Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Os dois aspectos mais conflitantes entre os modelos colonialistas estabelecidos por Holanda
e Portugal já foram longamente estudados no Brasil. Já em 1907, Capistrano de Abreu
observava que o fato de os holandeses dominarem facilmente as cidades do Nordeste e nunca
terem conquistado o interior – e a ação inversa posterior: os lusos reconquistavam as zonas
rurais, mas eram incapazes de tomar as cidades – revelava que os primeiros eram homens
urbanos, ao passo que os portugueses tinham vocação rural. Natural, portanto, que, ao longo
do período holandês, estourasse um conflito entre os senhores de engenho luso-brasileiros e
os comerciantes holandeses. Na colônia portuguesa, predominavam os interesses dos
plantadores; na holandesa, os dos negociantes.


E
Capítulo
10
A CORRIDA DO OURO
mbora não tenha havido um Jack London para eternizá-la em meia dúzia
de obrasprimas da literatura, nem uma indústria como a de Hollywood
para transformá-la numa epopeia dramática, o fato é que o Brasil não
apenas teve a sua corrida do ouro como ela foi, no mínimo, tão dinâmica,
vertiginosa e rentável quanto aquela que, em 1848, determinou a ocupação da
Califórnia e a que, meio século depois, exportou para os confins gelados do
Alasca todos os horrores da civilização. Como em suas equivalentes norte-
americanas, a febre do ouro que tomou conta do Brasil, no crepúsculo do século
XVII, revolucionou a colônia de todas as formas concebíveis: provocou um
imenso e desordenado êxodo populacional que esvaziou as cidades; causou um
considerável aumento no preço dos escravos, dos rebanhos e dos víveres; forçou
reformas políticas de vulto; levou milhares de indígenas à extinção e abriu novos
caminhos de penetração, incorporando regiões até então ermas e inexploradas.
Fez mais: ajudou a enfraquecer o ciclo do açúcar, deixando plantações entregues
às ervas daninhas.
Embora sua ressonância internacional seja, hoje, virtualmente nula, em seu
auge a corrida do ouro brasileira revolucionou o mundo ocidental. Ainda assim,
quase todo o metal arrancado das entranhas das Minas Gerais cruzou Lisboa
apenas de passagem: as artimanhas do Tratado de Methuen, assinado em 1703,
fizeram com que o minério brasileiro fosse parar na Inglaterra – e lá ajudasse a
financiar a Revolução Industrial da mesma forma como, um século antes, o ouro
e a prata saqueados dos astecas e dos incas ajudaram a incrementar a revolução
mercantilista.
É impossível quantificar os números da corrida do ouro de Minas Gerais,
uma vez que, desde o início, o contrabando revelou-se mais constante e eficiente
do que as normas para impedi-lo. Ainda assim, sabe-se com certeza que as
descobertas de 1693-1694 de imediato tornaram o Brasil o maior produtor


P
mundial de ouro da época. As estatísticas são muito variáveis, mas calcula-se
que cerca de 84 toneladas do metal foram extraídas – sem auxílio mecânico –
entre 1700 e 1799 (foram 27 toneladas entre 1752 e 1787; para fins
comparativos: na década de 1980, Serra Pelada produziu 35 toneladas).
A massa humana que se dirigiu às minas entre 1700 e 1720 foi superior a 150
mil pessoas, das quais mais de cem mil eram escravos. Ao longo do século
XVIII, cerca de 430 mil paulistas, cariocas, baianos, portugueses, indígenas e
negros da Guiné ou de Angola percorreram as trilhas escabrosas que separavam
o litoral do Sudeste do Brasil das serras da fortuna e da danação. “Todos os
vícios tiveram morada na região das minas. Todas as paixões desencadearam-se
ali; ali se cometeram todos os crimes”, escreveu, um século mais tarde, o
viajante francês Auguste de Saint-Hilaire, para quem aqueles que tinham tomado
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