, mercadores, ourives, artistas e, é claro, poetas.
Outra possibilidade aberta pelo ouro foi a chance concedida a alguns filhos da
elite local de realizar seus estudos na Europa. Muitos herdeiros de mineradores
bem-sucedidos foram enviados para a Universidade de Coimbra, em Portugal.
Lá, vários deles tomaram contato com ideias liberais e republicanas,
acompanhando o furor provocado pela revolução francesa e pela independência
dos EUA. Um deles, José da Maia e Barbalho, entrou em contato com Thomas
Jefferson, então embaixador dos EUA na França, sondando-o sobre um possível
apoio à independência do Brasil.
Enquanto isso, em Vila Rica, mudanças políticas tornaram insustentável o
que já era ruim. Em outubro de 1783, o governador Rodrigo José de Meneses,
homem de grande cultura, amigo do poeta Cláudio Manuel da Costa e liberal
com os contrabandistas, foi substituído por Luiz da Cunha Meneses, um sujeito
em tudo diferente dele. Para atacar a elite descontente, Cunha fez uma aliança
populista com as classes menos favorecidas de Vila Rica. Mas era um corrupto
que saqueava os cofres públicos e desfilava ostensivamente pelas ruas de Vila
Rica com suas muitas concubinas. Foi satirizado pelas Cartas chilenas, livro
provavelmente escrito por Tomás Antônio Gonzaga, no qual era chamado de
“Fanfarrão Minésio”.
O ROMANCE DA CONJURAÇÃO
ublicadas entre julho de 1788 e fevereiro de 1789, as Cartas Chilenas
marcaram o início da luta dos poetas de Vila Rica contra os desmandos da
Metrópole. Agrupados pela crítica literária sob a denominação geral de Escola
Mineira, os principais poetas conjurados eram três – todos membros da elite
local e homens que tinham lucrado muito com o ouro e a ordem estabelecida, a
qual só passaram a contestar a partir do instante em que deixaram de ser
favorecidos por ela. Além dos três poetas que mais tarde seriam presos, também


faziam parte da Escola Mineira Silva Alvarenga (autor de Glaura, de 1799),
Basílio da Gama (autor do poema épico O Uraguai, de 1769) e Santa Rita Durão
(autor de Caramuru, de 1781).
MARÍLIA DE DIRCEU

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