Brasil, uma história


parte na corrida ao ouro eram “a escória do Brasil e de Portugal”. Nas minas



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

parte na corrida ao ouro eram “a escória do Brasil e de Portugal”. Nas minas,
matava-se por tudo e por nada. Nas minas, travou-se a terrível Guerra dos
Emboabas. Nas minas, mais tarde, quando o ouro ainda reinava, foram
descobertos diamantes – e o ciclo se reiniciou, tão alucinado e voraz quanto
antes. Nas minas, nasceu um gênio cuja arte eternizou – em altares, estátuas e
capitéis – o esplendor de uma época de excessos e esperança. A obra do
Aleijadinho é um dos parcos legados dos áureos dias do Brasil.
O MAPA DA MINA
or 200 anos, mais do que uma obsessão, o ouro – ou a ausência dele – fora
uma maldição para os portugueses que viviam no Brasil. Ao contrário do que
acontecia nos territórios conquistados pela Espanha, não parecia haver, na terra
do pau-brasil, “coisa de metal algum” como diagnosticara, já em 1502, o
florentino Américo Vespúcio. O padrinho do Novo Mundo fora mais cético do
que o primeiro cronista do Brasil. Em abril de 1500, ao redigir sua carta para o
rei D. Manuel, Pero Vaz de Caminha revelava toda a esperança dos
descobridores em achar o “fulvo metal” na terra nova: o simples fato de um
indígena ter olhado para o colar de ouro que ornamentava o peito de Cabral e,
em seguida, apontar para as montanhas, foi tomado como sinal inequívoco de
que, naquelas serranias, deveria haver ouro, muito ouro. A ilusão perduraria por
dois séculos – e reclamaria muitas vidas antes de se tornar uma espantosa


realidade.
Embora algumas pepitas tenham sido encontradas no sopé do pico do
Jaraguá, em São Paulo, em 1590, e certos ribeiros do litoral do Paraná
revelassem areia aurífera, o fato é que, até 1693, no Brasil quase nada que
refulgia era ouro – com exceção, é claro, da pedra conhecida como “ouro dos
tolos”, a pirita. No entardecer do século XVII, porém, Portugal e Brasil se
encontravam numa crise financeira tão profunda que, em 1674, o próprio regente
Pedro II (coroado rei em 1683) escrevera aos “homens bons” da vila de São
Paulo, encorajando-os a partir para o sertão em busca de metais. Não dissera, em
1519, o capitão Hernán Cortez ao líder asteca Montezuma que os espanhóis
sofriam de uma “doença do coração que só o ouro pode curar”? Um século e
meio mais tarde, Portugal e Brasil pareciam de tal forma enfermos que só um
Eldorado poderia salvá-los. Pois ele existia e logo seria encontrado – embora
trouxesse consigo outras moléstias.
Alguns historiadores acham que “os efeitos psicológicos” que as missivas
reais de Pedro II teriam exercido sobre os onze sertanistas que as receberam não
devem ser desconsiderados. Mas o fato é que aos bandeirantes de São Paulo não
restava outra forma de manter suas vidas nômades senão caçando ouro: seus
“currais” indígenas estavam esgotados. Ao rei também não sobrava outra opção:
anos antes, enquanto perdurava a União Ibérica, foram enviados da Corte
especialistas em minas para estudar as potencialidades minerais do Brasil. O
único deles que resistiu às agruras do sertão – o espanhol Rodrigo Castelo
Branco – foi assassinado por Borba Gato, genro de Fernão Dias, assim que
chegou à mina que o “caçador de esmeraldas” acabara de descobrir. Depois
desse crime sem castigo, quem não fosse bandeirante e paulista não se arriscaria
a percorrer os ermos do Brasil. Aos paulistas caberia a façanha de encontrar a
maior jazida de ouro já descoberta no mundo. Mas não seriam eles que lucrariam
com ela.
A discussão acadêmica sobre qual o primeiro ouro descoberto nas Gerais é
tamanha que não restam dúvidas de que os achados foram simultâneos, o que
indica também que havia várias expedições percorrendo a serra da Mantiqueira e
os vales dos rios das Velhas e das Mortes em busca do metal. Borba Gato teria
sido o primeiro a achar ouro, mas, após o crime de lesa-majestade que cometera,
fora obrigado a se esconder em matos remotos. Em 1693, por sua vez, chegava


ao Espírito Santo o paulista Antônio Ruiz de Arzão “com cinquenta e tantas
pessoas, entre brancos e Carijó domésticos de sua administração, todos nus e
esfarrapados, sem pólvora ou chumbo”: vinham do sertão de Minas, onde,
durante a caça aos escravos, haviam sido duramente atacados por ferozes
cataguás.
A expedição, porém, fora vitoriosa: entre os trapos que o cobriam, Arzão
trazia dez gramas de ouro. Impossibilitado de voltar ao sertão, deu o mapa da
mina para o cunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira (que, pouco antes, perdera
toda sua herança no jogo). Siqueira partiu no rumo indicado e em janeiro de
1695 precisou informar que o ouro não era mais miragem.
A “grandeza das lavras” e a “fertilidade das minas” eram evidentes, e
Siqueira teve de comunicar isso ao governador do Rio, Castro e Caldas. Em fins
de 1696, já se contavam aos milhares os paulistas que saíam de Taubaté (ponto
de partida de Arzão e Siqueira) rumo ao “sertão dos Cataguases”, do outro lado
da Mantiqueira.
A jornada até as minas durava cerca de dois meses e meio, e o roteiro
conduzia de Taubaté a Lorena (via Guaratinguetá). Do vale do rio Paraíba,
cruzava-se a serra da Mantiqueira pela garganta do Embaú, atingindo-se, então,
os três principais polos mineradores: nas nascentes do rio das Mortes, tendo por
centro São João del Rei; na região de Ouro Preto e Mariana, na serra do Tripuí; e
no Sabará e sua vizinha Caeté. Em 1699, Garcia Rodrigues Pais (filho de Fernão
Dias) abriu um caminho bem mais curto, por meio do qual o percurso entre o
Rio de Janeiro e as minas podia ser vencido em apenas quatorze dias.
Naquela época, a região já estava povoada por toda espécie de aventureiros:
levas incessantes de peregrinos que partiam de todos os cantos do Brasil, “os
mais pobres deles só com suas pessoas e o seu limitado trem às costas”. De
acordo com esse mesmo cronista, eram “indivíduos tão alucinados que, vindos
de distância de 30 ou 40 dias de jornada, partiam sem privilégio algum – assim,
pelo caminho, muitos acabaram de irremediável inanição e houve quem matasse
o companheiro para lhe tomar uma pipoca de milho”.
Um grande surto de fome assolou as minas em 1696-1698. Muitos mineiros,
com os alforjes cheios de ouro, morreram sem encontrar um pedaço de
mandioca, pelo qual dariam uma pepita. Mas os horrores da fome seriam apenas
os primeiros a acometer o efervescente sertão dos Cataguás e as fulgurantes


A
“minas de Taubaté”. Enquanto a terra ia sendo escavada, novas desgraças
estavam sendo fermentadas.
A GUERRA DOS EMBOABAS
pesar da fome que assolou as Minas em 1696-1698 ter sido terrível, uma
crise de desabastecimento ainda mais devastadora se abateria sobre a região
em 1700. Três anos depois da descoberta das primeiras jazidas, cerca de seis mil
pessoas tinham chegado às minas. Na virada do século XVIII, esse número
quintuplicara: 30 mil mineiros perambulavam pela área. Simplesmente não havia
o que comer: qualquer animal ou vegetal que pudesse ser consumido já o fora.
“Chegou a necessidade a tal extremo que se aproveitavam de imundos animais,
e, faltando-lhes esses para poderem alimentar a vida, largaram as minas e
fugiram para os matos para comerem cascas e raízes”, relatou o governador
Artur de Sá à Corte, em 1701. Foram devorados sapos, içás, cobras e “bichos
mui alvos criados em paus podres”, cuja ingestão às vezes era fatal aos famintos.
Formigas tostadas viraram uma iguaria comparada à “melhor manteiga de
Flandres”. Os preços de qualquer comestível que chegava à região se tornaram
exorbitantes: quando os baianos abriram o caminho que, pelas margens do São
Francisco, conduzia ao polo minerador, um boi, que em Salvador valia 4 mil-
réis, era revendido nas Minas por 96 mil-réis. No Caeté, uma galinha valia 14
gramas de ouro.
O pior estava por vir. “Morreu muita gente naquele tempo, de doença e
necessidades e outros que os matavam para os roubar, na volta, que levavam
ouro (…) matavam uns aos outros pela ambição de ficarem com ele, como
aconteceu em muitos casos”, anotou uma testemunha. Em 1707, o previsível
aconteceu: rebentou a guerra nas Gerais. De um lado, os paulistas; de outro, os
“forasteiros”, chamados de emboabas.
A Guerra dos Emboabas prolongou-se por quase três anos e deixou duas
centenas de mortos. Seus episódios são confusos e contraditórios, e os relatos da
época foram redigidos por partidários de uma facção ou de outra. A seguir, o
resumo do conflito e seus desdobramentos:

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