Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
abolicionismo, Joaquim Nabuco tenha escrito: “Grande número de padres
possuem escravos sem que o celibato clerical o proíba. Esse contato, ou antes
contágio, de escravidão deu à religião, entre nós, o caráter materialista que ela
possui, destruiu-lhe a face ideal e tirou-lhe toda a possibilidade de desempenhar
na vida social do país o papel de uma força consciente. Nenhum padre nunca
tentou impedir um leilão de escravos nem condenou o regime religioso das
senzalas.”
O INIMIGO DOS JESUÍTAS
m Portugal, o marquês de Pombal incentivou a agricultura e a viticultura,
endureceu a política fiscal, criou monopólios, combateu os nobres,
favoreceu os comerciantes e pôs no poder tecnocratas “estrangeirados”.
Reconstruiu Lisboa após o terremoto de 1755 – com o ouro brasileiro.
No Brasil, estabeleceu limites, emancipou os indígenas (para afastá-los do
controle dos jesuítas) e criou companhias de comércio. Acima de tudo, porém,
manteve seu “propósito obsessor”: destruir a Companhia de Jesus. Dois foram os
pretextos encontrados por Pombal para concretizar suas intenções: primeiro, o
suposto estímulo dos jesuítas à resistência dos Guarani no episódio dos Sete
Povos das Missões. Depois, um atentado ao rei D. José, no qual Pombal
imaginou a influência dos jesuítas. No dia 16 de setembro de 1759, os inacianos
foram expulsos de Portugal. A 14 de março de 1760, os primeiros 119 dos 550
padres que estavam no Brasil também eram deportados. Uma vez em Lisboa,
foram jogados nos calabouços mais insalubres, juntando-se aos ex-confessores
da família real e aos padres que tinham ocupado cargos públicos – presos sem
julgamento nem acusação formal.
Em 1767, os jesuítas seriam expulsos também da França e da Espanha e, em


julho de 1773, o papa Clemente XIV extinguiria a Companhia de Jesus. Era a
vitória definitiva de Pombal. Mas ele teria apenas quatro anos para festejá-la: em
1777, com a morte de D. José I, subiu ao trono D. Maria I, a rainha louca.
Pombal caiu em desgraça. Morto em 1782, só foi enterrado em Lisboa em 1836:
seu corpo ficou mais de meio século abandonado na cripta da fazenda onde
vivera seu exílio. Em 1814, a Companhia de Jesus renasceria.
MARQUÊS DE POMBAL
No dia 26 de fevereiro de 1759, um panfleto chamado Notícias interessantes, publicado em Lisboa,
anunciava: “Os jesuítas estão prestes a ser todos expulsos deste reino. As outras potências poderiam bem
imitar Portugal. Esses senhores levaram muito longe sua ambição e seu espírito subversivo. Eles
pretendiam dominar todas as consciências e invadir o Império do Universo”. Seis meses mais tarde, a
“profecia” se realizava: 432 jesuítas eram deportados para Roma, onde foram relutantemente acolhidos
pelo papa Clemente XIII.
O fato de Notícias interessantes ter antecipado a informação não causou surpresa: a população sabia que,
embora redigidos por um abade que abandonara a batina, os libelos expressavam as ideias de Sebastião
José de Carvalho e Melo. E ninguém desconhecia que, além de ser a figura mais influente do reino, o
futuro marquês de Pombal era também o mais ferrenho inimigo dos jesuítas. Filho da pequena nobreza,
Pombal subira na vida depois de raptar e se casar com uma viúva rica. Em 1750, virou ministro do rei D.
José I. Despótico e cruel, assumiu o controle da nação e, apesar de empregar parentes e distribuir
propinas, foi administrador eficiente.


E
Capítulo
6
BANDEIRAS E ENTRADAS
les eram os piratas do sertão. Perambulavam pelos atalhos, pelos planaltos
e pelas planícies armados até os dentes, com seus sons de guerra e suas
bandeiras desfraldadas. Eram grupos paramilitares rasgando a mata e
caçando homens – para além da lei e das fronteiras; para aquém da ética. À sua
passagem, restava apenas um rastro de aldeias e vilas devastadas; velhos,
mulheres e crianças passados a fio de espada; altares profanados, sangue,
lágrimas e chamas. Incendiados pela ganância e em nome do avanço da
civilização, escravizaram indígenas aos milhares. Alguns historiadores paulistas
os definiram como uma “raça de gigantes” – e não restam dúvidas de que eles
foram sujeitos intrépidos e indomáveis. São tidos como os principais
responsáveis pela expansão territorial do Brasil – e com certeza o foram. Embora
tenham sido heróis brasileiros, tornaram-se também os maiores criminosos de
seu tempo.
Em apenas três décadas – as primeiras do século XVII –, os bandeirantes e
seus mamelucos podem ter matado ou escravizado cerca de 500 mil índios,
destruindo mais de cinquenta reduções jesuíticas nas regiões do Guaíra, do
Itatim e do Tape. Desafiaram as leis e os reis de Portugal e da Espanha.
Blasfemaram contra Roma, foram excomungados pelo papa. Ainda assim,
ignoraram as ameaças e só foram contidos pela força das armas. Transformaram
sua capital, São Paulo, num dos maiores centros do escravismo indígena de todo
o continente. Mais: por um tempo, fizeram dela cidade sem lei – reino de terror,
ganância e miséria. E também o polo a partir do qual todo o sul do Brasil pôde,
enfim, crescer, desenvolver-se e se endinheirar.
Por que justamente São Paulo? Porque a cidade fundada pelos jesuítas estava
no centro das rotas para o sertão, porque os Carijó do litoral e os Guarani do
Paraguai estavam próximos e eram presa fácil e, acima de tudo, porque São
Paulo nascera pobre. “Buscar o remédio para sua pobreza” – assim os paulistas


E
explicavam o motivo que os impelia aos rigores do sertão em busca de “peças”.
Nos anos 1920, dois devotados historiadores, Afonso Taunay e Alfredo Ellis
Jr., começaram a forjar o mito bandeirante. Os documentos que acharam e
publicaram revelam uma saga de horrores. Ainda assim, Taunay e Ellis Jr.
preferiram fabricar a imagem do bandeirante altivo e galhardo, como se esses
caçadores de homens fossem os “Três Mosqueteiros”. Mas ambos sabiam que
muitos dos bandeirantes andavam descalços, mal falavam português e estavam
treinados para escravizar e matar.
OS CAÇADORES DE HOMENS
mbora o auge das bandeiras tenha coincidido com o alvorecer do século
XVII e se prolongado por todo ele, o apresamento de indígenas sempre fez
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