Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Soldado por herança e vocação, o espanhol Inácio de Loyola, nascido em 1491, na Espanha,
abandonou a carreira das armas quando, convalescendo de um ferimento entre as pernas recebido na
guerra entre Espanha e França, leu Uma vida de Cristo. Apesar de manco (e muito possivelmente
impotente), tornou-se um peregrino incansável. Em 1539, depois de ter ido à Terra Santa e de ser duas
vezes preso pela Inquisição, decidiu fundar a Companhia de Jesus. Estabeleceu um modelo
militarizado para a ordem, que imaginou como um grupo de combate à Reforma Luterana: os
soldados de Cristo. O Brasil tornou-se a primeira província além-mar da Companhia. Morto em 1557,
Loyola foi canonizado em 1622.
A SEMENTE AMARGA DA CONTRARREFORMA
o momento em que os primeiros jesuítas colocavam seus pés na Bahia,
tanto Portugal como Espanha – e a Europa católica em geral – estavam


vivendo um período de “fechamentos” políticos e ideológicos. Essa revolução
“conservadora”, em andamento desde 1545, tem sido chamada por alguns
historiadores portugueses de “grande viragem”. Ela se constitui basicamente no
processo de gestação e implantação da Contrarreforma na Península Ibérica – e
marca, de fato, uma guinada nos rumos da cultura e da educação não só em
Portugal e na Espanha, mas em suas colônias do Novo Mundo.
Quase 30 anos se havia passado desde que Martinho Lutero pregara suas 97
Teses na porta da igreja de Wittenberg, em outubro de 1517. Três décadas de
perplexidade e inquietude haviam abalado a Igreja Católica Apostólica Romana.
A reação se iniciou no inverno de 1545, com a instalação do Concílio de Trento e
o recrudescimento da Inquisição. E tão logo a “ortodoxia” do catolicismo se
acentuou, qualquer atividade intelectual que buscasse novos ares e maiores
liberdades individuais poderia ser vista (ou deliberadamente confundida) com a
“heterodoxia” luterana – e duramente reprimida.
Poucos anos antes, no entanto, Portugal havia vivido uma espécie de
“primavera renascentista”. De fato, entre 1530 e 1536, a tolerância cultural e
religiosa proposta pelo filósofo Erasmo de Rotterdam encontrara eco no reino, e
D. João III tinha mesmo aventado a possibilidade de levar o próprio Erasmo para
lecionar na recém-fundada Universidade de Coimbra. A partir de 1545, porém,
essa liberdade de pensamento começou a ser substituída pelo seu exato oposto: o
fortalecimento da Inquisição, entre cujos objetivos estava reprimir os avanços e
conquistas do humanismo renascentista.
Entre os vários grupos que deflagraram esse processo de “fechamento”
cultural estava a Companhia de Jesus – que então começava a se tornar cada vez
mais influente nos destinos de Portugal. Graças à “grande viragem” e ao
banimento de outras alternativas culturais, os jesuítas se transformariam, a partir
de 1546, numa das forças “políticas” mais atuantes no reino.
Depois de delatar à Inquisição virtualmente todos os humanistas ligados a
Erasmo, os jesuítas passaram a controlar não apenas as universidades
portuguesas mas também foram autorizados pelo rei (de quem eram os
confessores) a estabelecer sua própria rede de escolas no reino. Mas os
chamados Colégios de Jesus estavam presos a conceitos pedagógicos
medievalistas e professavam a escolástica – uma doutrina então já retrógrada e
conservadora. Seu currículo era rigidamente ortodoxo e, embora a escolástica


M
fosse de base aristotélica, grego e hebraico eram vistos como línguas
“suspeitas”, e os alunos se dedicavam quase exclusivamente ao latim.
Em pouco tempo todos os aspectos “culturais” da empresa colonial lusitana
foram entregues aos jesuítas, encarregados também da conversão dos “gentios”
na Índia (e em toda a Ásia) e no Brasil. As colônias – especialmente o Brasil – se
desenvolveriam sem livros, sem universidades, sem imprensa, sem debates nem
inquietações culturais: em uma palavra, sem o frescor do humanismo
renascentista. “A inteligência brasileira viria a constituir-se submetida à direção
exclusiva da Companhia de Jesus, sob a égide da Contrarreforma e do Concílio
de Trento”, como diagnosticou Wilson Martins. “Esse desejo de perpetuar a
ignorância (…) condicionaria as perspectivas mentais do Brasil por três
séculos.”
NÓBREGA E ANCHIETA
enos de uma década depois da fundação da Companhia de Jesus, em
Roma, e meio século após a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D.
Manoel, na qual o cronista ressaltava que o melhor fruto que dessa terra se
poderia tirar era “a salvação dos índios”, os seis primeiros jesuítas
desembarcavam no Brasil, junto com o governador-geral Tomé de Souza e
liderados pelo padre Manoel da Nóbrega. Praticamente desde o primeiro dia, 29
de março de 1549, padres e colonos entraram em choque, como pastores lutando
por uma manada arredia. Para os colonos, os nativos eram mão de obra
indispensável, barata e servil – mero gado humano. Para os jesuítas, eram um
rebanho desgarrado que precisava ser conduzido ao seio da cristandade. Tanto
jesuítas como colonos, porém, exigiam dos indígenas o cumprimento da mesma
tarefa: o cultivo da terra. Os colonos o faziam de forma brutal, imediatista e
escravista. Já os jesuítas, em troca do catequismo, esperavam trabalho
organizado e metódico em suas plantações. O excedente da produção agrícola
seria fornecido aos colonos no regime de escambo, supervisionado pelos
próprios padres.
Entre 1557 e 1561, no governo de Mem de Sá, os jesuítas agruparam 34 mil
índios em onze aldeamentos ao redor de Salvador. Mas, em 1562, quando Mem
de Sá decretou “guerra justa” aos Caeté – que, pouco antes, haviam devorado D.


E
Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil –, os colonos, sob pretexto
de capturar Caeté catequizados, atacaram os aldeamentos e escravizaram quinze
mil nativos. O pior estava por vir: em fins de 1562 iniciou-se uma epidemia de
varíola que matou outros quinze mil aldeados. Muitos dos quatro mil indígenas
restantes entregaram-se deliberadamente como escravos aos colonos para não
morrer de fome. Foi o fracasso definitivo das “missões” em terras brasileiras. A
experiência se repetiria, anos depois, no Paraguai, no Tape, no Itatim – MS, e no
Guairá – PR, com consequências ainda mais funestas.
A tragédia da Bahia não impediu que Nóbrega continuasse mantendo
excelentes relações com o desembargador Mem de Sá – nem que seu fiel
companheiro, Anchieta, dedicasse um longo poema épico ao governador.
Embora praticamente autônomos, já que precisavam se reportar apenas a Roma,
os jesuítas procuravam proximidade com o poder colonial – especialmente
porque, no Brasil, sua ordem era sustentada com fundos enviados pelo rei de
Portugal.
Quando os colonos descobriram que os jesuítas eram financiados pelos
impostos que eles pagavam – e que, além de possuir escravos e vastas extensões
de terra, a Companhia de Jesus ainda especulava no mercado de açúcar –, a
revolta contra os padres explodiu de vez. De todo modo, a obra dos jesuítas –
seus colégios e missões – abriria novos territórios para a colonização. Além
disso, não fosse a atuação dos padres – em especial Nóbrega e Anchieta – no
episódio conhecido como Confederação dos Tamoios, a civilização portuguesa
talvez tivesse sido varrida de vez do sul do Brasil, abrindo as portas para uma
França Antártica (leia o capítulo 7, “O Brasil Francês”).
ESPLENDOR E QUEDA DAS MISSÕES
ram cerca de sessenta povoados, alguns com mais de cinco mil habitantes,
dispersos numa área de 450 mil km
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, cercados por ervais frondosos e
imensos rebanhos. Atacados implacavelmente por mais de uma década, de 1628
a 1641, renasceram das cinzas com viço e vigor redobrados. Por volta de 1700,
restavam apenas os Trinta Povos Guaranis, mas lá viviam cerca de 150 mil
almas. No auge de seu poderio arquitetônico, econômico e artístico, porém, as
fabulosas reduções voltaram a ser arrasadas – e, então, para sempre.


Passados dois séculos e meio, a experiência que, durante 150 anos, os jesuítas
espanhóis realizaram com os Guarani, no Paraguai, Paraná, Mato Grosso, norte
da Argentina e oeste do Rio Grande do Sul ainda desperta assombro e inflama a
polêmica. Foi assim desde o início: os filósofos Voltaire, Diderot, Montesquieu e
Bacon deram opiniões sobre o projeto missioneiro. Reis, papas e generais o
discutiram. Por fim, dois impérios se uniram para derrotá-lo.
Qual é, afinal, o significado das Missões jesuíticas do Paraguai? Foram de
fato um “projeto comunista”? Sua criação baseou-se em A utopia de Thomas
Morus? Ou o modelo literário que inspirou os jesuítas teria sido A República, de
Platão, ou A Cidade do Sol, de Campanella? Até que ponto a obra dos padres foi
humanitária? Não teria sido antes o caminho mais curto para o genocídio
guarani?
Milhares de páginas já foram escritas, mas as missões se mantêm um enigma
– senão histórico, pelo menos ideológico. Com lajes escarlates e muros hirtos,
suas ruínas – carcomidas pelo tempo e engolidas pelos cipós –, ainda hoje
visitadas por sobreviventes Guarani, apenas acentuam os tons do mistério.
As primeiras reduções – São Loreto e São Inácio, ambas às margens do rio
Paranapanema, no atual estado do Paraná – foram fundadas em 1609. Marcam o
início da primeira fase das missões guaraníticas, que se estenderia até 1641,
quando os indígenas foram autorizados pelos padres a enfrentar os bandeirantes
paulistas, vencendo-os na batalha de M’bororé. Ao longo destas cinco primeiras
décadas, os jesuítas fundaram mais de cinquenta reduções, no Guairá (entre os
rios Paranapanema e Iguaçu, no Paraná), no Itatim (à margem esquerda do rio
Paraguai, no atual Mato Grosso do Sul), no Tape (oeste do Rio Grande do Sul) e
entre os rios Uruguai e Paraná (no Rio Grande do Sul e na Argentina).
Das reduções criadas no alvorecer do século XVII não restam vestígios – elas
eram como a de São Francisco Xavier, que o padre alemão Paucke descreveu em
1650: “As cabanas de palha dos índios, de dois metros e meio de altura, são
separadas por um trilho de lama fedorenta. A igreja e as habitações dos padres
são de couro e parecem tendas de ciganos. A igreja tem teto de palha, o sino é
preso num poste e o altar é de tijolos de barro cozidos ao sol.”
Essa fase inicial das missões encontrou na figura dos padres Roque González
e Ruiz de Montoya seus dois heróis épicos. Gonzalez, desbravador do Tape,
“pajé branco”, agricultor, arquiteto, polemista e orador, foi morto numa


conspiração urdida pelo pajé destronado Nessu. Ruiz de Montoya, o apóstolo por
excelência, realizador incansável, foi o articulador do grande êxodo de 1630,
quando conduziu dez mil índios em 700 barcos e balsas por 300 quilômetros, rio
e selva abaixo, para além das cataratas do Iguaçu e para longe da ameaça dos
“terríveis paulistas”.
A marcha épica de dez mil indígenas pelas florestas e pelas corredeiras
selvagens dos rios Paraná e Iguaçu – que cobraram pelo menos duas mil vidas,
além dos quatro mil fugitivos que preferiram se embrenhar na mata a prosseguir
naquela jornada desesperada – não foi o único preço que os jesuítas tiveram de
pagar por um século de paz. Haveria ainda um outro custo, embora este viesse a
ter o doce sabor da vingança. Em 11 de março de 1641, no arroio M’bororé, um
afluente da margem direita do Uruguai (hoje em território argentino, mas nunca
plenamente identificado), os Guarani depararam-se com mais uma bandeira de
paulistas. Desta vez, porém, armados com canhões de bambu e com o apoio dos
padres, venceram o confronto, matando mais de 200 mamelucos (leia no

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