Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Castro Alves
O TRÁFICO NEGREIRO
mbora a escravidão seja quase tão velha quanto a própria humanidade,
jamais o tráfico de escravos fora um negócio tão organizado, permanente e


vultoso quanto se tornou depois que os portugueses estabeleceram, em meados
do século XVI, uma vasta rota triangular que uniu a Europa, a África e a
América e transformou milhões de africanos em lucrativa moeda de troca.
Manufaturas europeias eram levadas para a Guiné e cambiadas por escravos em
entrepostos costeiros. Os mesmos navios partiam em seguida, conduzindo em
seus porões aldeias inteiras para trabalhar até a morte nas plantações do Brasil.
Uma vez no Novo Mundo, esses escravos em geral não eram vendidos mas
trocados por açúcar – revendido, a seguir, com grande lucro na Europa. A
fórmula logo pôde incluir a Ásia, já que os panos coloridos feitos em Goa, na
Índia, passaram a ser a mercadoria oferecida nas feitorias da Guiné. Mas o
pioneirismo lusitano foi logo ameaçado pela concorrência dos holandeses,
ingleses e espanhóis. No século XVII, se já não eram os maiores traficantes de
escravos do planeta, britânicos e holandeses eram os que mais lucravam com
eles. No século seguinte, porém, brasileiros e portugueses radicados no Brasil se
tornariam os maiores e mais eficientes traficantes de escravos da história.
Utilizando-se da cachaça e do tabaco de terceira – baratos e abundantes no Brasil
e apreciadíssimos na África –, criaram um circuito comercial espantosamente
eficiente e rendoso. Embora capturados cada vez mais no interior do continente
africano, os escravos iam ficando cada vez mais baratos, à medida que
aumentava o interesse pelo fumo e pela aguardente. Os postos de captura e troca
de escravos logo se espalhavam por quase toda a África negra, incluindo
Moçambique e outros portos do Índico. O mercado de carne humana floresceu
plenamente até 1815, quando, sentindo-se prejudicada pelo tráfico, a Inglaterra
decidiu proibi-lo.
A quem se deve o pioneirismo do tráfico na Europa do início da Era
Moderna? Os historiadores ainda discutem o tema, embora muitos deles
atribuam ao longo período de dominação moura na Península Ibérica o hábito de
escravizar outros povos e raças, logo adotado por portugueses e castelhanos. Os
primeiros escravos negros parecem ter chegado a Portugal em 1441, a bordo da
nau com a qual Antão Gonçalves retornou da Guiné. De início, houve restrição
real à escravização de africanos – utilizados apenas em serviços domésticos e
com certa moderação. Com o início da lavoura canavieira nos Açores e em Cabo
Verde, a escravidão, mais que tolerada, passou a ser incentivada. E não apenas
além-mar: “Os escravos pululam por toda parte”, escreveu o cronista flamengo


Nicolau Clenardo, em 1535. “Tanto que, quero crer, são, em Lisboa, em maior
número que os portugueses de condição livre.”
A mais antiga referência à importação de africanos para o Brasil é encontrada
num documento escrito em São Vicente, em 3 de março de 1533, no qual Pero
de Góis pede ao rei “dezessete peças de escravos, forros (livres) de todos os
direitos e frete que soem (costumam) pagar”. Em 1539, Duarte Coelho, donatário
de Pernambuco, repete o pedido, insistindo também na isenção de impostos. Pelo
alvará de 29 de março de 1559, o rei D. Sebastião decidiu, enfim, “fazer mercê
àqueles que tinham construído engenhos no Brasil”, permitindo-lhes “mandar
resgatar ao rio e resgates do Congo e trazer de lá para cada um dos ditos
engenhos até 120 peças de escravos resgatadas à sua custa”.
Estava iniciado o tráfico em grande escala. Em breve se encerraria o chamado
ciclo de Guiné, iniciando-se o de Angola. Em 1585, segundo uma informação do
padre José de Anchieta, tida como um tanto exagerada, já eram 120 mil os
escravos africanos vivendo – e cedo morrendo – em Pernambuco. De qualquer
modo, esse era apenas o início.
Preocupados com os indígenas, que morriam como moscas não apenas por
sua absoluta impossibilidade de adaptação ao regime de trabalho forçado como
também pelos surtos epidêmicos que grassavam nos aldeamentos, nas senzalas
ou nos engenhos, os jesuítas foram os primeiros a incentivar o tráfico de
africanos para o Brasil. Mais bem adaptados à produção agrícola e ao trabalho
organizado, os negros de fato se revelaram uma opção mais rentável para os
senhores de engenho. O negócio, porém, cedo se mostrou muito melhor para os
traficantes: trocados por fumo e cachaça, os escravos eram baratos na África.
Como o açúcar feito no Nordeste do Brasil era levado para a Europa nos mesmos
navios que traziam os escravos da África, os negreiros forçavam os engenhos a
adquirir novos escravos sob pena de não comprarem seu açúcar. Assim, os
senhores de engenho logo se endividaram.
De qualquer forma, um escravo se “pagava” em cinco anos. Melhor para seus
senhores: devido aos maus-tratos frequentes, a jornada de trabalho nunca inferior
a dezoito horas diárias, às péssimas condições de alojamento e às rações
criminosamente exíguas, os escravos, em média, não sobreviviam mais do que
sete anos no Brasil. Mas, como uma “peça da África” custava cerca de cinquenta
mil-réis, mesmo portugueses relativamente pobres – e até escravos alforriados –


podiam ter pelo menos uma. E de fato tinham: não possuir escravos no Brasil era
considerado algo tão humilhante que dentre os “reinóis” que não conseguiam
adquirir o seu, muitos preferiam voltar para Portugal.
O preço baixo e a facilidade de substituir as “peças” explicam por que, entre
as duas opções que dividiam os senhores de escravos – “deve-se criá-los ou
comprá-los?” –, os brasileiros sempre optaram pela segunda. A mortalidade
infantil também era assustadoramente alta entre os escravos – isso quando eles
conseguiam “reproduzir em cativeiro”, já que o número de mulheres trazidas da
África foi cinco vezes menor do que o dos homens. A máquina escravagista que
se estabeleceu primeiro nos engenhos (que “gastavam” cerca de duzentos
escravos por ano, cada) e depois nas minas das Gerais, associada ao costume de
substituir o escravo morto pelo moribundo seguinte, transformou o Brasil na
maior nação escravista do Novo Mundo – e aquela que mais dependia de
escravos. As consequências econômicas, políticas, morais e sociais foram
enormes.
Na África, lavradores e aldeões eram capturados aos milhares por outros
africanos caçadores de homens, que, em geral, utilizavam os mesmos métodos
empregados pelos traficantes berberes. Os cativos eram então conduzidos às
feitorias à beira-mar e, a seguir, embarcados para o Novo Mundo. No século
XVII, encerrado o ciclo de Guiné, começa o ciclo de Angola, durante o qual
cerca de 600 mil escravos foram trazidos para o Brasil. Eram, quase todos, do
grupo Banto: congos (ou cabindas), benguelas e ovambos e foram introduzidos
em Pernambuco e no Rio de Janeiro, de onde partiriam para Minas Gerais e São
Paulo.
No alvorecer do século XVIII, inicia-se o ciclo da Costa da Mina (hoje Benin
e Daomé), durante o qual cerca de 1,3 milhão de escravos foram trazidos para o
Brasil. Nesse período, os povos escravizados eram sudaneses: iorubás (ou
nagôs), jejes (ou daomeanos), minas, hauçás, tapas e bornus. Nessa época, os
traficantes lusos, holandeses, espanhóis e ingleses já haviam sido amplamente
superados pelos brasileiros. O ciclo da Costa da Mina perdurou até 1815, quando
o tráfico de escravos no Atlântico passou a ser duramente reprimido pela
Inglaterra. De 1815 até 1851, mesmo ilegal, o tráfico persistiu e, de acordo com
alguns estudiosos, em quantidades e condições ainda mais amedrontadoras que
antes (veja capítulo 20). Na terceira e na quarta fases do tráfico, era o Rio de


E
Janeiro e não mais Salvador o grande centro escravista brasileiro. Os escravos
eram desembarcados no porto, pagavam impostos como qualquer mercadoria
(cerca de três mil-réis, ou 5% de seu valor) e eram postos à venda nos mercados
na rua do Valongo (hoje Camerino, no centro da cidade). Lá permaneciam “nus,
cabelos raspados, parecendo objetos medonhos (…) marcados com ferro quente
no peito (…) cobertos de feridas extensas e corrosivas (…) com fisionomias
estúpidas e pasmas”, esperando comprador. Até mulheres “iam às compras”.
“Vão enfeitadas”, escreveu o inglês Robert Walsh, em 1828, “sentam-se,
manipulam e examinam suas compras, e levam-nas embora com a mais perfeita
indiferença, como se estivessem comprando um cão ou uma mula”. A
preferência recaía nos negros “minas”: os bantos eram considerados mais fracos
e suscetíveis a doenças. “Fortes” ou “fracos”, quase nenhum deles completaria
uma década trabalhando no Brasil.
O TRABALHO E OS DIAS
les eram plantadores e moedores de cana, derrubadores de mata e
semeadores de mudas; eram vaqueiros, remeiros, pescadores, mineiros e
lavradores; eram artífices, caldeireiros, marceneiros, ferreiros, pedreiros e
oleiros; eram domésticos e pajens, guarda-costas, capangas e capitães do mato;
feitores, capatazes e até carrascos de outros negros. Estavam em todos os
lugares: nas cidades, nas lavouras, nas vilas, na mata, nas senzalas, nos portos,
nos mercados, nos palácios. Carregavam baús, caixas, cestas, caixotes, lenha,
cana, quitutes, ouro e pedras, terra e dejetos. Também transportavam cadeirinhas,
redes e liteiras onde, sentados ou deitados, seus senhores passeavam (ou até
viajavam). Eles eram, de acordo com o jesuíta Antonil, “as mãos e os pés dos
senhores de engenho”.
Mas, no Brasil, os escravos foram ainda mais do que isso: foram os olhos e os
braços dos donos de minas; foram os pastores dos rebanhos e as bestas de carga;
foram os ombros, as costas e as pernas que fizeram andar a Colônia e, mais
tarde, o Império. Foram o ventre que gerou imensa população mestiça e o seio
que amamentou os filhos dos senhores. Deixaram uma herança profunda: em
500 anos de história, o Brasil teve três séculos e meio de regime escravocrata
contra apenas um de trabalho livre.


U
Que consequências teve esse legado? Onde começa e para onde conduz?
Quais são suas origens? Já houve quem arriscasse uma explicação: “Se há um
povo dado à preguiça, sem ser o português, então não sei eu onde ele exista (…)
Esta gente tudo prefere suportar a aprender uma profissão qualquer”, escreveu o
humanista flamengo Nicolau Clenardo ao visitar Portugal em 1535. É
elucidativo que, em Portugal, o verbo “mourejar” tivesse se tornado sinônimo de
“trabalhar”. Se no Reino era assim, pior ficou no trópico.
Em 1808, ao visitar o Brasil, John Luccock, um inglês, comentou que os
brancos se sentiam “fidalgos demais para trabalhar em público”. Meio século
depois, Thomas Ewbank, também britânico, dizia que, no Brasil, “um jovem
preferiria morrer de fome a abraçar uma profissão manual”. Segundo ele, a
escravidão tornara “o trabalho desonroso – resultado superlativamente mau, pois
inverte a ordem natural e destrói a harmonia da civilização”. As críticas não
eram arrogância britânica: para Luís Vilhena, mestre português que ensinava
grego na Bahia, o Brasil era o “berço da preguiça”.
MAMA ÁFRICA
m dos maiores países mestiços do mundo, o Brasil foi gerado também em
ventre escravo. Raras seriam as sociedades coloniais nas quais houve
tamanho intercurso sexual entre senhores e suas escravas como nos trópicos
brasileiros. A partir do instante em que o número de “fêmeas” vindas da África
aumentou, e o trabalho forçado adquiriu feições também domésticas, muitas
escravas foram transferidas da senzala para o seio da casa-grande. Eram amas de
leite e mucamas, “escolhidas dentre as mais limpas, as mais bonitas, as mais
fortes”, como observou Gilberto Freyre em Casa grande & senzala, clássico da
historiografia brasileira quase inteiramente dedicado ao assunto.
No Brasil, como em Portugal, mãe que se prezasse jamais amamentava seu
bebê. Por isso, inúmeros foram os filhos de senhores criados por mães pretas. O
próprio Freyre, no mesmo livro, atribui à amamentação em seio negro a paixão
sexual desenvolvida pelos herdeiros da casa-grande por “mulheres de cor”.
Não parece ser apenas esse aspecto psicológico o que explicaria o assédio às
fêmeas da senzala. Afinal, como comentava o mesmo Freyre, “não existe
escravidão sem depravação sexual. Em primeiro lugar, o próprio interesse


econômico a favorece, criando nos proprietários imoderado desejo de possuir o
maior número possível de crias (….). Joaquim Nabuco colheu em um manifesto
escravocrata de fazendeiros as seguintes palavras, tão ricas de significação: ‘a
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