Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Companhia das Índias Ocidentais deve tentar tirar ao rei da Espanha a terra do
Brasil e a lista do que o Brasil pode produzir. Estavam também atacando velhos
parceiros comerciais.
Antes da União Ibérica, Portugal e Holanda mantinham intenso comércio.
Em Lisboa, os batavos adquiriam vinho, drogas do Oriente e principalmente o
sal de Setúbal, fundamental para sua florescente indústria pesqueira. Em troca,
deixavam trigo, peixe, queijo, aparelhos náuticos, metais e tecidos. Com o início
da lavoura de açúcar no Brasil, esses laços comerciais se estreitaram ainda mais:
praticamente todo o açúcar produzido no Brasil era refinado na Holanda e dali
distribuído para o resto da Europa. O primeiro engenho do Brasil fora de um
banqueiro holandês – e a maioria dos que vieram a seguir, financiada por eles.
Por volta de 1621, só em Amsterdã havia 25 refinarias de açúcar.
Mas desde 1568 a Holanda estava em guerra com a Espanha – e obteve a
independência nas sete colônias do Norte em 1579, um ano antes de Portugal ser
absorvido pelos espanhóis (a independência total só viria em 1648). Ao capturar
muitos navios holandeses em Lisboa, Filipe II acabou com as trocas entre lusos e
batavos. Em 1609, espanhóis e holandeses firmaram uma trégua de doze anos.
Graças a essa circunstância, apenas nesse período, 50 mil caixas de açúcar
saíram do Brasil para a Holanda – cada caixa continha 525 quilos. Finda a trégua
em 1621, os holandeses se recusaram a abrir mão daquela extraordinária fonte de
renda. O ataque ao Brasil foi, então, proposto pela recém-fundada Companhia
das Índias Ocidentais. Mas o tiro saiu pela culatra.
Embora Salvador fosse tomada em 24 horas, os holandeses não puderam
conquistar o interior da Bahia. A resistência de lusos e brasileiros – liderada por
Matias de Albuquerque – foi feroz na zona rural e se baseou nas táticas da
guerra brasílica, ou guerra de guerrilhas. Em 22 de março de 1625, os espanhóis
enviaram a Salvador a maior frota que já cruzara o Equador (52 navios com doze
mil homens). Encurralados, os holandeses capitularam no dia 1º de maio. Mas
eles logo retornariam.
COMPANHIA DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS
A invasão do Brasil foi um plano articulado pela Companhia das Índias Ocidentais (WIC, West


A
Indische Compagnie), fundada em junho de 1621 nos moldes de sua congênere, a Companhia das
Índias Orientais (criada em 1602). Com capital inicial de sete milhões de florins, a WIC era uma
sociedade de capital aberto que obteve o monopólio, por 24 anos, da exploração da América e da
África. A maior parte dos acionistas eram pequenos investidores – calvinistas convictos fugidos do sul
dos Países Baixos para Amsterdã. O conselho administrativo da WIC era composto por dezenove
diretores: dezoito escolhidos por conselhos regionais e um pelo governo central. Ao contrário de sua
antecessora, a WIC deu poucos lucros: só em 1628, com a captura da frota anual da prata da Espanha
pelo corsário Pieter Heyn, a Companhia pôde pagar dividendos aos acionistas. Foi esse o capital que
permitiu a invasão de Pernambuco, depois que os holandeses foram expulsos da Bahia. Embora tenha
conquistado em Angola os portos de onde vinham os escravos e levado as técnicas de plantio de cana-
de-açúcar para as Antilhas, a WIC foi deficitária. Tanto que, em 1674, decidiu vender para os ingleses
uma ilha chamada Manhattan.
O TEMPO DE NASSAU
invasão da Bahia só trouxe prejuízos para a nascente Companhia das Índias
Ocidentais. Em 1628, porém, a companhia capturou, ao largo de Cuba, a
frota anual da prata espanhola e obteve um butim de 14 milhões de florins (o
dobro de seu capital inicial). Enriquecida, a WIC planejou nova invasão ao
Brasil. O alvo escolhido desta vez foi a maior e mais rica região produtora de
açúcar do mundo. Além de possuir 130 engenhos (responsáveis por mil
toneladas de açúcar/ano), Pernambuco era uma capitania particular, e não real,
sendo, portanto, mal aparelhada na sua defesa. No dia 15 de fevereiro de 1630,
uma armada com 77 navios, sete mil homens e 170 peças de artilharia surgiu
diante de Marim – também chamada de Olinda. Embora a resistência do
governador Matias de Albuquerque (neto do velho donatário Duarte Coelho)
fosse, mais uma vez, heroica – e, antes de partir, ele ainda conseguisse incendiar
24 navios fundeados no porto –, o Recife foi rapidamente tomado. Dessa vez, a
ocupação iria durar mais de vinte anos.
O domínio holandês em Pernambuco (de onde se estendeu para sete das então
dezenove capitanias que constituíam o Brasil) divide-se em três fases. A
primeira, de 1630 a 1637, seria marcada pela valorosa resistência dos luso-
brasileiros no interior. De 1637 a 1644, o Brasil holandês floresce em relativa
paz: é o chamado “período nassoviano”. De 1645 a 1654, trava-se a guerra que
resultaria na expulsão dos invasores. Três séculos e meio depois, a experiência
holandesa no Brasil continua associada ao tempo de Nassau.
Johann Mauritius van Nassau-Siegen nasceu em 17 de agosto de 1604, em


Dillenburg, na Alemanha. Era neto do conde João VI, por sua vez irmão do
príncipe Guilherme de Orange, fundador dos Países Baixos. Pelo lado da mãe,
seu bisavô foi Cristiano III, rei da Dinamarca. Embora ingressasse aos 14 anos
na carreira militar, Nassau teve formação humanista: na Universidade da
Basileia, estudou teologia, filosofia, matemática, música, ciências de guerra,
boas maneiras, esgrima e equitação. Tornou-se coronel aos 25 anos, lutou contra
a Espanha, encomendou quadros de Rembrandt e iniciou a construção de uma
mansão em Haia. Em agosto de 1636, foi convidado pela WIC para ser
governador-geral do Brasil holandês. Como o salário de 1.500 florins mensais
(mais um adiantamento de 15 mil florins e 2% sobre o total das presas de guerra)
fosse atraente – e os gastos com sua nova casa, grandes –, Nassau aceitou. Em
23 de janeiro de 1637, chegou ao Recife, com três mil soldados, oitocentos
marinheiros e seiscentos indígenas e negros.
PALÁCIO DAS TORRES

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