Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
mundo e sua glória é uma farsa de comédia, que passa; um entremez, que se acaba com o riso; uma
sombra, que desaparece; um vapor, que se desfaz; uma flor, que se murchou; um sonho, que não tem
verdade”.
Nascido em Lisboa, em 1608, Vieira veio com a família para o Brasil aos seis
anos, em 1614. Aos 15, entrou para a Companhia de Jesus. Fez sua estreia na
vida pública em 1626, aos 18 anos, redigindo uma carta ânua na qual criticava
frontalmente a ingenuidade (comprometida e comprometedora) dos jesuítas ante
a voracidade da empresa colonial. Em 1641, já ordenado sacerdote, viajou a
Lisboa para prestar fidelidade ao rei D. João IV. Iniciou-se aí uma longa e
frutuosa relação. Vieira logo entrou em choque com os dominicanos que
dirigiam a Inquisição, atacando “a cegueira de delírio e o desatino intolerável”
de seu Tribunal. Saiu em defesa dos judeus, propondo que Portugal atraísse para
o Reino os que estavam dispersos pela Europa. Era a favor da liberdade de
comércio e contra o protecionismo. Louvava as virtudes do trabalho e atacava o
pecado da ociosidade. Quis ser o profeta do mercantilismo luso e criou uma
Companhia das Índias Ocidentais, assentada em capitais judaicos e com o
mesmo perfil de sua similar holandesa. Mas a sociedade ibérica não estava
preparada para a hegemonia do pensamento burguês, e Vieira pregava em clima
hostil ou suspeitoso. Seus projetos políticos também falharam: ele não conseguiu


A
uma aliança militar com a França, não conseguiu comprar Pernambuco dos
invasores holandeses, nem um acordo com o invasor. Por fim, não conseguiu
casar a única filha do rei de Castela com o príncipe herdeiro do trono de
Portugal, um plano ambicioso que uniria outra vez as duas Coroas. O reino de
Vieira não era o deste mundo. Mas o malogro de seus projetos proféticos abriu
caminho para o pleno florescimento do homem de letras.
AS OUTRAS ORDENS
pesar de terem sido os missionários mais ativos e influentes da história do
Brasil, os jesuítas não foram os primeiros nem os únicos religiosos a atuar
na colônia. Na frota de Cabral vinham oito franciscanos, entre os quais frei D.
Henrique, que rezou a primeira missa em terras brasileiras. Ao longo dos
primeiros séculos, os franciscanos continuaram sua obra no Brasil. Mas, como
sempre se mantiveram ao lado do poder colonial, não se envolveram em
polêmicas como os jesuítas. Benzendo engenhos e senzalas, perdoando,
justificando e até promovendo a escravidão e o ataque aos índios “hostis”,
fornecendo capelães que acompanhavam os bandeirantes ao sertão, os
franciscanos acabaram por constituir a ordem religiosa mais afinada com os
desígnios do colonialismo.
Não se pode dizer o mesmo dos capuchinhos – a dissidência radical dos
franciscanos que estabeleceu sua própria ordem em 1584. Os dois capuchinhos
mais conhecidos na história colonial do Brasil foram os franceses Claude
D’Abbeville e Yves Evreaux. Ambos chegaram ao Brasil em 1612, na trilha
aberta por André Thevet, o franciscano que acompanhou Villegaignon ao Brasil,
em 1555, e celebrou a primeira missa no Rio de Janeiro. No Maranhão, meio
século mais tarde, Abbeville desempenhou o mesmo papel de Thevet: foi o
cronista de uma ousadia fracassada, a fundação da França Equinocial.
Além de jesuítas e franciscanos, as duas outras ordens religiosas clássicas
também atuaram no Brasil: os carmelitas e os beneditinos. Vieram a pedido dos
próprios colonos, que traziam de Portugal as devoções predominantes em suas
regiões de origem.
Os carmelitas se estabeleceram oficialmente no Brasil em 1580: chegaram
acompanhando a expedição de Frutuoso Barbosa, que conquistou a Paraíba. Os


E
beneditinos vieram no ano seguinte e fundaram uma abadia na Bahia, em 1584.
Porém, a ordem nunca se interessou pela obra missionária, e seus integrantes em
geral se dedicavam à vida contemplativa, vivendo em mosteiros opulentos. Um
levantamento feito em 1871 mostrou que, além de muitos prédios urbanos e
imensas fazendas, os beneditinos possuíam também quatro mil escravos. Não
eram os únicos: a prática fora inaugurada pelos próprios jesuítas já em 1549.
Não é nenhuma surpresa, portanto, que em 1883, em seu livro clássico O

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