Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
capítulo 6, “Bandeiras e Entradas”). Aquele viria a ser o último ataque dos
temíveis caçadores de homens.
Reagrupados na mesopotâmia dos rios Paraná e Uruguai, os jesuítas, então,
deram início ao restabelecimento das missões. Em onze décadas de paz, o
projeto atingiria seu ápice e amplas cidadelas de basalto e madeira nobre,
basicamente araucária, foram erguidas na verdejante planície sulista. Em cada
um dos chamados Trinta Povos Guaranis viviam de 1.500 a 12 mil índios. Havia
apenas dois jesuítas em cada redução: o cura e seu vigário: eles atuavam como
“pajés” brancos.
Ainda assim, ali, a vida cotidiana se assemelhava à de um quartel: o sino
tocava antes do sol raiar e a missa era celebrada para todos. Depois da
distribuição de papa de milho, as crianças a partir de sete anos iam para a escola.
Ao redor do colégio erguiam-se as oficinas dos artesãos. Os trabalhos
começavam por volta das sete horas – mesmo horário no qual, cantando e
portando piedosos estandartes, os lavradores partiam para a faina nos campos
comunais, os Tupa’mbê (ou “terras de Deus”). Por volta das onze horas, pausa
para o almoço. As tardes, em geral, eram dedicadas ao cultivo na terra da
família, às aulas de música e latim e, é claro, à catequese. Ao pôr do sol, todos se
recolhiam.


O projeto arquitetônico refletia claramente este ambiente monástico e
militante: eram duas centenas de alojamentos dispostos num piano rigidamente
geométrico ao redor de uma igreja imponente. Mas os alojamentos não eram
coletivos: dentro deles, cada família tinha sua cela individual, já que uma das
principais lutas dos padres era contra a poligamia. O campanário, o cemitério e
as roças completavam o quadro (“Quem viu uma, viu todas”, diria um visitante,
em 1789). O projeto era uma reinvenção autoritária da paisagem e do espaço. Na
própria escolha do nome que batizou a empresa, o plano dos jesuítas se
esclarecia: em latim e em espanhol, “redução” significa “reagrupar o que se
encontra disperso”. A ideia, portanto, era “reduzir (ou reunir) os Guarani à vida
cívica e à Igreja”.
A experiência não foi pioneira: além da desastrada tentativa de Nóbrega e
Anchieta na Bahia, os jesuítas espanhóis já haviam “reduzido” os Mojos e
Chiquitos do Peru (para alguns autores, o “comunismo” agrário e teocrático das
Missões se baseou no modelo incaico). A questão que mais diferenciou os Trinta
Povos Guaranis – acentuando suas contradições e precipitando seu trágico
desfecho – foi o fato de eles se localizarem na fronteira entre dois impérios em
expansão. Eram quase um Estado-tampão.
Sua história pode ser resumida assim: em 1750, época da expansão máxima
do espaço missioneiro, Portugal e Espanha assinaram um acordo trocando a
Colônia de Sacramento pelos Sete Povos que ficavam na margem esquerda do
rio Uruguai. Padres e indígenas receberam um ultimato: deveriam cruzar o rio e
abandonar suas terras em seis meses. Como houve resistência, logo estourou a
Guerra Guaranítica. Em 2 de fevereiro de 1756, os exércitos de Portugal
(comandados por Gomes Freire de Andrada) e da Espanha, unidos e com cerca
de três mil homens, massacraram 1.511 Guarani mal-armados, na coxilha de
Caiboaté – RS. Três dias antes fora morto, numa emboscada, Sepé Tiaraju, líder
e mártir guarani.
O BARROCO GUARANI
Além da aptidão musical, cujo legado virtualmente se perdeu, os Guarani das missões revelaram, em
mais de duas mil obras, um evidente talento para a escultura. Embora a maior parte das peças,
talhadas em cedro, tenha sido destruída, roubada ou perdida, as três centenas de estátuas restantes
são o testemunho eloquente do estilo que tem sido chamado de “barroco-jesuítico-guarani”,


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