Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Os mais dramáticos e surpreendentes episódios da história geológica do Brasil – embora permaneçam
desconhecidos pela absoluta maioria dos brasileiros – foram as chamadas “transgressões marítimas”,
denominação dada aos períodos nos quais o mar “invadiu” boa parte do território que hoje constitui o
país. Tais acontecimentos se desenrolaram na escala do tempo geológico, o que os torna extremamente
complexos e cambiantes. Mas, em linhas gerais, pode-se resumir a ação “transgressora” do oceano em
dois momentos-chave. O primeiro ocorreu no período Siluriano (entre 443 e 417 milhões de anos atrás),
muito antes do surgimento da cordilheira dos Andes, quando virtualmente toda a porção oeste da América
do Sul era ocupada por um “mar siluriano”, que se expandia por toda a bacia amazônica, através da qual
“desaguava” no oceano Atlântico. Maior e ainda mais espantosa é a ação do chamado “mar devoniano”,
que, entre 417 e 354 milhões de anos atrás, inundou boa parte do território brasileiro, ocupando as atuais
bacias do Paraná e do Maranhão, unidas pela chamada “passagem marinha Araguaia-Tocantins” (um
braço marítimo que se localizava ao largo dos vales hoje ocupados por aqueles dois rios). Um terço da
superfície do Brasil esteve recoberto pelas águas rasas e fervilhantes de vida desse mar ancestral.
O LEGADO PRÉ-HISTÓRICO
ontinua sendo difícil estabelecer um quadro global e coerente da pré-história
brasileira. O desafio tem-se revelado frustrante para os pesquisadores
porque, além de compreender um período de tempo que, talvez, seja de cerca de
quinhentos séculos (ou 50 mil anos), a área de pesquisa – estendendo-se da
Amazônia ao Pampa e do Nordeste ao Pantanal – possui vastidão continental.
Como se não bastasse a amplitude do tempo e do espaço – e as enormes
modificações climáticas ocorridas na região ao longo de milênios –,
pouquíssimas pesquisas foram realizadas no Brasil antes de 1965. E, nessa
época, como ainda ocorre hoje, milhares de sítios arqueológicos já haviam sido
destruídos.


Não se sabe com certeza desde quando o homem está na América, embora a
estimativa e a via de penetração oficialmente aceitas – doze mil anos atrás,
através de migrações via estreito de Behring (a ponte de gelo que, em épocas
glaciais, unia a Ásia ao Alasca) – estejam sob o ataque constante de novas
datações e novas teorias. Há indícios (ainda não inteiramente comprovados) de
que os primeiros paleoíndios possam ter chegado ao Brasil há pelo menos 50 mil
anos e que talvez tenham vindo por via marítima, descendo ao longo da costa
americana do Pacífico. Seja como for, é certo que por volta de 12 mil A.P. (ou
Antes do Presente, que, por convenção, significa “antes de 1950”) – como dizem
os arqueólogos –, durante a transição entre os períodos Pleistoceno e Holoceno,
boa parte do território hoje brasileiro já se encontrava ocupado por grupos de
caçadores e coletores pré-históricos.
Tais grupos são divididos pelos arqueólogos em tradições, estabelecidas de
acordo com os resquícios de sua cultura material – essencialmente instrumentos
de pedra e pinturas rupestres. Grande parte das atuais regiões Nordeste e Centro-
Oeste do Brasil, por exemplo, era ocupada por membros da chamada tradição
nordeste, que possuía indústria lítica refinada e fazia belas pinturas rupestres. Ao
redor de sete mil anos atrás, esse grupo foi substituído pelas tribos da tradição
agreste, que não dominava as artes, exceto a da guerra. No Sul, a tradição mais
antiga é a ibicuí, estabelecida na bacia do rio Uruguai há cerca de treze mil anos.
Eram caçadores que enfrentavam e se alimentavam de animais da megafauna,
como o megatério. Entre 6.500 e 2.000 A.P. surgiu, da região que agora é o
Estado de São Paulo para o Sul, a tradição humaitá. A agricultura desenvolveu-
se a partir de 3.500 A.P., e a cerâmica, pouco depois. Não é fácil estabelecer um
vínculo preciso entre os grupos pré-históricos e as tribos indígenas que seriam
encontradas pelos portugueses a partir de abril de 1500. Na verdade, muitos dos
primeiros habitantes do Brasil se extinguiram, ou foram massacrados, ou
absorvidos por grupos indígenas que chegaram ao território brasileiro muitos
séculos depois daqueles pioneiros.
De todo modo, o certo é que, quanto mais se iluminarem as trevas do
passado, mais o Brasil conhecerá seu próprio futuro.
O SENHOR DAS OSSADAS


Q
Foi um encontro fortuito e desconcertante, mas, acima de tudo, revelou-se uma coincidência decisiva.
Em outubro de 1834, Peter Lund, naturalista dinamarquês – homem refinado, culto e rico, amigo do
filósofo Sören Kierkegaard –, cavalgava pelo mar de morros areentos e chapadões requentados do
cerrado de Minas Gerais. No vilarejo de Curvelo, parou para descansar numa taberna imunda à beira
da estrada. Lá, acabou deparando-se com o também dinamarquês Peter Claussen, um sujeito em tudo
diferente dele: brutal, ganancioso e rústico. Ainda assim, aquele seria um momento fundamental não
só para o próprio Lund mas para a história da ciência mundial. Foi Claussen quem conduziu Lund às
grutas calcárias repletas de ossadas de animais “antediluvianos” dispersas por todo a vale do rio das
Velhas. Aqueles eram os primeiros fósseis encontrados no trópico, e a eles Peter Lund dedicaria o
resto de sua vida. Durante meio século, passado nas mais árduas condições, Lund se entregou às
páginas de pedra do grande livro que, ao longo dos milênios, a natureza havia inscrito nas
reentrâncias encantadas das grutas de Minas Gerais. Penetrou em mais de duzentas cavernas e
identificou as ossadas de 115 mamíferos pré-históricos. Em 1843, depois de descobrir fósseis como os
do megatério (o “preguiça gigante”) e de visitar inúmeras vezes a soberba gruta de Maquiné, Lund fez
a mais espantosa de suas descobertas: os ossos do Homem de Lagoa Santa – os primeiros vestígios de
ocupação humana até então encontrados no Novo Mundo. Apesar de nunca mais ter saído de Minas
Gerais, Lund – cujo trabalho era financiado pela Sociedade de Ciências de Copenhague – tornou-se
famoso na Europa, sendo citado por Charles Darwin (de quem discordava) no clássico A origem das
espécies. Lund escreveu mais de 40 livros sobre a fauna e a flora pré-históricas do Brasil, a maior
parte deles ainda inédita em português. Morreu em maio de 1880 e está enterrado na sua amada
Lagoa Santa.
OS PRIMEIROS BRASILEIROS
uem foram os primeiros – os autênticos – descobridores do Brasil? Que
visão tiveram do território – em que época e a partir de que região? As
respostas ainda estão longe de ser conclusivas. Uma coisa, porém, é certa:
quanto mais sabem, mais os arqueólogos descobrem quanto ainda falta saber. A
complexa e fascinante questão sobre quem foram os “primeiros brasileiros”
passa, evidentemente, pela indagação primordial: quem foram os primeiros seres
humanos a colonizar o que viria a ser chamado de América? Sabendo-se que
jamais existiram, no continente, grandes primatas que pudessem evoluir para a
forma humana, arqueólogos e antropólogos cedo partiram da premissa de que os
homens haviam chegado ao Novo Mundo vindos de outro (ou outros)
continentes. Mas de onde e quando?
A primeira e mais óbvia resposta apontava para uma migração através do
estreito de Behring – transformado numa ponte de gelo que, durante os períodos
glaciais, unia o extremo leste da atual Sibéria, na Ásia, ao extremo oeste do
Alasca, na América. Arqueólogos norte-americanos consideram o período entre


11 mil e 11.500 anos A.P. o mais propício para aquela dificílima travessia. Mas a
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