Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Importante salientar ainda que os caminhos da miscigenação e das “transfusões” culturais foram
sempre mais livres, dinâmicos e irrefreáveis do que as barreiras econômicas e sociais virtualmente
intransponíveis impostas pelo regime escravista. Por fim, o caldeirão multiétnico no qual a cultura
brasileira fermentou foi, como notou Gilberto Freyre, o principal responsável pelo país não possuir
hoje “um status estritamente colonizado e subeuropeu”.
“O Brasil”, escreveu ainda no século XVII o padre Antônio Vieira, “tem o corpo na América, mas a
alma na África”.
De todo modo, a miscigenação entre brancos e negros no Brasil se desenrolou
em um plano meramente material e sexual, não implicando jamais a ausência ou
a diminuição do preconceito – mesmo porque, como bem observou o sociólogo
Florestan Fernandes, sempre houve “uma relação direta entre preconceito de cor
e preservação da ordem senhorial”, simplesmente porque o próprio preconceito
servia para perpetuar a segregação social. Em pleno segundo milênio, o Brasil
ainda não se libertou do peso de um passado sombrio.
A LUTA DOS ESCRAVOS
historiografia brasileira, até cerca de 50 anos atrás, preferiu adotar a tese
segundo a qual os escravos “se adaptaram bem” ao regime tirânico que lhes
foi imposto no Brasil – onde a escravidão teria sido relativamente branda. O
mito do “bom senhor” quase adquiriu força de lei depois do lançamento, em
1933, de Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre. No início dos anos 1960,
surgiram os textos revisionistas da chamada “Escola Paulista” – liderada por


Florestan Fernandes, Octávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. Embora
avessos à tese de Freyre, esses estudiosos – de formação marxista – preferiram
analisar a questão pelo lado da “coisificação” do escravo, quase ignorando as
rebeliões da senzala. O próprio Cardoso chegou a escrever que os escravos
foram “testemunhos mudos de uma história para a qual não existem a não ser
como (…) instrumento passivo”.
Sabe-se atualmente que a resistência dos escravos foi feroz e constante:
milhares de negros lutaram de todas as formas contra os horrores que o destino
lhes reservara. A fuga, solitária ou coletiva, não era a única forma de rebelião:
houve incontáveis casos de escravos que quebraram ferramentas, incendiaram
senzalas, dispersaram os rebanhos ou atacaram seus feitores. Muitos outros
optaram pelo suicídio (em geral pela ingestão de terra), ou então se deixaram
acometer pelo “banzo”, o torpor mortal que levava à morte por inanição. O certo
é que, onde houve escravidão, houve resistência.
Evidentemente, a forma mais comum de protesto contra a escravidão era a
fuga. Apesar do rigor das punições (que incluíam a marcação com ferro em
brasa, o açoitamento e até o corte do tendão de aquiles), milhares de negros
tentaram escapar da senzala – e muitos conseguiram. Embora grande parte fosse
recapturada pelos capitães do mato, terríveis caçadores de homens quase
infalíveis (negros na maioria), sempre houve aqueles que, “estimando mais a
liberdade entre as feras do que a sujeição entre os homens”, lograram se meter
na mata e lá fundar seus “mocambos” e “quilombos” (respectivamente
“esconderijo” e “povoação”, em banto).
Quantos foram os quilombos e quantos negros neles viveram é algo
impossível de calcular. Em 1930, o Guia Postal do Brasil registrava, segundo
um pesquisador, 168 agências cujo nome derivava das palavras quilombo ou
mocambo. Eles se espalhavam da Amazônia ao Rio Grande do Sul, e alguns
chegaram a ter cerca de dez mil habitantes, como o quilombo do Ambrósio, em
Minas Gerais. Nessas povoações, não viviam apenas negros de todos os grupos
étnicos, falando várias línguas diferentes: nos quilombos também se podia
encontrar indígenas e brancos desajustados ou fora da lei. Embora as autoridades
e os senhores de escravos constantemente se unissem para articular expedições
repressivas, enviadas a todo e qualquer quilombo, onde quer que eles se
encontrassem, muitos desses núcleos resistiram por anos a fio. O maior e mais


P
importante deles – Palmares, o berço de Zumbi – foi capaz de sobreviver por
quase um século.
O QUILOMBO DOS PALMARES
almares foi o mais significativo e o mais simbólico dos quilombos não
apenas do Brasil mas das Américas. Em nenhum outro lugar a resistência
dos escravos fugidos foi tão longa, bem-sucedida e organizada como nos doze
mocambos erguidos na serra da Barriga, no sertão de Alagoas, a 90 quilômetros
de Maceió.
Ainda assim, sua história permanece envolta em penumbra e mitificações e
repleta de lacunas. Seu próprio líder, Zumbi, virou figura mais mitológica do que
histórica.
Desde 1991, porém, um programa de escavações arqueológicas – financiado
por entidades internacionais, entre as quais a norte-americana National
Geographic – está sendo desenvolvido no mocambo do Macaco, a capital dos
Palmares, e poderá elucidar muito um episódio que já foi interpretado sob
diversos pontos de vista.
Ironicamente, Palmares entrou para a história pelas mãos de um rico senhor
de engenho, Sebastião da Rocha Pita, que, em 1724, em sua História da América
portuguesa, celebrou “o fim tão útil como glorioso (da) guerra que fizemos aos
negros dos Palmares”. As poucas fontes originais relatando a resistência épica e
a trágica derrocada do quilombo foram redigidas pelas mesmas mãos que o
destruíram. Nenhum combatente deixou seu relato.
A partir da década de 1950, a história dos Palmares seria lida por uma visão
“de esquerda”. Embora historiadores como Edison Carneiro e Décio Freitas
tenham publicado documentos inéditos, o velho quilombo de Zumbi continuou
sendo utilizado como símbolo e metáfora. A realidade – menos emblemática e
glamourosa, mais efetiva e complexa – começa agora a emergir das covas
abertas na terra. Três séculos após sua destruição, Palmares pode estar
renascendo de suas próprias cinzas.

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