Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
desenvolvido pelos índios missioneiros sob a rígida batuta dos jesuítas.
Os Sete Povos foram abandonados, mas os imigrantes açorianos trazidos para
ocupá-los não puderam fazê-lo, já que em 1761 e 1777 haveria mais guerras e
novos tratados. Depois da guerra de 1801, os limites ficaram próximos dos
atuais. Mas os jesuítas já tinham sido expulsos da América, e dos Trinta Povos
só restavam escombros chamuscados.
VIEIRA E O PODER DOS SERMÕES
e todas as vozes que se ergueram não apenas em defesa dos índios do Brasil
mas também contra os desatinos da política colonial, nenhuma foi mais
fluente, majestosa e exata do que a do padre Antônio Vieira. Embora tenha sido
o maior orador da língua portuguesa e dedicasse boa parte de sua vida à obra
missionária, Vieira foi muito além da retórica e da mera caridade. Foi pastor, foi
político, foi diplomata. Pregou nas lonjuras do sertão, pregou no requinte dos
salões. Pregou no Vaticano, pregou no deserto. Foi afrontado pelos colonos do
Maranhão, foi vítima dos juízes corruptos da Inquisição. Safou-se redigindo a
primorosa autodefesa. Foi missionário nas selvas amazônicas, foi ministro d’el
rei em Paris, Haia e Roma. Compôs catecismo em línguas indígenas e sermões
reais de admirável formosura. “Como pregoeiro da palavra divina, anunciador do
futuro, conselheiro dos negócios humanos, missionário dos gentios bárbaros,
consolador dos negros cativos, defensor dos judeus oprimidos”, Vieira foi
louvado e desprezado, desdenhado e aplaudido. Sua voz e seus conselhos
encheram o Reino, e Vieira se tornou uma das principais figuras da política
portuguesa, que ajudou a formular e a executar. Depois do golpe palaciano que
derrubou seu protetor, D. João IV, de quem fora conselheiro, Vieira caiu em
desgraça na corte, foi preso pela Inquisição (1665-1668) e, depois de seis anos
em Roma, retornou ao Brasil, praticamente exilado. Foi na Bahia que viveu os
16 anos finais de sua vida e onde deu o passo que lhe asseguraria a imortalidade:
tratou de editar seus 207 sermões – um dos tesouros mais genuínos da língua
portuguesa.


PALAVRAS EM AÇÃO
Em 1681, ao retornar para a Bahia, depois do apogeu e da queda de sua carreira em Portugal,
Antônio Vieira descobriu que estava ficando cego. Parecia a derrota final: conselheiro do rei,
confessor de rainhas, preceptor de príncipes, se via alijado dos jogos políticos do reino. Seus projetos
haviam todos fracassado, e a volta ao Brasil podia ser entendida como um melancólico autoexílio. No
entanto, embora a cegueira continuasse avançando até se tornar total, Vieira – austero e longevo –
ainda teria dezesseis anos de vida pela frente. E esse período ele usou para dar forma final e editar os
quinze volumes com seus 207 sermões. O projeto iria lhe assegurar imortalidade literária e fama
internacional ainda em vida. Mesmo que relutasse em separar palavra e ação, Vieira era, acima de
tudo, um homem de letras.
Os dois primeiros volumes dos Sermões de Vieira foram publicados em Madri, em 1644. Mas era uma
edição tão mutilada e cheia de erros que o autor renegou. O primeiro volume sob sua supervisão foi
lançado em Lisboa, em 1679. Todos os demais foram preparados no Brasil. Traduzidos para o
holandês, o italiano e o francês, tornaram Vieira um autor conhecido em toda a Europa. Nada mais
justo: repletos de neologismos, impecáveis na forma e no conteúdo, ressoantes de citações das
Escrituras e com abrangência prodigiosa no tema e no estilo, seus Sermões configuram o apogeu da
língua portuguesa. Vieira morreu em 18 de julho de 1697. Com os “óculos do espírito”, sabia “como o

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