Brasil, uma história



Baixar 2.26 Mb.
Pdf preview
Página5/193
Encontro22.07.2022
Tamanho2.26 Mb.
#24335
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   193
Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
G
OITACÁ
: Ocupavam a foz do rio Paraíba do Sul. Tidos como os nativos mais
selvagens e cruéis do Brasil, infligiram temor aos portugueses. Grandes canibais
e intrépidos pescadores de tubarão. Eram cerca de 12 mil e não pertenciam ao
grupo Tupi.
T
AMOIO
: Os verdadeiros senhores da baía de Guanabara, aliados dos franceses e
liderados por Cunhambebe e Aimberê, lutaram até o último homem. Eram 70
mil.
C
ARIJÓ
: Seu território ia de Cananeia – SP até a Lagoa dos Patos – RS.
Considerados “o melhor gentio da costa”, foram receptivos à catequese. Isso não
impediu sua escravização em massa por parte dos colonos de São Vicente. Em
1564, participaram de um grande ataque a São Paulo. Eram cerca de 100 mil.
OS TUPINAMBÁ


D
Os Tupinambá constituíam o povo Tupi por excelência – o pai de todos, por assim dizer. As demais
tribos Tupi eram, de certa forma, suas descendentes, embora o que de fato as unisse fosse a teia de
uma inimizade crônica. Os Tupinambá propriamente ditos ocupavam da margem direita do rio São
Francisco até o Recôncavo Baiano. Seriam mais de 100 mil. De todos os povos indígenas litorâneos, é
o mais conhecido. A gravura ao lado mostra um dos seis nativos que, em 1612, capuchinhos franceses
levaram do Maranhão para Paris; abaixo, um dos guerreiros Tupinambá (“muito belicosos, amigos de
novidades e demasiadamente luxuriosos”).
OS TUPINIQUIM
Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contato com cerca de
quinhentos nativos. Eram, se saberia depois, Tupiniquim – uma das tribos do grupo Tupi-Guarani que,
no início do século XVI, ocupava quase todo o litoral do Brasil. Os Tupi-Guarani tinham chegado à
região numa série de migrações de fundo religioso (em busca da “Terra sem Males”), no começo da
Era Cristã. Os Tupiniquim viviam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e Bertioga, em São Paulo.
Eram cerca de 85 mil. Por volta de 1530, uniram-se aos portugueses na guerra contra os Tupinambá-
Tamoio, aliados dos franceses. A aliança durou menos de um século: por volta de 1600, os Tupiniquim
já estavam praticamente extintos, escravizados pelos próprios portugueses ou mortos por doenças
infecciosas que grassaram em seus aldeamentos.
e todos os “costumes bárbaros” que professavam os índios brasileiros
quando da chegada dos colonizadores ao Novo Mundo, nenhum se revelou
mais espantoso ao olhar europeu do que a antropofagia. Ainda que o canibalismo
não fosse prerrogativa dos indígenas e já houvesse, em plena Europa, o registro
de casos ocorridos em épocas de crise e fome, nada conhecido até então se
comparava aos requintes tétricos do chamado “banquete antropofágico” tal como
realizado por quase todos os Tupi e alguns grupos Tapuia.
A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos cativos representavam o
ponto culminante de uma cerimônia cujo sacramento maior, e o objetivo quase
único, era a vingança. O festim canibal foi minuciosamente descrito por
cronistas coloniais, entre os quais o pastor calvinista Jean de Léry, o franciscano
André Thevet e o capuchinho Claude Abbeville – os três, franceses. A narrativa
mais impressionante, porém, foi feita pelo mercenário alemão Hans Staden,
prisioneiro dos Tupinambá entre 1554 e 1557. Graças a eles – e aos estudos
realizados nas primeiras décadas do século XX pelo antropólogo francês Alfred


Métraux –, é possível reconstituir, passo a passo, as etapas do banquete.
A vítima era capturada no campo de batalha e pertencia àquele que primeiro a
houvesse tocado. Triunfalmente conduzido à aldeia do inimigo, o prisioneiro era
insultado e maltratado por mulheres e crianças. Tinha de gritar: “Eu, vossa
comida, cheguei.” Após essas agressões, porém, era bem tratado, recebia como
companheira uma irmã ou filha de seu captor e podia andar livremente – fugir
era uma ignomínia impensável. O cativo passava a usar uma corda presa ao
pescoço: era o calendário que indicava o dia de sua execução – o qual podia
prolongar-se por muitas luas (e até por vários anos). Quando a data fatídica se
aproximava, os guerreiros preparavam ritualmente a clava com a qual a vítima
seria abatida. A seguir, começava o ritual que se estendia por quase uma semana
e do qual participava toda a tribo, das mulheres aos guerreiros, dos mais velhos
aos recém-nascidos.
Na véspera da execução, ao amanhecer, o prisioneiro era banhado e depilado.
Depois, deixavam-no “fugir”, apenas para recapturá-lo em seguida. Mais tarde, o
corpo da vítima era pintado de preto, untado de mel e recoberto por plumas e
cascas de ovos. Ao pôr do sol, iniciava-se uma grande beberagem de cauim – um
fermentado, ou “vinho”, de mandioca.
No dia seguinte, pela manhã, o carrasco avançava pelo pátio, dançando e
revirando os olhos. Parava em frente ao prisioneiro e perguntava: “Não pertences
à nação… (tal ou qual), nossa inimiga? Não mataste e devoraste, tu mesmo,
nossos parentes?” Altiva, a vítima respondia: “Sim, sou muito valente, matei e
devorei muitos…” Replicava, então, o executor: “Agora estás em nosso poder;
logo serás morto por mim e devorado por todos.” Para a vítima, aquele era um
momento glorioso, já que os indígenas brasileiros consideravam o estômago do
inimigo a sepultura ideal. O carrasco desferia então um golpe de tacape na nuca
da vítima. Velhas recolhiam, numa cuia, o sangue e os miolos: o sangue devia
ser bebido ainda quente. A seguir, o cadáver era assado e escaldado, para
permitir a raspagem da pele. Introduzia-se um bastão no ânus, para impedir a
excreção. Os membros eram esquartejados e, depois de feita uma incisão na
barriga do cadáver, as crianças eram convidadas a devorar os intestinos. A
seguir, retalhava-se o tronco, pelo dorso. Língua e miolos eram destinados aos
jovens. Os adultos ficavam com a pele do crânio e as mulheres com os órgãos
sexuais. As mães embebiam o bico dos seios em sangue e amamentavam os


O
bebês. As crianças eram encorajadas a besuntar as mãos no sangue vertente e
celebrar a consumação da vingança. Os ossos do morto eram preservados; o
crânio, fincado numa estaca, ficava exposto em frente à casa do vencedor; os
dentes eram usados como colar e as tíbias transformavam-se em flautas e apitos.
UMA FESTA BRASILEIRA NA FRANÇA
profundo impacto que os indígenas brasileiros provocaram nos viajantes
europeus, ao serem vistos – desnudos, pintados, dançando (e eventualmente
devorando uns aos outros) – nas praias do Novo Mundo, seria largamente
amplificado assim que alguns deles foram levados para a Europa e exibidos nas
cortes. O primeiro teria embarcado já na naveta que Cabral fez retornar a
Portugal com a notícia da descoberta – pelo menos de acordo com o relato que o
padre Simão de Vasconcelos escreveu em 1658 (mais de 150 anos depois
daqueles acontecimentos, portanto): “E foi recebido com alegria do Rei e do
Reino. Não se fartavam os grandes e pequenos de ver e ouvir o gesto, a fala, os
meneios daquele novo indivíduo da geração humana. Huns o vinhão a ter por um
Semicapro, outros por um Fauno, ou por alguns daqueles monstros antiguos,
entre poetas celebrados.”
A surpresa não foi exclusividade portuguesa: já em 1504, o francês Paulmier
de Goneville levou para a França o filho de um líder Carijó, chamado Essomeriq
(supostamente “Içá-Mirim”). Ele seria apenas o primeiro de uma longa série de
nativos conduzidos a Paris, Rouen e Dieppe durante as seis décadas que os
franceses frequentaram as costas brasileiras, traficando pau-brasil e
permanentemente dispostos a estabelecer uma colônia em pleno coração do
território português, fosse no Rio, fosse no Maranhão.
Mas nenhuma iniciativa dos franceses envolvendo os nativos do Brasil pode
ser comparada, em assombro e magnificência, à chamada “Festa Brasileira em
Rouen”. Dispostos a impressionar o rei Henrique II e a rainha Catarina de
Médici – e convencê-los a investir mais nas expedições “ilegais” ao Brasil –, os
armadores e os comerciantes de Rouen prepararam uma impressionante
celebração quando da visita real à cidade, no dia 1º de outubro de 1550. Em uma
área, às margens do rio Sena, montaram uma autêntica maquete das terras
brasileiras: as árvores foram enfeitadas com flores e frutos trazidos do Brasil, o


O
cenário ficou repleto de micos, saguis e papagaios. Entre as malocas indígenas,
desnudos e bronzeados, andavam trezentos homens e mulheres. Pelo menos
cinquenta eram Tupinambá genuínos, trazidos da Bahia ou do Maranhão
especialmente para a comemoração. Os demais eram marinheiros normandos
que conheciam bem o Brasil, fluentes em tupi e habituados no trato com os
nativos. As mulheres foram recrutadas entre as prostitutas locais.
Era mais do que uma exibição: era um quadro vivo. E, desde o início, havia
ação: indígenas e figurantes caçavam, pescavam, namoravam nas redes, colhiam
frutas e carregavam o pau-brasil. E então, subitamente, no clímax do espetáculo,
a aldeia Tupinambá foi assaltada por um bando de Tabajara – índios que, no
Brasil, eram aliados dos portugueses. Ocas foram incendiadas, canoas viradas,
árvores derrubadas. Houve um combate simulado, ainda que feroz, ao fim do
qual os Tabajara haviam sido amplamente derrotados. Na plateia, além do rei e
da rainha franceses, estavam também a rainha Mary Stuart, da Escócia, duques,
condes e barões, os embaixadores da Espanha, da Alemanha, de Portugal e da
Inglaterra, bispos, prelados, cardeais e inúmeros príncipes, além de Nicolas
Villegaignon, futuro líder da chamada “França Antártica” –, todos assombrados
com aquela espetacular representação da vida nos trópicos: o primeiro show
brasileiro na Europa.
Durante décadas os indígenas brasileiros continuariam causando sensação na
França. Em 1613, três deles tocaram maracas na composição que Gautier, um
músico da corte, fez para homenagear os Tupinambá. Mais tarde, inspirando um
outro tipo de homenagem – desta vez, filosófica.
O MITO DO BOM SELVAGEM
principal legado da atribulada relação entre Brasil e França durante o
período colonial não foi político nem econômico: deu-se no campo das
ideias. É provável que tenha sido a frequente presença de nativos brasileiros em
cidades portuárias francesas, como Dieppe, Rouen e Saint-Malo, a principal
responsável pelo surgimento do mito do bom selvagem – tese que, dois séculos
depois de seu aparecimento, adquiriria contornos revolucionários e se
transformaria num dos motores da Revolução Francesa. Pelo menos essa é a
instigante ideia defendida pelo escritor Afonso Arinos de Mello Franco no


saboroso ensaio O índio brasileiro e a Revolução Francesa – As origens

Baixar 2.26 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   193




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal