Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
A
S CANOAS
: Chamadas “ubás”, eram feitas à moda indígena, escavadas num
tronco de árvore (peroba, guapuruvu ou timbaúva). Tinham em média de 12 a 13
metros de comprimento e 1,5 metro de largura, embora tenha havido uma com
17,5 e 2,8 metros de largura. Levavam até quatro toneladas de carga e 30
pessoas. As cargas eram cobertas por lona e as pessoas por mosquiteiros.
T
RIPULAÇÃO
: Seis remeiros (sempre em pé), um piloto e um proeiro. O proeiro
era a figura mais importante; tinha a chave do caixão de carnes salgadas e
determinava o ritmo das remadas.
A
LIMENTAÇÃO DURANTE A JORNADA
: Um quilo de farinha, meio de feijão e cem
gramas de toucinho por dia por pessoa.
P
RINCIPAIS DIFICULDADES
: Além das 113 cachoeiras, saltos ou corredeiras, as
expedições tinham de enfrentar os Kayapó das margens do Taquari, os Guaicuru,
que eram audazes cavaleiros do Pantanal, e os terríveis Paiaguá, grandes
canoeiros que logo ficaram conhecidos como “os piratas do rio Paraguai”.
P
ERIGOS LENDÁRIOS
: Iaras, pitões e as canoas-fantasmas dos monçoneiros
mortos.
C
ONSEQUÊNCIAS
: A povoação de Mato Grosso e a extração de 75 toneladas de
ouro. A última monção partiu em 1838.


C
Capítulo
7
O BRASIL FRANCÊS
erta ocasião, em tenso diálogo com um diplomata espanhol, o rei da
França, Francisco I, proferiu a frase que a história se encarregaria de
imortalizar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que me
afastou da partilha do mundo…” O monarca francês evidentemente se referia ao
Tratado de Tordesilhas – o acordo planetário que Portugal e Espanha tinham
assinado em 1494, dividindo o mundo entre si, com bênção papal.
De acordo com tais estipulações, os dois reinos ibéricos asseguravam não
apenas a soberania sobre as “terras descobertas ou por descobrir” tanto no
Ocidente como no Oriente: obtinham também, e acima de tudo, a exclusividade
da navegação no oceano Atlântico. Era justamente contra a doutrina do maré
clausum (mar fechado) que Francisco I erguia sua voz, já que os franceses – logo
imitados por ingleses e holandeses – defendiam a tese do maré liberum (mar
aberto à navegação para todas as nações).
De qualquer forma, a corte francesa foi logo atropelando polêmicas legais e
sutilezas jurídicas, disposta a transformar as capitulações de Tordesilhas em letra
morta. E, por uma série de circunstâncias – geográficas, náuticas, econômicas e
até políticas –, o principal objetivo das incursões dos piratas e dos corsários
franceses tornar-se-ia o desguarnecido litoral do Brasil. Assim, durante as cinco
décadas que se seguiram ao desembarque de Cabral, traficantes de pau-brasil –
em geral vindos da Normandia e da Bretanha – iriam desempenhar um papel-
chave na história da colonização e da ocupação do Brasil, simplesmente porque,
de início, boa parte do que os portugueses fizeram na colônia não foi muito mais
do que uma mera reação ao assédio progressivamente arrojado dos “entrelopos”
(como eram chamados os contrabandistas do “pau de tinta”).
Em pelo menos duas ocasiões – em 1530 e 1548 – a América portuguesa
esteve em vias de se tornar, mesmo que momentaneamente e em parte, um
território francês. Muito menos estudado do que as duas invasões “oficiais” – os


episódios conhecidos como “França Antártica” e “França Equinocial” –, o
período relativamente nebuloso que se estende de 1504 a 1548 foi, na verdade,
uma época de atividade febril ao longo da costa brasileira, percorrida por
normandos e bretões com igual desenvoltura e mais frequência do que pelos
próprios portugueses.
Os laços entre os navegantes franceses e o litoral sul-americano tinham
começado a se estreitar apenas quatro anos depois da descoberta oficial do
Brasil. Em fins de 1503, o comerciante e navegador Binot Paulmier de
Gonneville armou um navio com o objetivo de chegar à Índia. Como os pilotos
portugueses que ele secretamente contratara em Lisboa perderam-se em alto-
mar, a expedição acabou aportando no litoral do atual estado de Santa Catarina –
provavelmente na ilha hoje chamada São Francisco do Sul.
Ali, a partir de janeiro de 1504, Paulmier e seus homens conviveram com os
Carijó ao longo de seis meses. Ao partirem de volta para a França, levaram
consigo o jovem “príncipe” Essomeriq (talvez Içá-Mirim), filho do “cacique”
Arosca.
Paulmier deveria trazer Essomeriq outra vez para o Brasil no prazo de “vinte
luas” – tão logo o guerreiro tivesse aprendido a “fazer canhões” com os
franceses. Como naufragou no litoral da Normandia, Binot Paulmier de
Gonneville jamais retornou à América. Essomeriq casou-se com a filha de seu
“raptor” e viveu por mais de meio século na França. Morreu sem rever a terra
natal, em 1583 – alegadamente com 94 anos de idade.
Embora a viagem de Gonneville tenha redundado em sua própria falência, ela
abriu novos e estimulantes horizontes comerciais para os navegadores bretões e
normandos. Quando se soube que o território que ele visitara era repleto de pau-
brasil, uma explosiva equação articulou-se nos portos de Rouen, Dieppe e Saint-
Malo, misturando uma longa tradição de pirataria com a crescente demanda por
corantes naturais provocada pela indústria têxtil da França – cujo centro era
justamente naquelas cidades portuárias.
A partir de então, armadores e comerciantes franceses – contando com o
apoio formal ou com a dissimulada omissão de seu rei, Francisco I – passaram a
enviar um fluxo constante de expedições “ilegais” ao Brasil. Como não vinham
com disposição de instalar-se permanentemente na nova terra, nem com planos
de colonizá-la, os “entrelopos” logo puderam estabelecer uma aliança altamente


N
vantajosa com nações indígenas que ocupavam a costa do Brasil – em especial
com os Caeté, os Potiguar e os Tamoio. Várias zonas do litoral brasileiro –
principalmente a Paraíba, o Rio Grande do Norte, o Ceará, partes de
Pernambuco e, mais tarde, o Rio de Janeiro – tornaram-se regiões sob controle
quase absoluto dos franceses, nas quais os navios portugueses raramente podiam
se arriscar.
Em 1530, um dos principais motivos que levou o rei D. João III a enviar a
expedição comandada por Martim Afonso de Souza foi justamente a repressão
aos traficantes franceses de pau-brasil – que haviam tomado e se instalado em
uma feitoria portuguesa localizada na ilha de Itamaracá – PE. Em 1548, outra
vez a ameaça francesa (que se estendia então ao Rio de Janeiro, ameaçando a
própria sobrevivência da capitania de São Vicente) serviu como estímulo para D.
João estabelecer um Governo-Geral no Brasil, tornando a colonização da
América Portuguesa enfim responsabilidade oficial da Coroa.
Ainda assim, o novo regime só se solidificaria depois que o terceiro
governador-geral, o desembargador Mem de Sá, se mostrasse capaz de expulsar
os franceses que, em 1555, haviam se instalado no Rio de Janeiro.
A FRANÇA ANTÁRTICA
a metade do século XVI, depois de cinquenta anos percorrendo o litoral
brasileiro, os franceses concluíram que era chegada a hora de armar uma
expedição colonizadora para lançar as bases de um futuro império ultramarino
no Novo Mundo. Durante cinco décadas, normandos e bretões haviam
reconhecido e cartografado a maior parte do litoral do Brasil e estabelecido com
os indígenas um relacionamento mais rentável e, talvez, mais equilibrado que os
portugueses – já que a escravização dos nativos nunca estivera entre seus
principais objetivos. Para se alçar em uma aventura colonialista, faltava-lhes
apenas o homem certo. Quem poderia supor que Nicolas Durand de Villegaignon
era o homem errado?
Cavaleiro da Ordem de Malta, universitário de formação e militar por
temperamento, soldado, navegador, diplomata, historiador, erudito e até filólogo
– tido como um “homem de toga e espada” –, Villegaignon tivera, até então,
uma carreira brilhante. Nascido em 1510, fora colega de Calvino, formara-se em


Direito, participara da tomada de Argel, na África, combatendo ao lado do
imperador Carlos V, e, acima de tudo, havia ludibriado brilhantemente os
ingleses ao conduzir, por mar, a rainha Mary Stuart da Escócia à França, para
casar-se com o herdeiro do trono francês, Francisco II, filho do rei Henrique II.
Nomeado vice-almirante da Bretanha, Villegaignon indispôs-se com o
governador local no início de 1555 e, magoado com o apoio dado pelo monarca
a seu desafeto, decidiu provar mais uma vez seu valor, fundando uma colônia
francesa no Rio de Janeiro.
Para concretizar seu projeto, buscou o apoio de importantes personalidades
como o Cardeal de Lorena, a mais influente autoridade católica da França, e o
almirante Gaspard de Coligny, líder dos huguenotes – calvinistas franceses que
já então começavam a ser perseguidos. A ambos prometeu liberdade religiosa
total na nova colônia e, com isso, conseguiu que o rei liberasse mais de 10 mil
francos e armasse dois navios de guerra e um de carga para a expedição. Como
tripulantes e soldados foram contratados cerca de seiscentos homens, mas
nenhuma mulher – o que viria a se tornar um dos maiores problemas para
Villegaignon na tentativa de concretizar seu projeto de ocupação e colonização
do Rio de Janeiro.
ANDRÉ THEVET

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