Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
cento e sessenta as aldeias incendiadas/ mil casas arruinadas pela chama
devoradora/ assolados os campos/ passado tudo a fio de espada”.
STADEN E OS CANIBAIS
O arcabuzeiro alemão Hans Staden é um dos personagens mais cativantes do Brasil colonial. Disposto
a conhecer os mistérios de além-mar, partiu de Hesse, na Alemanha, para Portugal, com intenção de
visitar a Índia. Uma vez em Lisboa, acabou por engajar-se, como artilheiro, num navio com destino a
Pernambuco. Lá chegou em 1547, logo se envolvendo na luta contra os indígenas. Em 1548, de volta à
Europa, alistou-se numa expedição espanhola ao rio da Prata. Depois de várias peripécias e
naufrágios, foi parar em Bertioga – SP. Em janeiro de 1554, Staden caiu prisioneiro dos Tupinambá e
foi levado para Ubatuba – RJ. Lá, viveu como cativo por nove meses e meio. Escapou de ser devorado
porque, além de se fazer passar por francês (aliados dos Tupinambá), chorava cada vez que se via
ameaçado. Os nativos o consideraram indigno de ser abatido. Em 1555, de volta à Europa, decidiu
narrar suas aventuras em um livro intitulado Descrição verdadeira de um país de selvagens nus,
ferozes e canibais, situado no Novo Mundo América, desconhecido na Terra de Hessen, antes e depois
do nascimento de Cristo até que, há dois anos, Hans Staden de Homberg, em Hessen, por sua própria
experiência, o conheceu. O livro tornou-se um best-seller desde sua primeira edição, em Marburg, em
1557.



D
Capítulo
5
O BRASIL DOS JESUÍTAS
espojados ou argentários? Libertinos ou libertários? Santos ou
santarrões? Passados cinco séculos, o papel desempenhado pelos jesuítas
no Brasil Colônia permanece imerso em controvérsia. De 1549, quando
desembarcaram na Bahia, até 1759, quando, pelas artimanhas do marquês de
Pombal, foram expulsos de Portugal e de suas colônias, os jesuítas se revelaram
uma das forças mais ativas na conquista e na colonização do Brasil. Sem eles, a
empresa colonial teria outros rumos e outros destinos – quais, é difícil supor.
Julgar o conjunto da obra jesuítica à luz de conceitos atuais, porém, é incorrer
num erro tão gritante quanto o dos próprios padres quinhentistas em sua
pretensão de avaliar a mentalidade e os costumes indígenas de acordo com as
crenças e os dogmas da Europa de fins do século XVI – uma época marcada pela
intolerância religiosa, pelo etnocentrismo e, acima de tudo, pela Contrarreforma.
Desde o início, a polêmica esteve no âmago da ação jesuítica, já que, embora
antagônicos em tese, catequese e colonialismo andaram sempre juntos. Os
jesuítas lutaram contra a escravização dos indígenas, mas o plano de
catequização que puseram em prática – e a consequente concentração dos índios
em aldeamentos ou “missões” – não apenas resultou em tragédia, em razão dos
graves surtos de doenças infecciosas, como facilitou a ação dos escravagistas. Os
próprios jesuítas, o padre Nóbrega à frente, tinham escravos e acreditavam na
doutrina aristotélica da servidão natural de povos “inferiores”. Para defender os
nativos, estimularam o tráfico de africanos. Mas quando a paz que tinham
firmado com os Tamoio foi rompida pelos portugueses, os padres nada fizeram.
Os jesuítas se empenharam em submeter os indígenas aos rigores do trabalho
metódico, aos horários rígidos, ao latim e à monogamia. Combateram o
canibalismo, a poligamia e o nomadismo – e, assim, acabaram sendo
responsáveis pela desestruturação cultural que empurrou para a extinção
inúmeras tribos. Por outro lado, foi graças à ação evangélica que a língua e a


N
gramática tupi acabaram sendo registradas e preservadas.
Nada reflete melhor a dubiedade que marcou a obra dos jesuítas no Brasil do
que a fundação de São Paulo. Disposto a catequizar os Guarani do Paraguai, o
padre Nóbrega autorizou o estabelecimento de um posto avançado no planalto de
Piratininga. Mas São Paulo logo acabaria se transformando em um polo
escravista e dali os jesuítas logo foram expulsos. Nóbrega jamais recebeu
autorização para enviar uma missão ao Paraguai, onde a obra de catequese seria
concretizada pelos jesuítas espanhóis – e, a seguir, destroçada pelos bandeirantes
paulistas instalados justamente na cidade que Nóbrega e Anchieta haviam
fundado.
De todo modo, não restam dúvidas que, ao fim e ao cabo, o papel
desempenhado pelos jesuítas no Brasil foi tremendamente conservador. Criada
como uma espécie de “exército de Cristo”, a Companhia de Jesus tornou-se o
principal organismo da Contrarreforma, sendo favorável à Inquisição e às
normas restritivas ditadas pelo Concílio de Trento, lutando contra os avanços do
humanismo renascentista, contra reflexões filosóficas e debates intelectuais – e
contra os livros. No entanto, não fossem as cartas e os relatórios minuciosos
daqueles padres – os jesuítas praticamente não davam um passo sem registrá-lo
–, seria praticamente impossível reconstituir a história do Brasil Colônia.
INÁCIO DE LOYOLA

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