Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
As marteladas com as quais Martinho Lutero pregou, na porta da capela do castelo de Wittenberg,
Alemanha, as 95 Teses, que, em 1517, rachariam para sempre a unidade do cristianismo, ecoaram, 40
anos depois, na baía da Guanabara num confronto entre o franciscano André Thevet (à esquerda) e o
calvinista Jean de Léry, os dois maiores cronistas da França Antártica. Thevet, cosmógrafo de origem
humilde, nasceu em 1502 e chegou ao Rio como cronista oficial da expedição de Villegaignon. Em
janeiro de 1556, desiludido com os rumos religiosos da colônia, retornou à França, onde redigiu As
Singularidades da França Antártica. Publicado em 1557, seu livro foi o segundo a trazer ilustrações
representando índios, animais e plantas do Brasil. O sucesso da obra ajudou Thevet a ficar famoso.
Desde o início tudo deu errado. A expedição, que partira de Havre em 12 de
julho de 1555, foi logo colhida por terrível tempestade e obrigada a ancorar em
Dieppe, onde quase todos os tripulantes desertaram, apavorados com o “aviso
dos céus”. A Villegaignon restaram apenas algumas dezenas de degredados, ao
passo que os outros oitenta homens que ele conseguiu arregimentar pelas ruas de


Dieppe foram recrutados entre “desclassificados, vagabundos e mercenários”.
Finalmente, no dia 10 de novembro, após uma travessia repleta de contratempos,
os navios franceses, com cerca de 130 homens a bordo, entraram na baía de
Guanabara. Villegaignon instalou seu acampamento numa ilhota de 1,5
quilômetro de circunferência, chamada Serigipe pelos indígenas. Localizada
próxima ao continente, em frente ao atual aeroporto Santos Dumont, no centro
do Rio, a ilha hoje abriga a Escola Naval.
Ali, Villegaignon mandou construir um baluarte de madeira, que chamou de
forte Coligny em homenagem ao principal patrocinador do projeto de ocupação
do Rio. Em seguida, começou a planejar a construção de Henriville, vilarejo que
pretendia erguer no continente, nas cercanias do atual morro da Glória, quase
defronte à ilha. Mas os problemas logo recomeçaram. A escassez de víveres
obrigou os homens a se alimentar com raízes em vez de pão, e a beber água em
lugar de vinho. As obras de aterro e de construção das paliçadas eram
extenuantes, e os soldos, baixíssimos. Villegaignon estabeleceu um regime de
rígida disciplina, e a falta de mulheres recrudesceu a violência e o mau humor
dos “soldados”, a maior parte deles sem senso moral nem instrução militar
adequada. O comandante reagiu com despotismo e severidade à cizânia
instaurada na ilha – e com isso precipitou o trágico desfecho da desventura
chamada França Antártica.
JEAN DE LÉRY
Simples sapateiro, nascido em 1534, o francês Jean de Léry tornou-se discípulo de Calvino e, em
novembro de 1556, embarcou para o Rio de Janeiro na missão comandada pelo sobrinho de
Villegaignon, Boisle-Comte. Chegou ao Brasil em 16 de março de 1557. Ficou um ano na colônia e
interessou-se vivamente pelos Tupinambá, que descreveu e retratou em seu Viagem à Terra do Brasil,
lançado em 1578. No livro, que só saiu 20 anos após a viagem (porque o original, perdido duas vezes,
teve de ser refeito de memória), Léry acusa duramente seu desafeto, André Thevet. O problema é que
Léry só o fez depois que todos os personagens que citou estavam mortos. Muitos pesquisadores
acusam Léry de plagiar Thevet, o que talvez tenha feito. Mas não há dúvida de que fez também uma
obra primorosa.
O FIM DA FRANÇA NOS TRÓPICOS
esmo em meio aos conflitos gerados por brigas religiosas e pelos desmandos de


M
Villegaignon, os franceses conseguiram solidificar suas posições no Rio de
Janeiro. De fato, ao longo dos cinco primeiros anos de ocupação, de 1555
a 1560, os “invasores” receberam reforços da França, foram capazes de estreitar
sua aliança com os Tamoio (os verdadeiros senhores da baía de Guanabara até
então) e transformaram o Forte Coligny em “uma das mais fortes fortalezas da
cristandade, insuperável às forças humanas”– de acordo com o relato de Mem de
Sá, terceiro governador-geral do Brasil.
Apesar da aparente solidez da fortificação, a colônia francesa estava minada
por graves problemas internos. Os desentendimentos vinham se alastrando desde
fevereiro de 1556, quando Villegaignon exigira que um marinheiro gaulês (que
estava instalado no Rio de Janeiro antes da chegada dos novos colonizadores)
casasse ou se separasse da nativa com a qual vivia há pelo menos sete anos.
Indignado, esse marujo armou uma conspiração para matar o líder da França
Antártica. Mas o plano acabou sendo descoberto pelos temíveis guarda-costas
escoceses de Villegaignon e 5 dos 26 conspiradores foram presos e executados.
Depois desse episódio, Villegaignon tornou-se progressivamente despótico e
desconfiado, transformando a rotina da fortaleza numa sucessão de deserções,
conspirações, torturas e prisões. Ainda assim, em março de 1557, o projeto
colonial francês iria ganhar um novo alento: foi quando Bois-Le-Comte,
sobrinho de Villegaignon, chegou ao Rio de Janeiro, com três navios e 290
homens. Mas o que era para ser um auxílio inestimável acabou se revelando
novo foco de tensão: como Le-Comte trouxera consigo 14 pastores calvinistas
(escolhidos pelo próprio Calvino; e entre eles o cronista Jean de Léry), o
confronto entre protestantes e católicos recrudesceu dentro da colônia, tornando
insustentável a já delicada posição de Villegaignon. Finalmente, em outubro de
1558, o homem que fora chamado de “Rei do Brasil” voltou as costas para seu
tão acalentado projeto de estabelecer uma “nova França” nos trópicos e decidiu
se retirar para a Europa.
A desmoralização e o desânimo das tropas francesas persistiam quando, à
frente de uma frota portuguesa, o governador-geral Mem de Sá adentrou a baía
de Guanabara, em 21 de fevereiro de 1560, encarregado da missão de expulsar
os invasores. Na manhã de 15 de março, depois de manter a fortaleza da ilha de
Serigipe sitiada por três semanas, Mem de Sá exigiu que os inimigos se
rendessem, mas Bois-le-Comte se recusou a ceder.


A
Embora contassem com o apoio de cerca de mil guerreiros Tamoio, os
franceses que ainda permaneciam no interior do Forte Coligny eram apenas 74 –
os demais tinham desertado para viver entre os nativos ou haviam retornado para
a Europa. Então, no dia 18 de março, cerca de 120 portugueses e seus 140
aliados nativos (em sua maioria Temiminó e Tupiniquim – inimigos ancestrais
dos Tamoio) deflagraram sua ofensiva final. A rendição dos franceses se deu 48
horas mais tarde, no dia 20 de março de 1560, depois que um marujo português
conseguiu nadar até a ilha e explodir o paiol de munições, encerrando os
combates num momento em que o próprio Mem de Sá já pensava em desistir da
luta. Vencidos os inimigos, tanto o governador-geral como o jesuíta Manoel da
Nóbrega e outros cronistas daquela batalha decisiva atribuíram a vitória ao
“poder divino”, que “não quis que nessa terra [o Brasil] se plantasse gente de tão
maus pensamentos [os protestantes]”.
O projeto ultramarino de Villegaignon havia ruído. Mas os franceses
sobreviventes, aliados aos Tamoio, ainda iriam resistir por sete longos anos. O
Rio de Janeiro somente seria conquistado pelos portugueses em 1567.
OS PORTUGUESES CONQUISTAM O RIO
o retornar à Bahia, no fim de março de 1560, depois de arrasar
completamente o Forte Coligny, o governador-geral Mem de Sá não pôde
estabelecer nenhuma base portuguesa na Baía de Guanabara: faltavam-lhe tropas
e equipamentos. Embora não se possa acusar o governador de omissão ou
desleixo, o fato é que tal descuido teria terríveis consequências para os
portugueses.
Afinal, cinco anos mais tarde, quando Estácio de Sá, sobrinho e braço direito
de Mem de Sá, retornou ao Rio, em 9 de fevereiro de 1565, comandando nove
navios e 220 homens, encontrou os sobreviventes franceses e seus aliados
Tamoio entrincheirados por detrás de três fortes paliçadas – e preparados para
um novo confronto. No dia 1º de março, Estácio se estabeleceu em um arraial no
sopé do Pão de Açúcar (núcleo original da cidade do Rio de Janeiro) e ali ficou
por dois anos, combatendo o inimigo esporadicamente enquanto aguardava a
chegada de reforços.
Durante todo o ano de 1566, sempre auxiliados pelos dissidentes franceses,


os Tamoio deram muito trabalho aos portugueses, organizando inúmeras ciladas,
travando uma guerra de guerrilhas e tentando constantemente atraí-los para
combates no mar. Em julho daquele ano, travou-se a célebre batalha que passou
à história com o nome de “combate das canoas”. Com um contingente de cerca
de 180 grandes canoas, nas quais se amontoavam talvez mais de dois mil
guerreiros, os Tamoio atraíram os portugueses para uma emboscada em uma das
tantas reentrâncias da baía de Guanabara. Quando a derrota dos lusos parecia
certa, um tiro disparado por uma pequena peça de artilharia atingiu um depósito
de pólvora localizado no interior de uma canoa, provocando grande incêndio e
profundo temor entre os indígenas. Em meio à fumaça, alguns portugueses
julgaram ter visto a figura de São Sebastião combatendo ao lado deles contra
“hereges e pagãos”.
No dia 18 de janeiro de 1567, Mem de Sá enfim retornou ao Rio de Janeiro,
com novas tropas: mais de duzentos homens, distribuídos em seis caravelas e
três galeões. Dois dias mais tarde – 20 de janeiro, por uma extraordinária
coincidência Dia de São Sebastião –, os portugueses atacaram as posições
inimigas em Uruçumirim (atual Morro da Glória), com o apoio dos Temiminó,
chefiados por Arariboia. Após uma batalha feroz que durou o dia todo,
seiscentos Tamoio e cinco franceses morreram, e muitos foram feitos
prisioneiros. No dia seguinte, dez franceses foram executados na forca enquanto
os portugueses atacavam a paliçada da ilha de Paranapuã (hoje ilha do
Governador), escravizando os quase mil Tamoio que se renderam
incondicionalmente. Apesar de a luta ter sido terrível, apenas um português
morreu naquele combate.
A vitória, porém, não pôde ser comemorada com grande estardalhaço: ferido
por uma seta envenenada, durante o combate de Uruçumirim, Estácio de Sá
morreria um mês depois, após longa agonia.
De todo modo, o Rio de Janeiro finalmente era português. Embora sangrentos
e decisivos, os combates que resultaram no malogro da França Antártica e na
conquista lusitana do Rio mobilizaram menos de meio milhar de europeus: o
grosso das tropas que se defrontaram à sombra do Pão de Açúcar era constituído
por indígenas. Foram menos de trinta os europeus que sucumbiram naquelas
batalhas, ao passo que, entre os nativos, o número de mortos foi superior a mil
combatentes.


E
A FRANÇA EQUINOCIAL
mbora seja episódio menos difundido, menos estudado e, portanto, bem
menos conhecido do que o da França Antártica, uma outra invasão francesa
ao Brasil provocou riscos muito maiores à soberania lusa na América
Portuguesa, ameaçando gravemente a unidade territorial da colônia por mais de
uma década. Foi a ousada aventura colonizadora da chamada “França
Equinocial” – como ficou conhecida a ocupação francesa do Maranhão, da qual
resultou a fundação da cidade de São Luís em 1612 (ainda hoje, capital daquele
estado brasileiro).
Ao contrário da França Antártica – enclave erguido em um território bastante
conhecido e já razoavelmente colonizado pelos portugueses –, a ação francesa no
norte do Brasil desenrolou-se em uma porção do litoral não só praticamente
desconhecida como também nunca dantes ocupada pelos lusos. Os franceses, por
outro lado, já navegavam havia quase três décadas pelas perigosas águas
maranhenses, tendo não apenas estabelecido sólida aliança com as tribos locais
como descoberto também a melhor rota entre correntes marítimas
tremendamente traiçoeiras.
O pioneiro dessas investidas foi o corsário, aventureiro e traficante de pau-
brasil Jacques Riffault, que desde pelo menos 1590 ancorava sua nau nas
reentrâncias do rio Potengi, nas cercanias da atual cidade de Natal – RN, e, a
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