Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
O desastre se deu no dia 4 de agosto de 1578 – no mesmo deserto, no mesmo reino e a poucos
quilômetros do local onde, 163 anos antes, Portugal dera início à sua expansão planetária. Em 1415,
depois de garantir a independência de seu país, D. João I ordenara a conquista de Ceuta, no
Marrocos. A vitória marcaria o começo glorioso do império luso. Quase dois séculos depois, o jovem
rei D. Sebastião (à direita), contrariando os conselhos que recebera na corte, armou uma esquadra
com 800 embarcações e partiu para aquela que seria a última aventura cruzadista da Europa na
África. Seria também uma das derrotas mais trágicas da cristandade: naquele dia de agosto, nas
áridas planícies de Alcácer-Quibir, o exército de D. Sebastião foi destroçado pela cavalaria
muçulmana.
O rei morreu na linha de frente, depois de perder o cavalo. Seu corpo jamais foi encontrado. Com D.
Sebastião sucumbiu a fina flor da nobreza portuguesa, incluindo os filhos de Martim Afonso de Souza,
de Duarte Coelho e de Duarte da Costa. O império português iria desmoronar em menos de dois anos.
O cardeal D. Henrique, tio de D. Sebastião, tinha 66 anos e governou apenas 17 meses. Morreu sem
que Roma o liberasse do celibato. Com ele acabou-se a dinastia de Avis e se iniciou a dominação
espanhola.
PRIOR DO CRATO
O principal rival de Filipe II na luta pelo trono de Portugal era D. Antônio, prior do Crato, neto
bastardo do rei D. Manuel. Em novembro de 1580, quando se tornou clara a vitória militar e política
do rei da Espanha (que comprara a peso de ouro o apoio de boa parte da nobreza lusa), o prior do
Crato teve de se refugiar no interior do reino de Portugal. Em julho de 1581, conseguiu exilar-se na
Inglaterra e, pouco depois, chegou à França, em busca do apoio da rainha Catarina de Médici,
inimiga de Filipe II. Bem recebido pela rainha-mãe, o prior do Crato iniciou seu contra-ataque. Como
os Açores eram a única possessão que ainda não abraçara a realeza de Filipe, as ilhas estavam
cercadas. Para lá, o prior conseguiu enviar, junto com poucos navios da Marinha portuguesa que
ainda se mantinham fiéis a ele, uma frota armada por Catarina.
Documentos publicados em 1608 revelam que, para obter o apoio da ardilosa rainha, o prior do Crato
teria oferecido o Brasil de presente a Catarina. Embora para alguns historiadores os documentos
pareçam ser insuficientes para comprovar que D. Antônio tivesse plena consciência das intenções da
rainha, o fato é que, depois de vencer a frota espanhola, a armada francesa, chefiada pelo almirante
Philippe Strozzi, deveria seguir para o Brasil e tomar posse da colônia. Em 25 de julho de 1582,
porém, Strozzi foi vencido nos Açores, e a França perdeu, outra vez, a chance de conquistar o Brasil.
Em 1595, só e derrotado, D. Antônio morreu na França.


R
E
A RESTAURAÇÃO PORTUGUESA
ei morto, rei posto, viva o rei. Assim reagiram as autoridades coloniais do
Brasil no instante em que souberam que o duque de Bragança, descendente
de antigos reis portugueses, reconquistara a independência de Portugal,
comandando a revolução de 1º de dezembro de 1640 e logo sendo aclamado
como D. João IV, fundador da casa de Bragança. Bancarrota financeira,
equívocos políticos e a Guerra dos 30 anos (complexo conflito religioso travado
basicamente contra França e Suécia) haviam enfraquecido o grande império
espanhol, debilmente conduzido por Filipe IV. As circunstâncias se revelaram
favoráveis, e a revolução desencadeada por D. João IV foi rápida e incruenta. A
notícia da restauração portuguesa chegou ao Brasil dois meses e meio depois, em
15 de fevereiro de 1641. O vice-rei do Brasil era o marquês de Montalvão –
herói lusitano das guerras contra a Holanda, que, no entanto, havia sido
escolhido para o cargo e nele empossado por Filipe IV.
Quando comunicaram a Montalvão as transformações políticas na corte, ele
se reuniu com seus vereadores e, depois de uma breve votação, D. João IV foi
aclamado também no Brasil. As autoridades castelhanas (algumas vivendo há
mais de 30 anos no Brasil) foram, de imediato, encarceradas. No Rio, vivia
aquele que talvez fosse o homem mais importante do país: o governador
Salvador Correia de Sá e Benevides. Filho de mãe espanhola e, ele próprio,
casado com uma castelhana, Sá também acabaria aderindo ao novo regime, após
alguma hesitação. Mas as maiores complexidades ocorreram em São Paulo:
como na cidade viviam muitos espanhóis, parte da população decidiu rebelar-se
contra o novo governo português e proclamou a soberania da capitania de São
Paulo, aclamando como seu líder o paulista Amador Bueno, que passaria à
história como o homem que não quis ser rei. Bueno jurou fidelidade a D. João IV
e mandou prender os conspiradores.
A COLÔNIA DE SACRAMENTO
m nenhum outro lugar de seus imensos impérios mundiais Portugal e
Espanha travaram tão longos e sangrentos combates por questões de limites
quanto na pequena Colônia do Sacramento, plantada às margens do Rio da Prata,
bem defronte de Buenos Aires. Descoberto pelo português João de Lisboa em


P
1514, mas conquistado por Juan Díaz de Solis em 1516, o Rio da Prata sempre
foi tido como a porta de entrada para as riquezas do Peru – e, por isso mesmo,
visto como o ponto mais importante da costa meridional da América do Sul.
Embora, de acordo com o Tratado de Tordesilhas, a região ficasse dentro de
território espanhol, os diplomatas lusos lutavam para impor, em cortes
internacionais, a teoria da “ilha Brasil”: a possessão portuguesa na América
deveria ser delimitada, ao norte, pela foz do Amazonas e, ao sul, pela do Prata,
rios que, segundo a geografia mitológica da época, teriam sua nascente comum
num lago localizado algures, no interior do continente. Durante os anos da União
Ibérica, intensas ligações e fortes interesses comerciais haviam aproximado o
Sul do Brasil da região do Prata.
Quando Portugal recuperou a independência, os paulistas e os demais
habitantes das “capitanias de baixo” do Brasil não se sentiram dispostos a abrir
mão de suas lucrativas conexões platinas: o contrabando de couro trocado pelo
contrabando de prata. A cena conflitante estava armada. Em 1679, partiu de
Santos uma expedição comandada por Manuel Lobo com ordens para fundar um
povoamento português às margens do grande rio. No dia 20 de janeiro de 1680,
numa pequena ilhota chamada São Gabriel, surgia a pequena colônia batizada do
Sacramento. Os espanhóis não precisaram mais que sete meses para obter
permissão judicial para atacar o estabelecimento. Em 8 de agosto, depois de um
terrível combate, conhecido como Noite Trágica, um exército hispano-guarani
tomou de assalto a praça, prendeu ou matou cerca de oitenta portugueses e
devastou a nascente povoação. Mas esse seria apenas o primeiro dos sangrentos
episódios que marcariam a história da Colônia: por cerca de cem anos, espanhóis
e lusos lutariam – nos tribunais e no campo de batalha – pela posse da primeira
“zona franca” da América do Sul.
PIRATAS E CORSÁRIOS INGLESES
or mais de duas décadas, a apavorante bandeira negra com o crânio e as duas
tíbias tremulou, pressaga e amedrontadoramente, diante de várias cidades da
costa brasileira. Embora a presença da sinistra bandeira do “Rei Morte” – “the
King Death Banner”, como seus sórdidos súditos o chamavam – jamais viesse a
ser tão frequente e devastadora no Brasil quanto no Caribe, a pirataria inglesa


provocou prejuízo, devastação e morte na Bahia, no Recife, no Rio e em São
Paulo.
O ataque mais famoso foi o de Thomas Cavendish a Santos, no dia de Natal
de 1591. Os trezentos moradores da vila estavam na igreja no instante em que
três dos cinco navios de Cavendish abriram fogo. Pouco depois, entre gritos e
tiros, os piratas tomaram o lugarejo, onde ficaram por dois meses – até não haver
mais o que saquear. Cavendish, marinheiro ousado, o terceiro a circum-navegar
o globo, não era exatamente um pirata, mas um corsário agindo sob as ordens da
rainha Elizabeth. Depois de uma dramática viagem até o estreito de Magalhães,
ele voltou ao Brasil e atacou o Espírito Santo. Foi vencido, oitenta ingleses
morreram no combate, e a vila que o bateu passou a se chamar Vitória.
O primeiro corsário a navegar em águas brasileiras foi William Hawkins,
notório traficante de escravos, membro do Parlamento e amigo do rei Henrique
VIII. Entre 1530 e 1532, ele fez três lucrativas viagens ao Brasil, levando numa
delas, para Londres, um cacique – “um autêntico rei brasileiro”. Seu filho, John
Hawkins, e seu neto, Richard, seguiram a tradição e também fizeram vantajosas
incursões nos mercados negreiros da Guiné e do Brasil.
O primeiro ataque pirata ao litoral brasileiro foi comandado pelos flibusteiros
Robert Withrington e Christopher Lister. Por seis semanas, de abril a junho de
1587, eles assolaram o Recôncavo Baiano. Só foram rechaçados porque o
governador Cristóvão de Barros teve ajuda de “índios flecheiros”. Em 29 de
março de 1595, James Lancaster tomou o porto do Recife e lá permaneceu por
31 dias, carregando seus três navios – e outros doze que “alugou” de franceses e
holandeses que ali encontrou – com tudo o que pôde saquear. Foi a mais
lucrativa das pilhagens ao Brasil, superando até o butim que o infame capitão
Bartholomew Roberts colheu em 1711 do galeão português que zarpara da Bahia
abarrotado de joias, ouro e açúcar.


N
Capítulo
9
O BRASIL HOLANDÊS
uma certa noite de março de 1644, o conde Johann Mauritius van Nassau
(ou João Maurício de Nassau) – governador e mecenas do Brasil
holandês – conclamou o povo do Recife a assistir a uma grande festa
durante a qual, garantiu ele, um boi iria voar. Houve quem logo duvidasse, é
claro. Até os mais céticos, porém, devem ter pensado duas vezes antes de rir na
cara do conde. Afinal, não estavam eles na cidade mais cosmopolita e avançada
da América? Um jardim não floria onde antes fora charco? O porto não
fervilhava repleto de navios e de mercadorias de todo o mundo? Não produziam
a pleno os engenhos? Oficiais ingleses e investidores judeus, aventureiros
suecos, mascates escoceses, negociantes alemães e franceses às centenas não
percorriam ruas impecavelmente pavimentadas? Além disso, naquela mesma
tarde não fora inaugurada a maior ponte da América, um prodígio arquitetônico
de 318 metros de comprimento? Desde que assumira como “governador, capitão
e almirante-general das terras conquistadas ou por conquistar pela companhia
das Índias Ocidentais no Brasil”, Nassau tinha tirado a colônia do chão. No dia
da inauguração da ponte e da festa do boi voador, porém, ao “príncipe” só
restavam dois meses de Brasil. Mesmo que um boi voasse, a obra de Nassau
logo iria por água abaixo.
Por 24 anos, os holandeses foram senhores de sete das dezenove capitanias
em que se dividia o Brasil do século XVII. Velhos parceiros comerciais de
Portugal, atacaram a maior das colônias lusas, entre outras razões, porque
travavam com a Espanha a guerra por sua independência. Invadir o Brasil era
unir o útil do lucro açucareiro ao agradável da vingança contra um inimigo
ancestral. A tomada da zona produtora de açúcar do Brasil foi plano
minuciosamente articulado pela Companhia das Índias Ocidentais – empresa de
capital privado que obteve do governo holandês o monopólio do comércio com a
América e a África. A invasão de Salvador, em 1624, durou apenas um ano e deu


N
prejuízo à companhia. Mas, em março de 1630, os holandeses tomaram o Recife
– e lá ficaram até a sua expulsão, em 1654.
Ao longo desse quarto de século de ocupação batava, os sete anos conhecidos
como o “tempo de Nassau” (1637 a 1644) marcaram o apogeu do domínio
holandês no Brasil, originando a tradição segundo a qual o destino desse país
seria mais nobre caso o projeto colonial da Companhia das Índias Ocidentais
tivesse sido mantido. Mas o fato é que, como o próprio Nassau previra, menos
de um ano depois de sua partida – antes da qual o conde fez voar “um couro de
boi cheio de palha preso por fios que a noite escondia” –, azedou-se de vez o
doce Brasil holandês.
A INVASÃO DA BAHIA
o instante em que as primeiras velas holandesas apontaram em frente de
Salvador, na manhã de 8 de maio de 1624, o que estava a ponto de se
consumar era uma invasão anunciada. Meses antes, espiões a serviço da Espanha
sabiam que os holandeses estavam armando uma esquadra para atacar a Bahia.
Ainda assim, o governador-geral Diogo de Mendonça Furtado não pôde
convencer o rei a fortificar a cidade. O bispo D. Marcos Teixeira persuadira o rei
a investir na construção da Sé, e não na de um forte. Salvador, “tesouro rico
porém mal seguro”, continuou “uma cidade aberta, defendida por oitenta
soldados pagos”. Não foi, portanto, nada difícil para a esquadra de 26 navios,
3.300 homens e 450 bocas de fogo, chefiada por Jacob Willekens, tomar
Salvador.
Na verdade, bastaram 24 horas: o bombardeio iniciou na manhã de 9 de maio.
Na noite do mesmo dia, o povo abandonava a cidade às pressas. Na manhã do
dia 10, ao entrarem na praça deserta, os holandeses depararam-se apenas com o
governador, “disposto a morrer de espada em punho”. Mendonça Furtado foi
preso e enviado para a Holanda, junto com o butim da vitória: 3.900 caixas de
açúcar e muito pau-brasil. E mais: a pilhagem foi tal que um oficial holandês
afirmou que os soldados “mediam prata e ouro nos chapéus cheios e apostavam
400 florins num lance de dados”. A orgia da soldadesca durou dois dias; o
domínio holandês, apenas um ano.
Ao invadir a Bahia, os holandeses estavam concretizando o plano


minuciosamente estabelecido por um documento chamado Motivos por que a

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